És brinquedo? És obra de arte?

És brinquedo? És obra de arte?

A Casa da Arquitetura, em Matosinhos, apresentou a exposição “Virgínio Moutinho — Na Oficina do Arquiteto”, uma retrospetiva única que revela quatro décadas de criação artística e experimental do arquiteto e construtor de brinquedos.

Junto à porta, sob um peixe voador que do teto pende, leio: “Perché non parli?” (“Porque é que não falas?”), diz-se ter Michelangelo indagado, ao finalizar o seu realista e majestoso Moisés, numa suave martelada na superfície esculpida. De olhos fitos no alto, deixo que outras perguntas se juntem à primeira: És um brinquedo? És obra de arte?

Estamos na Casa da Arquitectura de Matosinhos “Na Oficina do Arquitecto”, mostra dedicada à obra de Virgínio Moutinho. Chegámos aqui no enlevo do “enunciado vitruviano que restitui à função dos objetos o seu espírito lúdico” anunciado no documento que divulga e explica a iniciativa.

Esta é efetivamente uma exposição única, uma celebração do prazer e da importância de brincar. Na infância de D. Bosco, a Mãe Margarida “animava as suas brincadeiras e inventava outras, sem se aborrecer com a algazarra, nem com as perguntas, muitas vezes sem pés nem cabeça”.

Eram jogos abertos a infinitas oportunidades para explorar, para falar à vontade, arriscar, no faz-de-conta em que a criança aprende sobre si, sobre o mundo, e se dá também a conhecer. Viemos, portanto, como educadores inspirados em D. Bosco, e estamos encantados diante das obras de Gino (Virgínio Moutinho), arquiteto, escultor, designer, fotógrafo e construtor de brinquedos. São quase 500 peças a ocupar o espaço inteiro da nossa visão e comoção.

És brinquedo? És obra de arte?

Junto aos primeiros brinquedos, um livro sobre máscaras africanas, outro sobre Klee, um manual da Meccano. No horizonte, engenhos que lembram Da Vinci, “máquinas desejantes de brincar”, esculturas cinéticas a lembrar o trabalho de Calder ou de George Rickey. Parece uma oficina renascentista, onde arte e artesanato se fundem com ciência e tecnologia: “jogos de bielas e manivelas, engrenagens, cremalheiras, nos seus maquinismos brincantes, nas suas articuladas geringonças, onde o corpo se transmuta em movimento, som, sorriso”. E nós vamos atrás dele, em correria, como na infância, que aqui não é um tempo, mas sim um lugar. Um lugar de gáudio, jogo, bondade, felicidade… “Dê-se ampla liberdade de correr, saltar e gritar à vontade”, dizia Dom Bosco. Também aqui ouvimos o eco da sua voz e dos seus jovens e lembramos que os seus pátios da alegria podem ser encontrados em muitos lugares. Todos os brinquedos de Gino são feitos de coisas pobres e elementares: pinças de crustáceo, papel e cola, madeira, latão, arame, cartão, fio de cobre, molas, couro, sucata, desperdício, ar e movimento. Brinquedos pensados numa circularidade/reconstrução. São obras de autor, mas também subsidiárias de uma consciência coletiva, que repensa a sustentabilidade num mundo industrializado.

Como lembra Norma Pott, no site do arquiteto: “E é neste jardim fecundo e pleno de encanto e de narrativas que, finalmente, percebemos como verdadeiramente todos nós vivemos para lá do tempo e do lugar, o eterno prazer de brincar”.

Fotografia João Ramalho

Publicado no Boletim Salesiano n.º 613 de janeiro/fevereiro de 2026

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