Na Guatemala? Já esteve. Em Papua-Nova Guiné? Também. No Sudão? Igualmente. “É mais fácil listar os países onde não estive” – diz, sorrindo, o salesiano de 87 anos.
Antonio Saglia, Salesiano Irmão, professo desde 1957, antigo mestre de Artes Gráficas, já percorreu o mundo a registar a vida nas missões ligadas a Dom Bosco. No seu escritório em Valdocco, aos 87 anos recorda que a sua “carreira” começou quase por acaso. “Era 1970. Um salesiano que vivia no Brasil conhecia a minha paixão pelas máquinas de filmar e pediu-me para ir documentar as missões na Amazónia”. “Ao aterrar em Manaus, segui viagem numa embarcação onde me entregaram um pano enrolado, coisa que eu nunca tinha visto antes: uma rede de dormir”, conta. “Ao almoço e ao jantar – diz – comíamos tudo o que era pescado, incluindo tartaruga!”. Antonio levava consigo uma Paillard, câmara de mola com três lentes ópticas, com a qual registava a vida do povo Yanomami. “Viviam quase completamente nus, em cabanas na floresta. No início, fugiam da câmara; depois, tirei algumas polaroides e mostrei às crianças: ficaram encantadas! Elas tocavam nas fotografias, incrédulas…”
Na Amazónia, Antonio Saglia viveu uma das experiências mais singulares das suas viagens. “Eu estava doente e deram-me uma bebida tradicional dentro de um coco – recorda. Depois descobri que entre os ingredientes estavam os ossos triturados de um… yanomami falecido, com banana”.

As primeiras viagens ocorriam apenas durante o verão, quando a escola estava fechada para férias. A partir de meados dos anos 1990, Antonio reformou-se e passou a visitar ainda mais as missões. “Devo ter produzido cerca de 70 documentários”, afirma. A maior parte deles foi digitalizada e hoje está conservada no Centro Experimental de Cinematografia – Arquivo Nacional do Cinema Empresarial, em Ivrea.
Visitou praticamente toda a África, “sem nunca contrair malária”. A experiência mais marcante, porém, ocorreu na Índia, quando visitou os leprosários. “Ver aqueles olhares e aquelas expressões desfiguradas foi no mínimo… terrível. Certamente a cena mais comovente de todas as minhas viagens”.
Não há região do planeta, por mais remota que seja, onde Saglia não tenha estado. Chegou até mesmo a cidades controladas por narcotraficantes na Colômbia. Na sua longa “peregrinação”, teve a oportunidade de contemplar paisagens naturais de tirar o fôlego. “Entre todas, ao sul do Sul, a travessia do Estreito de Magalhães, na Terra do Fogo, entre Chile e Argentina. Mas também a ilha dos Lemures, em Madagáscar: nunca vi um mar tão cristalino”.
Em 45 anos de viagens, naturalmente não faltaram imprevistos. Um deles ocorreu na Papua Nova Guiné, no Pacífico. “O barco avariou e não tínhamos telefone para pedir socorro. Depois de uma noite à deriva, fomos resgatados por alguns papuas, que, no entanto, não encontravam a nossa ilha. Só chegámos lá depois de muitas horas e alguns momentos de real e grande apreensão”.
Em 2015, 45 anos depois da primeira, chegou a última viagem: um percurso por várias missões em África. Nessas terras, aprendeu a cultivar o otimismo e ainda guarda na memória os sorrisos das crianças.
Fotografias: Missioni Don Bosco
Publicado no Boletim Salesiano n.º 615 de maio/junho de 2026
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