Saudades de Deus

Saudades de Deus

Lembro-me de um encontro com um jovem casal que se preparava para o batismo do filho. Do interesse de um e da indiferença do outro. As raízes de ambos mergulhavam nos valores cristãos. Mas o ambiente cultural onde cresceram e se formaram, ambos arquitetos, criou uma espécie de constrangimento sobre as opções a tomar em relação à educação religiosa dos filhos. O conceito é por demais conhecido: quando forem grandes decidem… e, no decorrer do diálogo, saltou, inesperadamente, a pergunta: podemos adiar a transmissão dos valores culturais ou os padrões de comportamento social?…

É unânime o pensamento de que a questão de Deus e da religião corresponde a uma necessidade profunda do ser humano e continua a ser, na pós-modernidade, um assunto de relevo para crentes e não-crentes. Não deixa de haver uma espécie de nostalgia de Deus, uma disponibilidade do coração humano para aceitar a ideia da transcendência. De facto, um dos jovens pais, a um determinado momento, afirmou: julgo que somente em Deus podemos encontrar o sentido último da vida. E já no fim do encontro, no emaranhado dos argumentos, um deles sussurrou:  tenho receio de que o nosso filho venha a ter saudades de Deus.

O significado da vida tem de ser procurado, não é algo doado, educa-se para que haja lugar para a surpresa. Ter um propósito, uma bússola que oriente o caminho é imprescindível, sobretudo em circunstâncias adversas. Não se trata de impor. Trata-se de propor com serenidade e inteligência porque as coisas do coração também se apreendem por osmose.

Ter saudades de Deus… acontece quando se tem uma vida febril, trepidante, sem horários, até que um dia, num instante, o silêncio dispara. E experimenta-se como é pesada a solidão. Tudo é abismo. Angústia. Contradição. E no labirinto emocional da soledade as perguntas sobre o sentido da vida e da morte irrompem e queimam os tecidos da alma: quem sou? O que quero? O que me espera? Onde encaixo e onde sinto que não caibo?

Maria João Pires, intérprete ao piano, que lhe trouxe reconhecimento mundial, perguntava em recente entrevista: “Donde vem a música? A música vem de um compositor, mas então e o compositor, donde vem o que ele escreveu?” E, num suspiro melancólico, afirmou: “Não se toca piano com as mãos”.

“Quem tem um porquê, suporta qualquer como”, escreveu Nietzsche.

Dar um sentido à vida é o Bem Maior que alguém pode alcançar.

Publicado no Boletim Salesiano n.º 613 de janeiro/fevereiro de 2026

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Saudades de Deus

Ilustração Sónia Borges

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