“Os pobres não estão à margem de cada um. Eles estão no meio de nós”

Na quinta celebração do Dia Mundial dos Pobres, o Papa Francisco deixa-nos uma mensagem que sentimos como um abalo aos corações e ao modo como a pobreza é tantas vezes encarada por cada um de nós. É um abalo que expande o nosso olhar para uma nova perspetiva, que aponta para uma abordagem diferente da pobreza e que impele a uma generosidade que dê com a carícia do amor.

Na sua mensagem, o Papa Francisco relembra as palavras de Jesus: «Sempre tereis pobres entre vós» (Mc 14,7). Estas suas palavras revelam que a pobreza não é uma fatalidade da nossa sociedade e um problema social que se pode ir apaziguando apenas com beneficência, mas antes que a pobreza é a presença de Deus no meio de nós. É nos pobres que O descobrimos e, por isso, são os pobres os nossos “verdadeiros evangelizadores”.

Os pobres não estão à margem de cada um, num lugar escondido e à parte de nós. Eles estão no meio de nós e é através deles que nos aproximamos e que encontramos Deus, porque Deus é o pobre que bate no nosso coração. Aqui começa o abalo de que falávamos no início, porque não são os melhores diagnósticos e as melhores estatísticas que nos aproximam dos pobres. Não é aí que compreendemos o que sentem, as necessidades por que passam e os sonhos que têm. É, antes, na oportunidade de os abraçar, como o Papa Francisco recorda através das já antigas palavras do Pe. Primo Mazzolari, em 1949: «Os pobres abraçam-se, não se contam».

Mas o que significa este abraçar? Poderemos convencer-nos, como tantas e tantas vezes, de que abraçamos os pobres quando fazemos esmola, quando damos o que não nos faz falta, quando ajudamos a quem vem ter connosco ou até quando realizamos campanhas em favor de quem mais precisa. Poderemos convencer-nos disto tudo, mas se nos abrirmos à nova perspetiva de que o Papa Francisco nos fala, percebemos que estes gestos de beneficência não representam o verdadeiro abraçar. Poderão fazer-nos sentir melhor connosco próprios e poderão até representar uma pequena contribuição, é verdade, mas não representam o verdadeiro abraçar que Jesus nos ensinou.

Leia também  Laudato Si': Um ano para refletir sobre a ecologia integral como novo paradigma da justiça

E que abraçar é este? A mensagem do Papa Francisco torna-nos conscientes dos desafios maiores que devemos seguir para que, nos nossos abraços aos pobres, possamos encontrar Deus.

Um destes desafios já todos o conhecemos. Devemos prestar atenção ao outro, escutar aqueles que nos rodeiam, compreender as suas necessidades, viver as suas preocupações, para conseguirmos, efetivamente, o seu bem. Conhecemos bem este desafio e, por certo, todos concordamos que tal implica um movimento proativo da nossa parte. Tal significa que devemos sair de nós para ir em busca do outro, que não podemos ficar à espera que nos peçam ajuda, mas que devemos ter uma atenção especial e ir ao encontro de quem precisa de um abraço. Que possamos, muito para além de conhecer este desafio, aprender o caminho do fazer!

Um outro desafio impele-nos a um abraço que brote da partilha, da fraternidade e da reciprocidade. Este abraço não pode ser unidirecional. Este abraço deve abrir espaço para que os pobres possam ser também aqueles que dão. Na sua mensagem, o Papa Francisco salienta: «É verdade que são pessoas a quem falta algo e que por vezes até muito, se não mesmo o necessário; mas não falta tudo, porque conservam a dignidade de filhos de Deus que nada nem ninguém lhes pode tirar». Ao longo de mais de uma década, a nossa experiência no Serviço SolSal, a cuidar das crianças, dos jovens e das famílias mais pobres, não poderia espelhar melhor o que isto significa. É nos talentos e nas capacidades de cada um, nas suas forças e virtudes, nos seus sonhos e desejos, nas suas experiências e saberes, que alimentámos corações – os deles e os nossos. É, então, neste abraço que podemos sair de nós mesmos para testemunhar o Amor de Deus e, magnificamente, para que Deus possa também entrar no nosso coração.

Leia também  D. Bosco agora

Este dia torna-se, assim, uma oportunidade para sairmos de nós mesmos e seguirmos o caminho que nos leva ao encontro do outro, para sonharmos obras capazes de revelar o amor incondicional de Deus e para que, nos abraços que damos aos pobres, O possamos também descobrir, vivificando os nossos corações!

Alexandra Constantino e Diana Almeida – Serviço Social Salesiano

Artigos Relacionados