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Fátima: cem anos depois

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O Papa Francisco em Fátima. Peregrinando e buscando a sintonia entre a raiz materna e a espiritualidade do aconchego. Através de Maria, Mãe de Jesus.

Mediaticamente falando, o que mais “rende” é negar Fátima ou escarnecer de quem crê. Certamente haverá quem ao ler este texto não resista à tentação, não direi de mim discordar com toda a liberdade e igual legitimidade, mas de ceder à tentação fácil do escárnio por uma pretensa superioridade pseudo iluminista e preguiçosamente positivista.

A minha Fé não depende de Fátima, mas eu gosto de Fátima. Em liberdade dentro de mim. Vou com o conforto da boa dúvida: como e porquê nos confins do mundo, crianças pobres, sem estudos, ingénuas, inocentes, simples nos legaram a perenidade de uma revelação privada que em nada contraria a Revelação do Evangelho?

Fátima resistiu a tudo. Ao tempo. Aos regimes políticos. Ao anticlericalismo persecutório. Ao materialismo dialéctico. Ao pecado. Às poderosas tecnologias. Ao discurso da correcção política e religiosa. Ao ateísmo humanitário. À banalização do mal. Ao positivismo. À religião-opinião. À religião do talvez ou à crença do de vez em quando.

Citando Paul Claudel, Fátima foi e é “uma explosão transbordante do sobrenatural neste mundo prisioneiro da matéria”.  Da luz que há para além das trevas, da esperança que não se esgota no desejo do dia seguinte, da imersão em espiritualidade num mundo subjugado ao apenas “ter mais”, da paz interior que não é fungível em doses de medicamentos, da interrogação sobre o que somos, para além do que sabemos.

Não sei se a Senhora apareceu aos pastorinhos. E por que havia eu de saber na insuficiência do meu entendimento para além de certos limites? Cada um vai a Fátima com a predisposição e humildade de construir a sua própria Fátima, enquanto peregrinação interior no santuário da consciência.

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O Cardeal Ratzinger, em 2000, escreveu: “A antropologia teológica distingue […] três formas de percepção ou “visão”: a visão pelos sentidos, ou seja, a percepção externa corpórea; a percepção interior; e a visão espiritual (visio sensibilis, imaginativa, intellectualis). É claro que, nas visões de […] Fátima, não se trata da percepção externa normal dos sentidos: as imagens e as figuras vistas não se encontram fora no espaço circundante […]. Isto é bem evidente no caso da visão do inferno […]. De igual modo, é claro que não se trata duma “visão” intelectual sem imagens, como acontece nos altos graus da mística. Trata-se, portanto, da categoria intermédia, a percepção interior que, para o vidente, tem uma força de presença tal que equivale à manifestação externa sensível. Este ver interiormente não significa que se trata de fantasia, que seria apenas uma expressão da imaginação subjectiva. Significa, antes, que a alma recebe o toque suave de algo real, mas que está para além do sensível, tornando-a capaz de ver o não-sensível, o não-visível aos sentidos: uma visão através dos “sentidos internos” […].

Há muitas e discutíveis Fátima. Umas mais profundas e silenciosas, outras mais crédulas ou supersticiosas, outras mais “contabilísticas”, outras mais redentoras, outras mais sacrificiais ou penitenciais, outras mais anestesiantes ou eivadas de temor, outras mais peregrinas (etimologicamente, “pelos campos”) ou mais excursionistas.

Mas Fátima é cada vez mais Fátima, num tempo mais fóbico em relação ao transcendente. Não só subsiste e resiste, como se robustece e transporta algo de misteriosamente belo e profundamente conversor. Sublimemente sensível.

Cito Bento XVI: “Procurai fazer coisas belas, mas sobretudo tornai as vossas vidas lugares de beleza”. Fátima a isso nos convida. A ver o caminho. E a porta. No silêncio transbordante e no júbilo esperançoso. 

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(Por vontade do autor este texto não segue o Novo Acordo Ortográfico)
Originalmente publicado no Boletim Salesiano n.º 563 de Julho/Agosto de 2017

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