Um oratório atrás das grades: Padre Domenico Ricca

Padre Domenico Ricca é há 35 anos capelão no Instituto Penal para Menores “Ferrante Aporti”, a prisão juvenil de Turim. A história de um padre salesiano que tenta viver a prisão como um oratório.

Tinha eu talvez 12 anos. Rapazinho da quinta classe no Seminário de Fossano, frequentava a escola das Irmãs Dominicanas. Todas as manhãs íamos a pé do Seminário até às dominicanas e, no caminho, passávamos em frente de uma entrada da prisão de Fossano que, tal como hoje, albergava presos condenados a longas penas. Conservo na mente a nossa imagem «rigorosamente em fila dois a dois», como em certos filmes de colégios de irmãs: a passar em frente da prisão, em manhãs muito frias, depois de grandes nevões. Fora andavam os presos a retirar a neve, de fardas às riscas, vigiados pelos guardas. Uma imagem gravada no meu cérebro de rapaz. Foi quando me dei conta que existiam os presos. Um mundo tão distante que 20 anos depois se tornou a minha vida.

O meu primeiro contacto com a prisão de menores de Turim foi em 1977: jovem padre no Oratório de Valdocco, tinha sido ordenado em 14 de junho de 1975, fui enviado a fazer uma visita à Ferrante. Tinha curiosidade. Ou melhor, a ideia apaixonava-me. Falei com alguns colaboradores. Já tinham projetos… Não se fez nada. O clarão é em 1979, como frequentemente acontece, devido a uma mudança de comunidade. A obediência religiosa pede-me que eu vá para outra zona da cidade: precisamente em frente da Ferrante Aporti, na paróquia de S. João Bosco, Oratório Agnelli. A frase do meu superior: «Ali está a Ferrante Aporti, tem lá ido o pároco mas não consegue dar conta do recado porque tem um monte de outras tarefas: se quiseres, vai ver». Naquela tarde, por coincidência, fui ver a minha família. A minha mãe notou e perguntou-me o que tinha. Tentei não lhe dizer tudo, mas escapou-me: «Perguntam-me se quero ir para a prisão». Não vou narrar o seu mal disfarçado desapontamento: dava muita importância à minha vocação. Tinha medo que me perdesse…

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Transpus a porta com muito receio, devo dizer, e com as palavras da minha mãe na cabeça: «Mas tem mesmo de ser uma prisão?». Então, vendo os rapazes, disse comigo: «Mas estes rapazes são mais ou menos os que encontro no oratório». Comecei a trabalhar, a propor a mesma dinâmica do oratório. Apresentava-me: «Sou o capelão, se precisares de mim vem ter comigo». Nunca perguntei «porque estás aqui?». Sobre isto há uma advertência de S. José Cafasso aos padres que com ele visitavam os presos, entre eles Dom Bosco em 1841: «Nunca perguntar fora da confissão sacramental os motivos por que estão presos».

A minha nomeação para capelão da Ferrante Aporti deu-se em 27 de outubro de 1980. Só tinha a ideia de fazer aquilo que fazia no oratório; depois dei-me conta de que algumas coisas não se podiam fazer e outras sim. Acompanhei durante muito tempo os rapazes, a sua inserção escolar, dentro e fora. Tive a ajuda de um bom grupo de voluntários do oratório. Acompanhei muitos rapazes e levei muitas «bofetadas». Se pensar nas horas que passei à espera deles nos encontros, no dinheiro que gastei ou me gastaram em pequenos apoios! Poderia ter feito porventura outras coisas, poderia ter vivido outra vida com aquele tempo de espera. Mas estou cada vez mais convencido de uma coisa: no fim, não posso dizer que fiquei de mãos vazias. As minhas expetativas ficaram frustradas, mas as realizações dos rapazes devem avaliar-se de outra maneira. Paradoxalmente, no momento em que, farto e cansado, os abandonei um pouco a si mesmos, abriram as crisálidas e começaram a voar.

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Há 10 ou 15 anos, viajava no comboio Turim-Mestre e devia mudar em Milão. Dou-me conta de um rapaz que me fixa da ponta da carruagem: está vestido de condutor, com uma farda luxuosa, casaco vermelho e chapéu. Chegamos à estação de Milão, descemos do comboio, ao mudar de linha vejo o tal rapaz atrás de mim, eu à espera do comboio Milão-Veneza e ele ainda ali. Vem ao meu encontro e diz-me: «Mas tu não és o Mecu?» (nome pelo qual eu sou conhecido) «Sim, e tu quem és?». «Eu sou o “Eduardo”, estive na Ferrante, nos anos “assim e assim”». «Mas como é que estás tão bem vestido, tão elegante, aí com essa farda?». «Porque sou condutor da linha Milão-Paris». Penso: mas este que nos deu tantas chatices… E lembrei-me de várias… E agora ali, com uma profissão, com orgulho de si mesmo, com orgulho também de se apresentar, de se dar a conhecer, de me contar. Talvez também uma forma de nos dar a entender e de nos assegurar que com ele não tínhamos errado tudo.

Fiz a experiência de como os rapazes são imprevisíveis mesmo no bem. Dom Bosco ensinou-nos que «em todo o jovem, mesmo o mais desgraçado, há um ponto acessível ao bem e o primeiro dever do educador é procurar esse ponto, essa corda sensível do coração e tirar proveito dela».

Texto adaptado de Boletim Salesiano de Itália. Publicado no Boletim Salesiano n.º 560 de Janeiro/Fevereiro de 2017

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