Mensagem do Reitor-Mor, Pe. Fabio Attard, aos leitores do Boletim Salesiano.
A parábola do fariseu e do publicano (Lc 18,9-14) para nós educadores e evangelizadores não é simplesmente uma narrativa moral sobre a soberba e a humildade, mas uma revelação profunda sobre como Deus nos encontra e sobre como somos chamados a transmitir esta experiência transformante
A fé como chamamento a uma relação de misericórdia
Quando o fariseu sobe ao templo, leva consigo uma imagem de Deus construída à sua própria medida: um Deus que regista méritos e deméritos, que permeia os justos e condena os pecadores. A sua oração é uma comparação com os outros: “Dou-te graças porque não sou como os outros homens“. Há só a autocomplacência.
O publicano, pelo contrário, entra no templo consciente da sua própria indignidade. O seu “Ó Deus, tem piedade de mim pecador” não é desespero, mas a abertura corajosa a uma relação possível precisamente porque fundada na misericórdia. Ele intui aquilo que o fariseu perdeu: Deus não é um juiz, mas um Pai que aguarda o regresso dos filhos afastados.
Para nós educadores, esta distinção é fundamental. Quantas vezes, inconscientemente, transmitimos uma imagem de Deus mais semelhante à do fariseu? Um Deus que observa, avalia, premeia ou castiga em base às nossas performances espirituais? A educação à fé favorece o encontro com a misericórdia, uma experiência em que descobrimos ser amados porque somos filhos amados mesmo na nossa fragilidade.
Evangelizar significa introduzir as pessoas nesta relação misericordiosa, porque Deus que não aguarda a nossa perfeição para nos amar, mas que precisamente na nossa pobreza manifesta a riqueza do seu amor. É esta a boa notícia que devemos anunciar: uma relação que transforma desde dentro.
Uma relação que parte da humildade do coração
A humildade do publicano é a condição que torna possível o encontro com Deus. Ficando “à distância” e “não ousando sequer levantar os olhos ao céu”, ele reconhece a desproporção e infinita entre a santidade de Deus e a sua própria miséria, mas também a confiança que precisamente este Deus Santo se inclina para aquele que se reconhece necessitado.
Ao invés, oração do fariseu está cheia de “eu”: “Eu jejuo”, “eu dou a décima”. Construiu a sua identidade religiosa sobre a afirmação de si, sobre a comparação com os outros, sobre a demonstração das suas obras. Sente-se já cheio, já chegado, já justo.
No campo educativo e evangelizador, a humildade do coração é a capacidade de se reconhecer constantemente necessitado de salvação, de nunca dar por descontada a sua relação com Deus, de se manter aberto ao dom da sua graça. É a atitude de quem sabe que a vida cristã não é uma posse adquirida de uma vez por todas, mas um caminho quotidiano em que uma pessoa se deixa plasmar pela misericórdia divina.
Como educadores, somos chamados a testemunhar em primeiro lugar esta humildade, reconhecendo as nossas limitações, as nossas fragilidades, ou a nossa contínua necessidade de conversão. Só assim nos tornamos credíveis e criamos espaços em que também os outros possam tirar as máscaras e apresentar-se a Deus tais como são.
Ser pecadores amados e perdoados
A conclusão da parábola é desconcertante: “Este, diferentemente do outro, regressou a sua casa justificado”. O publicano, que não tinha nada a apresentar senão a sua própria miséria, recebe tudo. O fariseu, que tinha tanto a exibir, permanece na sua estéril ilusão.
Deus não justifica quem se julga justo, mas quem se reconhece pecador. Não enche mais quem está cheio, mas quem está vazio. Não vai ao encontro de quem não sente a necessidade, mas de quem implora a cura. É o paradoxo evangélico: somos salvos porque, não obstante o nosso ser pecadores, maior é a misericórdia de Deus.
Na educação religiosa contemporânea a parábola indica-nos que, quando reconhecemos o pecado, nos abrimos à graça que transforma. O pecado não nos destrói.
Ser pecadores amados e perdoados não é o status de inferioridade, mas a condição própria do cristão. É a identidade que nos permite viver na liberdade, sem fingir ser perfeitos, sem esconder as nossas quedas, sem construir fachadas de respeitabilidade. É a consciência de que o fundamento da nossa vida está não naquilo que fizemos, mas naquilo que Deus fez e continua a fazer por nós.
Testemunhas da misericórdia de Deus pessoalmente vivida
O publicano que regressa a casa justificado, torna-se inevitavelmente uma testemunha. Não pode calar a experiência de haver sido acolhido, perdoado, levantado. A sua vida falará daquela misericórdia que o transformou.
E é aqui que se joga a verdadeira evangelização. Não anunciamos teorias abstratas sobre a misericórdia de Deus, mas testemunhamos uma experiência pessoal. Falamos de um perdão que recebemos, de um amor que nos procurou e encontrou, de uma relação que deu sentido à nossa existência.
Para quem trabalha no campo da educação e evangelização, isto significa antes de tudo cultivar a sua própria vida espiritual como experiência viva desta misericórdia. Antes de ser mestres, devemos ser discípulos; antes de ensinar, devemos aprender; antes de dar, devemos receber. A credibilidade do nosso anúncio mede-se pela verdade da nossa experiência.
Além disso, significa criar contextos educativos em que as pessoas possam fazer esta experiência. Não ambientes de julgamento, mas de acolhimento; não lugares onde se deve demonstrar méritos, mas espaços em que nos podemos reconhecer frágeis; não estruturas em que se adquire competências religiosas, mas comunidades onde se experimenta a ternura de Deus.
A parábola do fariseu e do publicano recorda-nos que a educação à fé é essencialmente introdução a uma relação: a relação com Deus que nos ama com amor misericordioso, que nos espera sempre, que nos perdoa sempre, que faz da nossa pobreza o lugar do seu encontro connosco.
Imagem: James Tissot, “Le pharisien et le publicain”, entre 1886 e 1894, Museu de Brooklyn
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