O portão fecha-se atrás de mim com um ruído seco. Uma vez por mês atravesso aquele corredor do Estabelecimento Prisional de Custóias para a animação das celebrações. O caminho é sempre o mesmo: paredes despidas, passos contidos.
Ao entrar ali, o olhar desvia-se apenas para algumas alas e salas que vão aparecendo à direita e à esquerda. Sigo direto para a capela. Mesmo sem entrar nas celas, sentem-se divisões invisíveis no ar: grupos que não se misturam, olhares que medem forças, histórias que carregam culpas e rivalidades antigas. Ali, muitos são conhecidos apenas pelo artigo do código penal que os condenou.
Celebramos, hoje, o Dia da Discriminação Zero. Fala-se de igualdade, de direitos, de respeito. E é justo. Mas naquele corredor a pergunta ecoa de outra forma: será possível não reduzir ninguém ao seu erro?
Muitos dos homens que ali encontro cresceram em ambientes onde a marginalização começou cedo. Falta de oportunidades, famílias desestruturadas, violência normalizada. A discriminação não começou na prisão. Mas ali adensa-se. Catalogam-se pessoas pelo crime cometido. Criam-se hierarquias internas. E mesmo quando a pena termina, o rótulo permanece. Cá fora, continuam a ser “ex-reclusos”, como se o passado tivesse mais peso do que qualquer tentativa de recomeço.
Na fronteira entre o México e os Estados Unidos vi algo semelhante. Migrantes deportados, homens que deixaram tudo para tentar uma vida nova, mulheres reduzidas à sobrevivência diária. Também ali muitos eram tratados como números, processos pendentes, estatísticas incómodas. A exclusão assume rostos diferentes, mas o mecanismo é o mesmo: definir alguém apenas pela sua condição ou pelo seu erro.
E, no entanto, no meio daquele ambiente pesado de Custóias, já ouvi frases que desarmam qualquer preconceito. Um desabafo de quem diz: “Bastava que alguém tivesse acreditado em mim antes, talvez não estivesse aqui.” São momentos raros, mas reveladores. Por detrás do crime continua a existir uma pessoa — com um nome, uma história, uma possibilidade de recomeço.
Talvez a discriminação zero não seja uma meta política fácil de alcançar. Mas o Evangelho aponta um caminho concreto. Jesus nunca ignorou o pecado, mas nunca deixou que ele fosse a última palavra sobre alguém. Olhava para cada homem e mulher como filho muito amado de Deus. E esse olhar devolvia dignidade, mesmo antes da mudança de vida acontecer.
A discriminação começa quando deixamos de ver a pessoa e passamos a vê-la apenas por aquilo que a distingue ou a fragiliza — o erro cometido, a cor da pele, a origem, a condição social. E tende a terminar quando alguém decide olhar de outra forma. Talvez não consigamos mudar o sistema de um dia para o outro. Mas podemos mudar o nosso olhar. E, muitas vezes, é nesse olhar que o fim da discriminação começa.








