A praga da omissão: mentir, omitindo

Estamos num tempo em que a verdade é dizimada pelas múltiplas formas da mentira: a meia-verdade, a notícia falsa, o rumor e outras formas capciosas de falsificar a factualidade. Para além destas, há a mais insidiosa forma de eliminar a verdade factual, não a negando, mas omitindo-a. O silêncio que transporta é, não raro, uma forma sibilina de esconder, falsificar, suprimir o que se passa. A omissão deliberada ou consentida é uma forma perversa de “fazer notícias” ou “alinhar noticiários”. Em liberdade, não há lápis azul, mas há esta poderosa forma de censurar sem lápis, num aparente jogo democrático de escolhas, preconceituoso e covardemente anónimo.

Em novembro passado, tivemos mais dois exemplos paradigmáticos desta forma de (não) noticiar.

Houve três “Caminhadas pela vida” de pessoas que se juntaram para dar testemunho público da defesa do direito incondicional à vida. Em Lisboa, no Porto e em Aveiro. Uma iniciativa cívica e apartidária, bem sucedida.

E o que nos informaram a quase totalidade dos media? Zero. Absolutamente zero.

Um despudor por magia da omissão de pseudo polícias dos costumes, selecionando a seu bel-prazer o que deve ser noticiado. Quaisquer vinte arruaceiros à espera de uma equipa de futebol são motivo de notícia, com direito a repetição. Qualquer manifestação sobre o contrário do que a “Caminhada pela vida” defende sobre o aborto, a eutanásia, as barrigas de aluguer, as políticas de natalidade, etc. é objeto de reportagem, diretos e debates. Qualquer ajuntamento por mais insignificante que seja de LGBT tem honras de bom alinhamento e boa página.

Esta iniciativa teve, aliás, o conforto de uma saudação do Papa Francisco aos seus participantes, tendo em conta a “promoção e defesa da vida, contra a cultura do descarte”.

Isto leva-me à segunda omissão. Tive o privilégio de, no Vaticano, participar no Seminário “Repensar a Europa”.

Este evento terminou com uma notável intervenção do Papa Francisco, infelizmente também ignorada pela comunicação social. Nada que me espante diante da primazia espumosa do efémero, do fugaz, do circunstancial, do trivial, da notícia-espectáculo, do burlesco.

Entre outros pontos, Francisco chamou a atenção para o primeiro e talvez maior contributo que os cristãos podem trazer à Europa de hoje: “recordar que esta não é um conjunto de números ou instituições, mas que é feita de pessoas concretas. Infelizmente, constatamos frequentemente que o debate se limita a uma discussão de números. Não há cidadãos, há votos. Não há migrantes, há quotas. Não há trabalhadores, há indicadores económicos. Não há pobres, há limiares de pobreza. A pessoa humana é, deste modo, reduzida a um princípio abstrato, mais cómodo e tranquilizador”.

A seguir referiu: “a família é a união harmónica das diferenças entre o homem e a mulher, e é tão mais verdadeira e profunda, quanto mais for geradora e capaz de se abrir à vida e aos outros. A pessoa e a comunidade são, pois, os pilares da Europa que, como cristãos, queremos e podemos ajudar a construir. Os tijolos de tal edifício chamam-se: diálogo, inclusão, solidariedade, desenvolvimento e paz”.

E alertou-nos: “vive-se um tempo de uma dramática infertilidade. Na Europa há menos filhos – o nosso inverno demográfico –, e são muitos aqueles que são privados do direito a nascer […]. A Europa vive uma espécie de défice de memória”.

Infelizmente, estas referidas omissões são a regra. Digo-o sem rebuço: o conúbio mal disfarçado entre certas ideologias “iluminadas”, que se consideram detentoras do monopólio da verdade, da justiça, da cultura e da sensibilidade e muitos media, quer afunilar o pensamento tornando-o único e reduzir à insignificância a “gente” a que, pejorativamente, chamam conservadora.

Como cristãos, devemos denunciar esta parcialidade injusta e enviesada.

(Por vontade do autor este texto não segue o Novo Acordo Ortográfico)
Originalmente publicado no Boletim Salesiano n.º 566 de Janeiro/Fevereiro de 2018

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