Contemplar o rosto de Cristo

Na Carta Apostólica Novo Millennio Ineunte, de 6.01.2001, o Papa João Paulo II fez uma espécie de balanço do ano jubilar que estava a terminar, recolhendo os frutos por ele produzidos para a vida da Igreja e do mundo. Quase como se condensasse todos esses frutos numa única frase, disse: “se quiséssemos circunscrever o núcleo essencial do grande legado que ela [a experiência do Jubileu] nos deixa, não hesitaria em vê-lo na contemplação do rosto de Cristo” (n. 15, itálico no texto).

Poder-se-ia dizer que o Papa faz eco ao convite feito quase dois mil anos antes pelo autor da Carta aos Hebreus, na conclusão do seu longo discurso sobre a fé: “Deste modo, também nós, circundados como estamos de tal nuvem de testemunhas […] corramos com perseverança a prova que nos è proposta, tendo os olhos postos em Jesus, autor e consumador da fé” (Heb 12, 1-2).

Trata-se, portanto, de um convite, que atravessou os séculos, a manter o olhar fixo em Jesus e, assim, tornar-se contempladores permanentes do seu rosto, procurando descobrir as mil facetas que Ele, como um diamante precioso, oferece a quem o olha. Uma contemplação que tem certamente uma componente de fruição estética, porque oferece a possibilidade de nos deleitarmos com a sua beleza, mas que deve incluir também uma outra, de compromisso sério, destinada a reproduzir os seus traços em nós mesmos e nos outros. Um pouco como a experiência dos três discípulos no Tabor (Mt 17,1-9), que, embora tenha incluído um momento de intensa complacência (“Senhor, é bom estarmos aqui”), foi seguida de uma descida ao vale da vida comum, pedida pelo próprio Jesus.

Tentaremos elucidar, nas reflexões seguintes, as densas riquezas que esta contemplação do rosto de Cristo contém.

O desejo de ver Cristo no mundo de hoje

Há um episódio no Evangelho segundo São João que poderia tornar-se símbolo de uma situação muito difundida hoje: é a dos gregos, isto é, dos pagãos aderentes ao judaísmo, que em Jerusalém, durante as festas da Páscoa, quiseram ver Jesus e aproximaram-se de Filipe e André para que fossem seus mediadores (Jo 12,21). É provável que estes homens tenham ouvido falar d’Ele e que a informação que receberam lhes tenha despertado a curiosidade. A “ponte” estendida pelos dois discípulos serviu certamente para satisfazer o seu desejo, embora o evangelho, tomado por outros interesses, não se detenha a dizê-lo.

Um caso semelhante é relatado no Evangelho escrito por São Lucas. Conta que, quando Jesus passava por Jericó, um certo “Zaqueu, que era chefe de cobradores de impostos, procurava ver Jesus e não podia, por causa da multidão, pois era de pequena estatura. Correndo à frente, subiu a um sicómoro para o ver, porque Ele devia passar por ali” (Lc 19,2-4). O seu olhar teve a sorte de se cruzar com o de Jesus, que “levantou os olhos e lhe disse: «Zaqueu, desce depressa, pois hoje tenho de ficar em tua casa»” (v. 5). Daquela troca de olhares nasceu um encontro convivial que transformou totalmente Zaqueu.

Um terceiro relato evangélico, na linha dos anteriores, é o que tem como protagonista Maria de Magdala, que se deteve, cheia de angústia, na madrugada do Domingo de Páscoa, às portas do túmulo do seu amado Mestre: “Maria estava junto ao túmulo, da parte de fora, a chorar. Sem parar de chorar, debruçou-se para dentro do túmulo, e contemplou dois anjos vestidos de branco […]. Perguntaram-lhe: «Mulher, porque choras?» E ela respondeu: «Porque levaram o meu Senhor e não sei onde o puseram.» Dito isto, voltou-se para trás e viu Jesus, de pé” (Jo 20,11-14). Também ela, portanto, ardentemente desejosa de ver Jesus, se move levada por esse desejo e alcança o seu objetivo. 

João Paulo II, na Carta Apostólica acima citada, diz: “os homens do nosso tempo, talvez sem se darem conta, pedem aos crentes de hoje não só que lhes « falem » de Cristo, mas também que de certa forma lh’O façam « ver ». E não é porventura a missão da Igreja refletir a luz de Cristo em cada época da história, e por conseguinte fazer resplandecer o seu rosto também diante das gerações do novo milénio? Mas, o nosso testemunho seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu rosto…” (n. 16).

Há vários elementos neste texto que merecem ser sublinhados. Em primeiro lugar, a constatação de que o desejo de ver Jesus não é apenas um facto do passado, mas também do presente. Aqueles gregos a que se refere o evangelho segundo São João, aquele Zaqueu cuja experiência é tão bem narrada por São Lucas, aquela Maria Madalena que, também no evangelho segundo São João, corre para o túmulo do seu Mestre movida por um desejo ardente de o ver, revivem hoje em tantos homens e mulheres do mundo atual. Talvez, como salienta o Papa, de forma inconsciente, sem se darem conta. Porque este desejo pode manifestar-se de mil maneiras diferentes. Mesmo, nalguns casos, de formas que desconcertam ou até provocam reações de desconfiança ou de oposição, por não se conformarem com os cânones a que se está habituado.

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Entre estes homens e mulheres encontram-se certamente os jovens que, precisamente porque têm fome de vida, têm implicitamente fome d’Aquele que disse: “Eu sou… a Vida” (Jo 14,6).

Um segundo ponto digno de atenção é o facto de o Papa identificar de alguma forma “os crentes de hoje” com aqueles dois apóstolos – André e Filipe – que facilitaram as coisas para que os gregos pudessem ver Jesus. Ou seja, desempenharam o papel exatamente oposto ao exercido por aqueles que, ainda em Jericó, quiseram impedir que Bartimeu, o cego que queria recuperar a vista e clamava por misericórdia, se aproximasse de Jesus (Mc 10,46-52). O desejo de ver Jesus, que os homens e as mulheres de hoje experimentam, deve ser apoiado pelos que acreditam n’Ele, para os ajudar a consegui-lo.

João Paulo II acrescenta, a propósito, uma observação importante: os crentes são exortados não tanto a dizer palavras sobre Jesus, mas a torná-lo, de certo modo, visível. É o que André e Filipe parecem ter feito com os gregos: não se prodigalizaram em discursos sobre Jesus, mas – como se depreende do Evangelho – tomaram-nos pela mão para que pudessem ver com os seus próprios olhos o Jesus que tanto desejavam conhecer pessoalmente. E depois de os terem levado até Ele, deixaram-nos – podemos também presumir – a contemplar o seu rosto.

Uma terceira coisa que ressalta do texto papal citado é que, para desempenhar este papel em nome dos homens e mulheres de hoje, os crentes n’Ele devem ser eles próprios “contemplativos do seu rosto”. Isto é dito com palavras muito incisivas, quase pungentes: “Mas, o nosso testemunho seria excessivamente pobre, se não fôssemos primeiro contemplativos do seu rosto…”. Não fala apenas de pobreza, mas de pobreza “excessiva”, insuportável, se as testemunhas fossem pessoas não contemplativas. Como se quisesse dizer que é precisamente a contemplação do rosto de Cristo que dá consistência e densidade ao testemunho que d’Ele se dá e, portanto, o livra do risco de ser algo vazio.

Porquê voltar a fixar o olhar no rosto de Jesus Cristo?

Sabemos bem: Jesus Cristo está no centro da nossa fé. Esta afirmação é demasiado óbvia e é um dado adquirido. Não é por acaso que nos chamamos “cristãos”. Mas, de vez em quando, o seu rosto fica escondido ou, pelo menos, desfocado ao nosso olhar: já não o vemos, ou vemo-lo distorcido.

De facto, existem, antes de mais, obstáculos objetivos que se interpõem entre ele e nós. Mais concretamente, uma série de camadas que se foram sobrepondo à sua face original ao longo dos séculos e que, hoje em dia, para muitos, particularmente os jovens, os impede de terem dessa face uma visão apropriada.

Para começar, há camadas que pertencem ao âmbito cultual. Estas camadas começaram a formar-se muito cedo na Igreja. Os primeiros cristãos estavam profundamente convencidos da singular e estreitíssima unidade de Jesus com Deus. Por isso, como se depreende dos escritos do Novo Testamento, depois da Páscoa atribuíram-lhe o título de “Senhor”, que o Antigo Testamento tinha reservado exclusivamente para o próprio Deus. E quiseram exprimir esta convicção também nas suas celebrações litúrgicas. Começaram assim a prestar-lhe culto, um culto que foi adquirindo formas diferentes, de acordo com as diversas sensibilidades que se foram sucedendo ao longo do tempo.

As orações e os ritos multiplicaram-se até hoje, tomando como objeto de culto um ou outro dos diferentes aspetos da pessoa e da obra de salvação realizada por Jesus. Muitas vezes, estavam ligadas às questões doutrinais enfrentadas pela comunidade eclesial.

Às camadas cultuais juntaram-se depois as camadas doutrinais. As primeiras comunidades crentes sentiram imediatamente a necessidade de aprofundar a mensagem de Jesus, explicitando os seus conteúdos na catequese, ou de o defender, a Ele e à sua proposta, das tendências heréticas, através da apologética. Como sabemos, alguns cristãos, na tentativa de integrar a sua fé nas sensibilidades culturais com que contactaram, puseram seriamente em perigo a genuinidade dessa fé. Obscureceram-na com afirmações que não eram coerentes com ela.

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Para garantir uma compreensão autêntica da pessoa de Jesus e da sua mensagem, a comunidade eclesial teve então de tomar posição, elaborando declarações doutrinais que funcionavam como cartão de ortodoxia para os seus membros. Em certos momentos, sobretudo nos grandes concílios ecuménicos da antiguidade, chegou mesmo a cunhar fórmulas muito precisas e solenes (os dogmas), através das quais pretendia exprimir a verdade da fé de forma autorizada e definitiva. Assim, por exemplo, definiu-se dogmaticamente que Jesus era o Filho de Deus, igual ao Pai na sua substância desde a eternidade; que era verdadeiro Deus e verdadeiro homem; que n’Ele a natureza humana era completa e que estava “hipostaticamente” unida à natureza divina numa só Pessoa; que está realmente presente na Eucaristia, etc.

Para além dos dogmas, e muitas vezes em torno deles, foi tecida uma densa rede de outras afirmações doutrinais, consideradas mais ou menos importantes, que os competentes na matéria elaboraram com esmero e atenção. Deste modo, Jesus tornou-se objeto de explicações cada vez mais complexas que, com maior ou menor fidelidade, foram também assimiladas a nível popular, sobretudo através da pregação e dos catecismos. A arte também se envolveu, servindo para exprimir as doutrinas.

Há também as camadas morais, que dizem respeito ao modo de agir dos membros da Igreja. A proposta feita por Jesus nesta área foi sujeita, como era natural, a atualizações constantes. Tratava-se de uma proposta de base, que deveria traduzir-se nas condições históricas concretas em que os seus discípulos se encontrariam a viver. Por isso, ao longo dos séculos, foram-se forjando na Igreja preceitos para regular o comportamento dos seus membros.

Daí resultou uma quantidade considerável de normas e orientações. Resultaram, em última instância, do desejo de ajudar os crentes em Jesus a levar uma vida coerente com a fé que professam, mesmo que, por vezes, se tenham tornado um peso quase insuportável para os próprios crentes.

Por fim, não faltam as camadas jurídicas. Como se pode ver nos documentos do Novo Testamento, a comunidade dos discípulos de Jesus depressa se organizou e sentiu a necessidade de adotar disposições que regulassem o seu modo de viver internamente e a sua relação com os que não lhe pertenciam. Assim, pouco a pouco, foi surgindo um corpo maciço de leis e normas, que acabou por constituir, muito recentemente, um código de direito canónico.

Todos estes elementos – ritos, dogmas, normas morais, sistemas jurídicos – tiveram a sua origem, na maior parte das vezes, num autêntico desejo de fidelidade da Igreja a Jesus Cristo e à sua proposta original, e constituíram uma forma de tornar a sua presença viva e significativa para aqueles que o queriam seguir. No entanto, com a mudança das circunstâncias históricas e culturais, acaba muitas vezes por funcionar como um biombo entre a sua figura genuína e aqueles a quem ela é apresentada. Esconde-a ou, pelo menos, desfoca-a a seus olhos. O que inicialmente era transparência transforma-se, por vezes, em opacidade.

Mas, para além dos obstáculos objetivos mencionados, há também obstáculos subjetivos, presentes e atuantes no íntimo do coração dos próprios crentes. Acima de tudo, há o risco de acomodamento. É um risco que ameaça particularmente aqueles que estão habituados a uma certa familiaridade com a figura de Jesus Cristo, seja através da leitura dos textos evangélicos, seja através da frequência dos sacramentos. Como dizia um velho provérbio latino, “ab assuetis non fit passio”, que poderíamos traduzir livremente: “Àquilo com que estamos habitualmente em contacto, já não prestamos atenção”. E o que constitui o mundo da fé não é disso exceção precisamente por isso.

Uma conclusão do que foi dito: se quisermos voltar a contemplar Jesus, como nos convida João Paulo II, devemos tentar remover tudo o que pode turvar a nossa visão. O convite feito ao anjo da igreja de Laodicéia, na visão do Apocalipse: “Aconselho-te que compres o colírio para ungir os teus olhos e recuperares a vista” (Ap 3,18), pode adquirir nova atualidade neste sentido.

(NPG 2004-01-36)

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