Com 43 anos, o diácono João Ensina prepara-se para a sua Ordenação Presbiteral, que terá lugar no próximo dia 17 de janeiro, na Igreja de Nossa Senhora Auxiliadora, nos Salesianos de Lisboa.
Após uma caminhada vocacional madura, a sua “procura constante da vocação” levou-o de professor a consagrado, sempre tendo como missão a “educação da juventude”.
Recusando uma “crise de vocações”, o futuro padre aponta antes uma “crise de disponibilidade em compreender e acompanhar”.
Atento aos jovens que o rodeiam e que podem, também, estar a descobrir a sua vocação, o diácono João Ensina refere: “Se acreditas que Deus te ama, procura perceber como. Deixa-te guiar e conduzir. Sem medos! Confia!”.
Como descobriu a sua vocação? Tive logo a certeza de que o teu caminho vocacional passava pelo sacerdócio?
Toda a minha vida tem sido uma procura constante da vocação que sou chamado a viver, culminando no amor que Deus me tem. A minha vocação é salesiana, uma consagração que entrega a sua vida à educação da juventude.
O SIM ao ministério sacerdotal surge do caminho percorrido nestes anos e da resposta às necessidades do corpo místico de Cristo, que é a Igreja.
É fácil tomar uma decisão vocacional mais tarde na vida? Como viveu o discernimento entre outras opções que normalmente marcam a juventude — namoro, casamento, profissão?
Nem tudo é fácil. O lema da minha profissão religiosa (primeiros votos) foi “Deixaram tudo e seguiram Jesus”; com estas palavras eu disse SIM a Cristo na Igreja, e as oportunidades para perceber se fiz a “melhor escolha” têm sido muito diversificadas. Um exemplo claro disso são os desafios (missões) que me têm sido confiadas; tenho passado por casas que nunca tinha pensado ou “desejado” ir, e é quando percebo que “o Senhor é meu pastor e nada me falta”, apesar “da noite escura, nada temo porque Ele está comigo”.
Porquê a escolha da Congregação Salesiana? O que o atraiu no carisma de Dom Bosco?
Eu sou professor de formação, estava quase a inscrever-me num mestrado em Administração Escolar quando decidi vir para salesiano. Na congregação salesiana encontrei o “bocadinho” que me faltava para me sentir plenamente configurando com Cristo.
Quem me conhece, sabe que sempre fiz o que quis, tinha o que queria, mas acima de tudo, sempre me senti amado por quem me rodeava, e estava bem. Mas chegava ao final do dia e faltava algo. Um pouco como o jovem rico, faltava mais qualquer coisa. Essa “coisa” viria a ser aquilo que sou hoje, filho de Dom Bosco, que dedica toda a sua vida aos jovens.

A sua família foi o seu primeiro “seminário”? Como reagiram quando decidiu abraçar esta vocação?
A vida deles tem sido bem divertida e viajada, desde que entrei na congregação.
Eles foram os primeiros a saber. Não porque lhes disse verbalmente, mas porque nos conhecem melhor do que nós próprios. Por isso, não foi muito dramático dizer porque o trabalho já estava adiantado, por me conhecerem tão bem.
Não querendo escandalizar ninguém, arrisco-me a dizer que eles estão mais felizes do que eu.
E os seus amigos? Tendo sido uma escolha feita numa fase mais tardia, como acolheram esta decisão? Houve surpresa, apoio, curiosidade?
Houve de tudo um pouco. A Divina Providência tem-se encarregado de colocar as pessoas certas ao logo da minha vida.
Quais têm sido os principais desafios desta caminhada?
Alguns poderão pensar que a obediência é o maior desafio. Mas só seremos escravos da obediência se nos limitarmos a fazer o que nos “convém”. Por isso, o maior desafio é ser fiel à regra de vida que professei como Salesiano de Dom Bosco.

Quem foi mais importante nesta jornada? Quem o ajudou a escutar e a confirmar a vontade de Deus?
Não tenho uma pessoa “chave”. Como disse lá atrás, são várias as pessoas que guardo no meu coração e que são modelos de santidade para mim, pelo seu exemplo de entrega, espírito de serviço e amor à Igreja – jovens, leigos, religiosas e salesianos (irmãos e padres).
Quais foram os momentos mais significativos da sua caminhada? Quer destacar algum episódio que simbolize a certeza do seu “sim” definitivo?
Para alguns, esta ordenação presbiteral é o meu “sim” definitivo, até me dizem que vão ao meu casamento. Mas o meu “sim” definitivo foi no dia da minha Profissão Perpétua, no dia 8 de julho de 2023. A Ordenação é a continuação do “sim”, com instrumento para que Cristo possa ser glorificado.
Como será o Pe. João Ensina? De que forma a sua experiência prévia poderá enriquecer o seu ministério sacerdotal?
A pessoa do Pe. João Ensina será a mesma. A disponibilidade e o empenho de continuar a caminhar com os jovens e os adultos não se altera com o sacramento da Ordem. Acrescenta, como diz no ritual da Ordenação: celebrar com fé e piedade os mistérios de Cristo, segundo a tradição da Igreja, para louvor de Deus e santificação do povo cristão, principalmente no sacrifício da Eucaristia e no sacramento da reconciliação.
Na sua opinião, quais são, hoje, os principais desafios da Igreja e da sociedade?
Atualmente, tudo acontece a uma velocidade alucinante, sem tempo para digerir o que se vive e isso torna-nos incapazes de ouvir e até de aceitar o que acontece ao nosso lado. Leva-nos a olhar para uma realidade com dislexia.
Ser jovem católico está fora de moda?
O que é um jovem católico? Alguém que vai a tudo o que é encontros, retiros, orações, catequeses, concertos e afins, mas não consegue comprometer-se com o Evangelho? Ou é alguém que vai a todas essas atividades porque quer perceber aquilo que Deus lhe pede? Cabe-nos a nós, mais crescidos, acompanhá-los a ir ao encontro da verdade, que é Jesus.
Vivemos uma crise de vocações?
Não! Vivemos uma crise de disponibilidade em compreender e acompanhar.

A sua história, de vocação tardia, mostra que Deus continua a chamar-nos em todas as idades? É um sinal de esperança?
Posso dizer que tenho sido muito feliz ao longo de toda a minha vida e estou imensamente grato a Deus por tudo o que me tem permitido fazer. O facto de ser ordenado aos 43 anos de idade acarreta o peso de uma experiência de vida acumulada de bênçãos e espero que continue a transformar-se em dom e graça, ao serviço da Igreja.
Como imagina o papel dos sacerdotes no diálogo com um mundo em rápida transformação?
O sacerdote deve ser alguém que está atento às pessoas. Não deve ter a tentação de querer ser rápido e responder à mesma velocidade, de fazer coisas. Jesus quando começou a sua vida pública, como é que fez com os seus discípulos? Caminhou com eles durante algum tempo e só mais tarde é que começou a ensinar. O próprio João Bosco tinha como primeira atitude aproximar-se e compreender o jovem que se atravessava no seu caminho.
Que palavras gostaria de dirigir aos jovens e menos jovens que estão a descobrir que Deus continua a chamar, pacientemente, a cada um?
Se acreditas que Deus te ama, procura perceber como. Deixa-te guiar e conduzir. Procura alguém que faça esse caminho contigo, para que a voz de Deus se faça ouvir a cada passo. Sem medos! Confia!









