O Oratório Salesiano, entre memória e profecia

Dom Bosco, segundo o parecer unânime dos estudiosos, assumiu uma instituição existente e modelou-a conforme as necessidades dos jovens aos quais se dirigia e segundo a própria genialidade ou carisma. Isto teve incidência definitiva não só na organização externa do oratório (atividades, estruturas…), mas plasmou o seu estilo e a sua fisionomia interna. A esta transformação o biógrafo padre Ceria dedica um capítulo dos Annali, reportando a avaliação de Dom Bosco sobre os oratórios existentes: «pelo exame dos mesmos viu que já não eram para os nossos tempos». Indica as razões: «Além de estarem abertos apenas algum tempo de manhã ou à noite, não se admitiam senão rapazinhos de boa conduta, apresentados pelos seus pais com a obrigação de os retirar, se não se comportassem bem; onde se juntavam os traquinas nos internatos de patifórios, usando-se modos policiais quer para os obrigar quer para os entreter. Ele, ao invés, partia de três conceitos diametralmente opostos. O oratório devia preencher todo o dia festivo, devia abrir as portas ao maior número possível de rapazes, devia ser governado com autoridade paterna». Mas se Dom Bosco deu forma original ao oratório, este por sua vez fez tornar práxis pastoral aquela caridade que o tinha impelido para os rapazes e assim o oratório plasmou a identidade, o espírito e a pastoral salesiana. É justo por isso esclarecer que estudar o oratório salesiano não significa verificar tecnicamente a validade de uma instituição genérica, mas remontar a um carisma original, colocando-se na perspetiva da vocação e missão salesiana. […]

O oratório salesiano nasce diferente dos outros: não como uma sede para propostas «de serviços normais» para quem deles quisesse aproveitar; mas como uma busca pelas ruas, pelas oficinas, pelos estaleiros. Coloca-se num âmbito humano e social mais do que numa jurisdição territorial. É uma escolha de determinados sujeitos, antes que uma programação de conteúdos e atividades. Se estes sujeitos não se aproximam, é preciso, como primeiro passo, ir ao seu encontro. […] [O oratório salesiano] encontrou-se no centro do interesse social tanto e mais do que o eclesiástico, e tornou-se uma iniciativa ao mesmo tempo religiosa e secular, uma expressão de caridade pastoral e de solidariedade humana. O oratório de Dom Bosco aparece assim como uma iniciativa sem fronteiras. […] É para todos, não destinado aos especiais do ponto de vista da excelência ou do desvio, mas ao pobre comum no qual há vivos recursos para acolher uma proposta de recuperação e crescimento. […]

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O número de jovens atingidos pelas iniciativas eclesiais constitui uma percentagem insignificante da totalidade dos sujeitos. Uma avaliação não igual, mas certamente «análoga», pode fazer-se a respeito das instituições educativas, dado o andamento da marginalidade juvenil. […]

Não poucos deles não se afastaram: simplesmente nasceram «noutro continente cultural», assimilaram «outra linguagem», cresceram «noutros ambientes», desenvolveram «outras pertenças». […]

Outra série de reflexões diz respeito à «missionariedade, seja a nível dos oratórios paroquiais, seja dos que servem uma área mais vasta. Em igrejas como as de hoje, que se sentem em comunhão de energias apostólicas e de carismas, a distância entre marginalidade institucional e significatividade carismática deveria ser superada ou muito encurtada. Em comunidades cristãs que sabem ser missionárias na comunidade dos homens, a atenção aos afastados deveria ser um compromisso de toda a ação pastoral e não apenas de «pioneiros» solitários. […] O «território» torna-se então referência obrigatória e um ponto de atenção preferencial como «campo de levantamento e como espaço de trabalho, mas também como sujeito agente que nos permite chegar aos jovens de forma mais total. Além da presença nas sedes em que se tratam problemas juvenis e no confronto com as agências que se ocupam da formação dos jovens, não é de excluir o encontro direto com os grupos juvenis espontâneos ou a presença na rua mediante animadores.

Ao oratório, portanto, não corresponde como primeira e principal definição a de «catequese», nem a de instituição «educativa» em sentido formal, nem a de iniciativa para o «tempo livre». É tudo isto junto numa «mistura» conveniente para abrir à vida sujeitos de um determinado contexto, mediante o acolhimento e a valorização daquilo que eles já trazem em si como desejo, tensões, património adquirido, perspetivas e mediante propostas que impelem a avançar. […]

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Pela memória conhecemos os três elementos sobre os quais se fundava o oratório: jogo, catequese, instrução-promoção (posteriormente «extraescolar»). Cada um deles parece ter encontrado lugares próprios, pelos quais o conjunto não serve senão como legitimação para a existência do oratório. […] Já o facto de ter substituído as palavras comporta uma mudança de perspetiva. No lugar do «jogo» colocámos «expressão juvenil; «catequese» substituímo-la por «evangelização»; as atividades extraescolares incluímo-las na animação cultural. […]

Que profecia? Estamos, diz-se, em tempos de utopias e mitos «frios», excetuando os momentos coletivos de exaltação. Talvez a nossa tenha parecido uma «profecia contida», expressa sob a forma de «resposta pastoral» que vai ao encontro de uma pergunta atual sem renunciar a perspetivas ulteriores. Todavia, se se aprofundar bem, descobrir-se-á que se coloca na linha do futuro, da esperança, dos eventos de salvação. Com efeito, o oratório, assim concebido, quer-se uma forma de anúncio num tempo de nova evangelização em contextos secularizados. […] É «mediação de igreja» para os afastados num tempo em que a comunidade cristã sente uma certa irrelevância pelo menos «numérica»; propõe-se tornar-se fermento na comunidade humana num momento em que a Igreja se reconhece «no» e «com» o mundo, se bem que não «do» mundo. Não é este um anúncio de futuro… uma utopia da qual conseguimos realizar alguma parte? Aos salesianos, que estando já ocupados nas escolas aduziam falta de pessoal para abrir o oratório, Dom Bosco respondeu: «Só deste modo se pode fazer um bem radical à população de um país». Por isso o historiador padre Ceria conclui: «o oratório… continua a ser a obra verdadeiramente popular de Dom Bosco, obra à qual está mais ligada a sua fama de apóstolo da juventude».

Texto adaptado Atti della conferenza nazionale CISI, Tipografia Dom Bosco, Roma, 1987

Publicado no Boletim Salesiano n.º 582 de Setembro/Outubro de 2020

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