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D. João Cagliero: protagonista dos 100 Anos de Missões Salesianas

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Em homenagem a São João Bosco, publicamos um texto do Bolletino Salesiano de 1976, escrito pelo salesiano Pe. Ettore Fracassi, nos 50 anos da morte do Cardeal João Cagliero, chefe da primeira expedição missionária salesiana enviada por Dom Bosco para a Argentina.

Para compreender a figura extraordinária de D. Cagliero, que Dom Bosco escolheu para chefiar o primeiro grupo dos seus missionários, é preciso recuar até à sua infância e observá-lo nos anos incríveis da sua carreira verdadeiramente fantástica. Conhecendo o início e o epílogo, iluminar-se-á toda aquela venturosa existência, vivida sempre «à Cagliero», quer dizer, «com ardor» e com alegria, sem poupar esforços. A inteligência, a incrível capacidade de trabalho e o ardente entusiasmo de Cagliero agradaram tanto a Dom Bosco e beneficiaram tanto a Sociedade nascente, que fizeram escola entre os Salesianos.

Reparemos em Cagliero criança. Tem numerosos irmãozinhos e inúmeros amigos. Domina-os a todos, não para os subjugar, mas para os guiar. Escreverá mais tarde na sua divisa episcopal: «Recto fixus calli ero». Cagliero é reto. E é também enérgico e voluntarioso. Onde ele está impõe a retidão e a ação: útil, refletida, imediata. É o que faz desde pequeno, com naturalidade e até com elegância. Roca, famoso presidente argentino, conhecido pela sua pouca simpatia para com os padres, será um grande amigo de Cagliero e dirá dele: «…aquele padre é o verdadeiro Civilizador da Patagónia e é o mais hábil dos diplomatas. Se um dia decidir confessar-me, fá-lo-ei somente a ele…».

Cagliero compreende logo as situações e, nascido para comandar, não tem medo e comanda; mas comanda com o coração nas mãos e é o primeiro a sacrificar-se. Quando em Castelnuovo, sua terra natal, joga com os companheiros a «fazer de Bispo», ele, naturalmente, «faz de Bispo» e passa a abençoar pelas ruas, transportado numa carriola pelos «cónegos» e pelos «acólitos»; mas organiza tudo tão bem e mantém tanta compostura e seriedade entre aqueles traquinas, que o cortejo-recreativo se transforma numa espécie de liturgia educativa.

Conheci o Card. Cagliero no último ano da sua vida. As suas forças declinavam, mas o seu «estilo» resistia aos anos. Metia-se no meio de nós que éramos pequenitos e dizia: – Quem é capaz de vencer o Cardeal?… E era ele a organizar, no pátio de Valdocco, os grupos em competição e a premiar depois, com algum rebuçado, os vencedores. Assim o encontrareis sempre, ao longo da sua vida nada fácil. Intuitivo, alegre, capaz, decidido, sacrificado, generoso. A generosidade e o sacrifício são, sem dúvida, as suas caraterísticas. Ainda aluno do liceu, foi o primeiro a oferecer-se para dar assistência às vítimas da cólera e… sepultar os mortos (1854). E foi o único a contrair a cólera. Mas Nossa Senhora tinha prometido a Dom Bosco que «nenhum dos rapazes morreria». Com efeito, Cagliero não morreu. Antes, quando foi visitar o «moribundo», Dom Bosco teve uma visão profética e ficou a saber que a Cagliero estavam reservadas as Missões e até uma… mitra. E quando Dom Bosco decidiu propor a fundação da sua Sociedade Salesiana, Cagliero foi o primeiro a declarar: «Suceda o que suceder, eu fico com Dom Bosco!».

E assim, Cagliero, na escola de Dom Bosco, cresce e desenvolve a sua personalidade de Homem e de Sacerdote, com as qualidades indispensáveis para se tornar depois num dos grandes Missionários da Igreja. Será professor competentíssimo; grande músico elogiado por Giuseppe Verdi e admiradíssimo por Perosi; será grande organizador desportivo do Oratório; competente, exato e enérgico «conselheiro escolar» responsável pelos estudos e pela disciplina; ótimo pregador, infatigável e sábio Diretor Espiritual das duas Congregações fundadas por Dom Bosco. Mas será e ficará na História como a Figura do «Missionário Salesiano». Organizador primeiro (1875-1878); depois Vigário Apostólico (1884-1908) da Patagónia, o seu nome fica escrito, juntamente com o de muitos outros, na História Salesiana da Argentina e do Chile. Os desolados territórios dos Patagónios e dos Onas e os medonhos despenhadeiros dos Andes, do Neuquèn ao Chubut, até às torres inacessíveis do Paine na «Última Esperança», vê-lo-ão passar impelido pela urgência de levar a Luz a tantos abandonados. Dificuldades, perseguições, quedas terríveis, como aquela em que caiu no rio Nahueve, sob o cone fumegante do vulcão Antuco, quando descia para fundar em Concepción a primeira obra salesiana chilena, privações, fome, sede, fadiga, perigos de toda a espécie, nunca o fazem recuar. Para ele há a glória de Deus, há um amor entranhado a Nossa Senhora Auxiliadora, há Dom Bosco e há a Congregação e há as almas a salvar. A única mágoa que tem é não poder trabalhar mais.

Por isso, quando Pio X o nomeia Delegado Apostólico na América Central (1908), aqueles povos encontrarão sempre nele o missionário. Bento XV (1915) eleva-o à dignidade cardinalícia e depois confia-lhe (1920) a Diocese suburbicária de Frascati. E em 1923, tendo já completado 85 anos e celebrado as «Bodas de Diamante Sacerdotais», mostra uma vez mais a sua fibra missionária e organiza o Congresso Eucarístico do Lazio.

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