Depois da contenção da mobilidade provocada pela pandemia, da restrição das relações sociais e da esperança quase perdida, ambicionava-se um recomeço de compreensão, de colaboração e de progresso. Infelizmente, começamos a interiorizar o início de um retrocesso civilizacional sem precedentes. A corrida belicista parece inevitável, o que implica, necessariamente, um desinvestimento nas pessoas e na “casa comum” em que habitamos. As consequências serão, sem dúvida, muito penalizadoras, sobretudo para as pessoas e sociedades mais vulneráveis.
Vivíamos bem, sem nos darmos conta. As vantagens do fim das barreiras e da cooperação em toda a zona euro proporcionaram-nos paz, respeito e desenvolvimento durante décadas. Atingimos um nível de sociedade quase invejável, embora com muita margem de melhoramento e crescimento. Com decisões lentas, mas consensuais, com processos sociais solidários no apoio aos mais vulneráveis, a paz e o bem-estar pareciam-nos perpétuos. Esquecemo-nos de que, a nível geopolítico global, podem surgir sobressaltos violentos e que, nas crises, a lei é sempre a do mais forte. Não equacionámos esta hipótese e, por isso, não nos preparámos para eventuais confrontos.
Não fomos nós que errámos, uma vez que a posição mais justa é apostar na paz e no desenvolvimento. Os investimentos bélicos podem ser um mal necessário, mas qualquer guerra, mesmo a que se considera “justa”, contraria o princípio cristão da “não-violência ativa” que subjaz a uma cultura de diálogo com todos e de promoção da racionalidade, da ciência, do desenvolvimento, do bem-estar das pessoas e da sociedade, do respeito pela natureza. A quebra de laços históricos de respeito e colaboração aumenta a rejeição em vez da integração, o retrocesso em vez do progresso, o fechamento e isolamento em vez da abertura e do respeito pelo “outro”.
Num clima de cooperação entre os povos ninguém está primeiro, mas todos interagem ao mesmo nível. Pôr-se em primeiro, em posição de domínio, é, logo à partida, rejeitar a cooperação. Recusar ostensivamente as parcerias é abrir caminho a um futuro de desconfiança, de fechamento, de retrocesso. Infelizmente, a “força da razão” vai sendo substituída pela “razão da força”, mesmo à nossa frente, sem pedir licença, sem se anunciar, ferindo todos.
Sem ingenuidade, a Europa tem o dever histórico e moral de continuar a acreditar com esperança no futuro. Uma sociedade adulta, madura, sabe que a colaboração entre os povos é possível, necessária e vantajosa para todos.
Ilustração: Sónia Borges

Publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de março/abril de 2026
Torne-se assinante do Boletim Salesiano. Preencha o formulário neste site e receba gratuitamente o Boletim Salesiano em sua casa.
Faça o seu donativo. Siga as instruções disponíveis aqui.







