Via Pulchritudinis – Refúgio e Caminho

Via Pulchritudinis – Refúgio e Caminho

O caminho da beleza. O Santuário de Fátima acolhe, no piso inferior da Basílica da Santíssima Trindade, uma exposição com objetos da irmã Lúcia nunca mostrados ao público e obras classificadas como Tesouro Nacional, para assinalar o centenário das aparições da Virgem à vidente, em Pontevedra e Tuy, entre 1925 e 1926.

A mensagem da exposição e o título “Refúgio e Caminho” são inspirados na promessa de Nossa Senhora a Lúcia na Cova da Iria: “… eu nunca te deixarei, o meu Imaculado Coração será o teu refúgio e o caminho que te conduzirá até Deus.”

Estamos na 9.ª hora do dia 1 de abril, quarta-feira santa, que marca e antecipa os momentos finais da Quaresma e início do Tríduo Pascal.

No centro do Santuário, antes da entrada na mostra, na expectativa silenciosa e serena dos peregrinos, aguardamos em contemplação.

“Semelhante a um grão de mostarda…” recordo enquanto pouso o olhar no infinito e escuto a música no ar. “In Miserere mei, Deus” de Gregorio Allegri.

“Miserere mei, Deus: secundum magnam misericordiam tuam. “

Tem compaixão de mim, ó Deus, pela tua bondade.

É esta a escala de Fátima: humana, tocante, bela, fascinante e por isso universal e divina.

A peregrinação é uma experiência celebrativa, mas não se esgota na festa. A beleza, para além da monumentalidade é uma via de acesso mais distinta e inteligível para aceder à experiência espiritual do lugar.

Responder ao desafio da “indiferença religiosa” no mundo moderno, propondo a beleza como uma linguagem universal capaz de comover até quem não crê, é uma missão que se impõe.

E a atuação de Deus na História faz-se na linguagem de cada época!

A “Miserere” de Allegri, obra do Renascimento tardio, foi composta por volta de 1638.

“Refúgio e Caminho” é um evento contemporâneo, pensado e concretizado em 2025, com vista a um biénio expositivo, com fim agendado para outubro de 2027.

Quase 4 séculos separam no tempo os seus autores e criadores.

Mas a Mensagem é a mesma, inesgotável, fonte de ânimo, ilimitada em novas formas, histórias e protagonistas.

Museologia Contemplativa

Idealizada por Marco Daniel Duarte, a iniciativa procura aprofundar o conhecimento sobre um período menos conhecido da vida de Lúcia de Jesus e iluminar a mensagem de Fátima a partir das experiências vividas pela religiosa na Galiza.

Comissário da exposição, Diretor do Museu do Santuário e do Departamento de Estudos, com tutela sobre o Arquivo e a Biblioteca da instituição, é ele o nosso guia e anfitrião.

Na entrada, uma obra monumental. Uma escultura/instalação intitulada “Sem Título (Anatomia da tua presença, naufragada, à sombra das pétalas-ventrículos, que pulsa o nome indizível)”.

Nos meus olhos, o Mediterrâneo…

Vejo uma enorme boia, como aquelas dos navios, coberta de flores e com a forma de um coração.

Uma balsa inflável para a nossa Salvação. Para os incontáveis náufragos das tragédias do nosso tempo. Para cada náufrago que aqui encontra refúgio, resgate ou remição.

“É necessário restaurar a bondade no coração humano, essa bondade que diante dos olhos de Lúcia aparecia figurada através do Coração de Maria” podemos ler no catálogo a propósito da visão mística de 15 de fevereiro de 1926. Esta é a “urgência do desagravo do próprio Deus-Menino”.

Não é possível descrever a intensidade que percorre todo o certame.

Seguro, num espaço de vulnerabilidade, vulnerável num espaço seguro…

Diante do hábito da Irmã Lúcia, rodeado dos instrumentos dos seus lavores – agulha, dedal, botões, novelo – integro na minha, a sua estatura, como se fosse uma figura familiar que nos dá acesso aos pequenos gestos da sua vida simples e da sua humilde candura.  

Marco Duarte explica-nos a sua visão: a de que os museus, especialmente os de cariz religioso ou da Igreja, servem como espelhos para a contemplação do próprio ser humano, permitindo ao visitante encontrar-se consigo mesmo e com questões existenciais através da arte e do património.

É neste crescendo de envolvimento que se desenrolam os 7 núcleos da Exposição, da escala mais pessoal e humana, até às mais elaboradas proposições e expressões artísticas da iconografia mariana e cordomariana.

Uma “Via da Beleza” em que as obras de arte ganham renovado sentido num percurso/espaço desenhado para o efeito e que utiliza a beleza para elevar o espírito e o bem-estar dos inúmeros peregrinos que percorrem os lugares cuidadosamente arquitetados desta mostra.

A qualidade estética, técnica e científica do conjunto exposto é extraordinária, mas é o ambiente criado que convida à paragem e à observação atenta, intimista, em que, ao invés de sermos visitantes, somos participantes presentes e viventes numa profunda experiência espiritual e cultural.

A exposição integra duas pinturas classificadas como Tesouro Nacional: “Ecce Homo”, do Museu Nacional de Arte Antiga, e “A Última Ceia”, do Museu Nacional Frei Manuel do Cenáculo.

Destacam-se ainda, em criações artísticas modernas e contemporâneas, as esculturas de Thomas McGlynn, criadas a partir das descrições de Lúcia, a representação da aparição de Pontevedra por Matilde Olivera, a tapeçaria de Jenny de Beausacq, a Via-Sacra de Joaquim Correia, obras de artistas como Sílvia Patrício, Russell West, João Porfírio, Inês do Carmo e uma instalação intitulada “Marienkindergarten (Jardim de Infância de Maria)” de Humberto Dias e de Marco Daniel Duarte, com a colaboração especial da Escola Infantil Jacinto Marto (Fátima).

Marco Duarte, que nunca nos conduz o olhar, antes se maravilha com as interpretações sempre novas que aqui e ali vamos cogitando, explica-nos esta “museologia contemplativa” que integra a dimensão espiritual e catequética, onde a arte atua como cenário e protagonista de uma mensagem dirigida aos Peregrinos.

Propõe-nos uma museologia “aberta” a diferentes leituras e perceções, sempre pautada pelo rigor científico e informativo, mas com uma narrativa rica, a orlar os horizontes do transcendente.

Uma exposição atual, desafiante e para todos, sobretudo para os Jovens de hoje, como aqueles que vivem e dão vida aos nossos pátios, escolas e outros ambientes pastorais e educativos.

Fotografia e vídeo: João Ramalho

Para ver no Youtube dos Salesianos

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Publicado no Boletim Salesiano n.º 615 de maio/junho de 2026

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