Editorial do Boletim Salesiano n.º 614 de março/abril de 2026
Chegam de improviso, sem anúncio, despidas de cortesia ou preparação. Trágicas por natureza, moem o quotidiano na mó da incompreensão roubando-nos a calma que julgávamos possuir. De repente, a vida vira-se do avesso. Não as controlamos e isso, por si só, é o espelho mais fiel da nossa debilidade. Descobrimos que a nossa vontade é um arco frágil diante do infinito. Metáforas de uma verdade incontornável, que não se soluciona, que condicionam o querer, a vontade, o possível. Trazem ventos de conflitos, uma chuva de perdas, inundações de medos, que ameaçam afogar o sentido. Mas são, paradoxalmente, momentos-limite onde o humano se dilata. É na exaustão e na derrota aparente que somos forçados a rever prioridades, a desenterrar forças desconhecidas e a aprender a gramática da confiança. E todos somos passíveis de viver tempestades de emoções, de retrocessos, de incómodos, sem persistir a serenidade. A fé é testada. A esperança treme. A caridade urge em querer remendar o que se partiu. No epicentro do caos, é precisa a possibilidade da solução e da superação. Viver a relação como resposta. Aguentar o abandono. Recuperar-se no encontro. A Quaresma coloca-nos diante da tempestade de nós mesmos. Obriga-nos a olhar para o que evitamos. Revela fragilidades, incoerências e a poeira que se acumulou no coração. Levanta tudo o que estava quieto demais. Alimenta o caos. O jejum, a oração e a esmola são abalos sísmicos das nossas rotinas: desafios que fustigam a nossa zona de conforto. É como se o vento forte da Quaresma dissesse: “não fiques onde estás, há mais para ti. Destruo para que te reconstruas”. Jesus no deserto habitou a sua própria tempestade de silêncio e solidão. Tentado, venceu. A Quaresma convida-nos a entrar nessa geografia de prova, onde a fé é provada e fortalecida. É um tempo de travessia, com momentos de céu escuro. E, depois da tempestade, a bonança! Depois da tempestade, a clareza. No fundo, é este um tempo em que Deus permite que o vento sopre mais forte dentro de nós, não para nos derrubar, mas para nos transformar. Em que a chuva da sua Palavra nos inunda e não regressa ao Céu sem gerar vida. É inundação de Amor que se dá, totalmente, para que tenhamos salvação. E, enquanto as nuvens não se dissipam, sejamos nós a proximidade para aqueles que desperdiçaram o rumo. Sejamos o abraço para quem tudo perdeu, a escuta para quem desespera sem eco, e o ombro para os desiludidos que caminham sem saber para onde. Para todos, sem exceção, o Senhor Ressuscita. A Páscoa é a passagem definitiva: do desassossego para o abrigo, do cansaço para a resiliência, da morte para uma esperança que não desaponta. Que Cristo Ressuscitado seja, em nós, a bonança que nunca acaba: o eterno vencedor das nossas tempestades.
Fotografia: Shifaaz Shamoon/Unsplash
Publicado no Boletim Salesiano n.º 614 de março/abril de 2026
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