Ser mulher, liderar e educar: uma experiência de rosto e coração

Quando, em 2013, aos 48 anos, assumi funções como diretora pedagógica dos Salesianos do Estoril, tinha plena consciência de que estava a dar um passo exigente. Não apenas pela responsabilidade inerente ao cargo, mas também por representar uma mudança num contexto institucional com uma história longa e profundamente enraizada. Fui uma das primeiras mulheres a desempenhar esta função num colégio salesiano. E essa consciência nunca foi um peso — foi, antes, um compromisso.

Ser o rosto de uma instituição com décadas de história é um desafio diário. Há uma identidade a honrar, uma missão educativa a preservar e uma comunidade que deposita confiança nas decisões tomadas. A tradição não é um lugar estático; é uma herança viva. Liderar significou, para mim, respeitar o legado e, ao mesmo tempo, contribuir para o seu crescimento.

Entre 2013 e 2018 vivi cinco anos intensos. Anos de decisões exigentes, de equilíbrio entre firmeza e escuta, de gestão de conflitos e de construção de consensos. A liderança feminina é frequentemente associada à proximidade — e confirmo que essa foi uma das minhas maiores forças. Sempre acreditei que a proximidade não fragiliza a autoridade; humaniza-a. Conhecer as pessoas pelo nome, escutar antes de decidir, compreender os contextos antes de intervir exige tempo e disponibilidade interior. Mas é isso que dá densidade às decisões. A escola não é uma estrutura abstrata; é uma comunidade viva, feita de histórias, fragilidades, talentos e expectativas.

Ser mulher numa função de liderança num contexto tradicional traz desafios específicos. Não por falta de competência, mas pelas expectativas ainda enraizadas sobre o que é “habitual”. Nunca senti que tivesse de me afirmar contra alguém. Afirmei-me pelo trabalho, pela coerência e pela capacidade de transformar ideias em ação.

Um dos aspetos mais gratificantes foi ver projetos nascerem e consolidarem-se. Ideias que começaram em reuniões tornaram-se práticas concretas na vida da escola. A criatividade, quando encontra espaço e confiança, multiplica-se. Liderar é também criar condições para que outros possam inovar, arriscar e contribuir.

Aprendi que a liderança é essencialmente relacional. Não se sustenta apenas na função, mas na credibilidade, na escuta ativa, na capacidade de reconhecer erros e celebrar conquistas coletivas. Aprendi, também, que a liderança é um exercício de humildade. Somos apenas uma etapa num caminho maior. O cargo tem um tempo; a missão permanece. Talvez por isso tenha vivido aqueles anos com intensidade, mas também com serenidade, consciente de que educar é um trabalho de longo prazo, cujos frutos nem sempre vemos de imediato.

Reconhecer caminhos

No Dia Internacional da Mulher, mais do que celebrar conquistas, importa reconhecer caminhos. O meu percurso como diretora pedagógica foi parte de um movimento mais amplo de mulheres que assumem responsabilidades, transformam instituições e abrem portas a outras.

Olho para esses cinco anos com gratidão. Foram exigentes, mas profundamente gratificantes. Porque educar é um ato de esperança. E liderar na educação é acreditar nas pessoas — na sua capacidade de crescer, melhorar e construir comunidade.

Ser mulher, liderar e educar não são dimensões separadas da minha vida. Entrelaçam-se. E foi nesse entrelaçar que encontrei sentido, força e realização.

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