Magnifica Humanitas

“Magnifica Humanitas”

Editorial do Boletim Salesiano n.º 616 de julho/agosto de 2026

Babel ou uma humanidade reconciliada, capaz de habitar a cidade do mundo com Deus. Uma humanidade que se apoia no ombro firme da paz paciente e construída, que respira ao ritmo da comunhão e transforma distâncias em encontros, diferenças em diálogo. Uma humanidade de abraço generoso, capaz de inscrever na história dos séculos hoje, algo de permanente, luminoso e fecundo. Esquecemos, com demasiada frequência, a verdadeira noção de tempo e de espaço. Que o nosso passo é breve (é passagem) e que o lugar onde habitamos se estende para além de nós, exigindo reverência (porque é cosmos). Tempo e espaço devem ser guardados da ameaça constante, da insensatez coletiva e da agitação sem memória. Precisam-se vozes proféticas. Talvez dissonantes. Corajosas. Vozes que recordem a paz quando o conflito se torna linguagem comum; que invoquem o encontro quando cresce a indiferença; que defendam o cuidado, a atenção e o respeito pelo outro como fundamento da convivência humana. Vozes que nos devolvam à beleza do que somos, ao compromisso com a casa comum e ao discernimento dos avanços tecnológicos que brotam da inteligência humana, com as suas promessas e os seus inúmeros desafios. Vozes vigilantes diante das manipulações, das ameaças à dignidade humana e do vazio de sentido que se infiltra em discursos e decisões. Uma dessas vozes, particularmente clara, é a do Papa Leão XIV. Em Magnifica Humanitas, aponta caminhos de essencialidade. Convida-nos a redescobrir tesouros que se foram desvalorizando. Recorda-nos que “em Jesus Cristo, esta magnífica humanidade” se torna “o Caminho, a Verdade e a Vida, abrindo a cada um de nós a via para crescermos até à plenitude” (MH 1). Num diálogo aberto com a ciência, o mundo do trabalho e as novas tecnologias, a humanidade reencontra o seu fundamento na imagem de Deus recebida na criação e revigorada pelo encontro redentor com Cristo. Daí nasce o compromisso por um desenvolvimento humano integral. Fazendo da verdade, ação. Da liberdade, opção consciente. Da civilização do amor, o melhor paradigma, em contraste com a cultura do domínio, com os velhos e novos totalitarismos, com os populismos vazios e com a lógica bélica destrutiva. Com a espiritualidade do “sábio arquiteto” que, “animado pela esperança do Reino de Deus, se dedica a construir o mundo no bem” (MH 236). O caminho é longo. A Humanidade precisa de voltar a ser magnífica de novo. Precisa de humanidade nova, habitada pelos valores que não envelhecem e por uma espiritualidade que respire comunhão. A magnífica humanidade é uma promessa que começa hoje, no próximo passo que dermos, sustentados pela esperança n’Aquele que faz novas todas as coisas. Porque a renovação do mundo começa sempre num coração que se deixa transformar. Começa e acaba em nós.

Fotografia: Vatican Media

Publicado no Boletim Salesiano n.º 616 de julho/agosto de 2026

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