Mensagem do Reitor-Mor, Pe. Fabio Attard, aos leitores do Boletim Salesiano.
Esta passagem do evangelho de Lucas, capítulo 11,37-41, narra-nos como Jesus, a caminho de Jerusalém, aceita o convite para jantar com o fariseu. Temos um diálogo que representa um momento de confronto entre duas visões da religiosidade: a formal, centrada nas prescrições rituais, e a do coração, proposta por Jesus.
À pergunta feita a Jesus sobre o motivo pelo qual não segue os gestos rituais da tradição, ao fariseu é feito o convite a ir além das ações exteriores, a verificar se a exterioridade corresponde de verdade àquilo que leva no coração.
Jesus aceita o convite sem condições
Como o fariseu, também nós podemos convidar Jesus para a nossa mesa. A sua resposta é surpreendente: Jesus aceita, sempre, sem pôr condições. Não pretende que a nossa casa esteja em ordem, não exige garantias sobre a nossa coerência. “Ele foi e pôs-se à mesa” – com esta simplicidade desarmante, Jesus entra na vida do fariseu, sabendo já o que vai encontrar, conhecendo as contradições, as sombras, as duplicidades.
Esta é a primeira mensagem libertadora: Jesus não espera que sejamos capazes de tudo; vem para nos ajudar a ser capazes. Não devemos esconder quem somos de facto para ser dignos da sua presença. Antes, é mesmo a nossa incompetência a tornar-nos necessitados do encontro com Ele.
Uma presença que ilumina
Mas atenção: se Jesus aceita sem condições, a sua presença nunca é neutra ou inócua. Jesus entra e leva luz. O fariseu esperava talvez o hóspede complacente, alguém a exibir, a apresentar aos conhecidos: “Olhem, até Jesus vem a minha casa”. Ao invés, vê-se posto a nu sem ser humilhado com isso nem embaraçado. A presença de Jesus ilumina as contradições, faz emergir aquilo que preferiríamos manter escondido.
Não é uma agressão, é antes como quando acendemos a luz num quarto: a luz não cria a poeira que há, mas torna-a visível. Assim Jesus: não inventa os nossos defeitos, mas bondosa e gradualmente nos ajuda a vê-los por aquilo que são. Em poucas palavras, a sua presença é um convite a fazer claridade na nossa vida: a ver com honestidade onde somos autênticos e onde ao invés vivemos de máscaras, onde há coerência e onde há contradição entre aquilo que parecemos e aquilo que somos.
Além das aparências: o chamamento à coerência pessoal
“Vós fariseus limpais o exterior do copo e do prato, mas o vosso interior está cheio de rapina e de maldade”. Jesus não condena as práticas exteriores em si – as abluções, as orações públicas, a observância – mas projeta luz sobre aquela subtil e terrível cisão entre exterior e interior, a duplicidade de quem cuida a imagem ao mesmo tempo que descura o coração.
É uma tentação que atravessa todos os tempos. Quanta energia despendemos para construir uma imagem aceitável! Nas redes sociais, na vida profissional, até nas relações mais íntimas: filtramos, selecionamos, mostramos só aquilo que nos valoriza. Ao contrário, Jesus chama a uma coerência a nível muito pessoal, antes ainda que público. Não se trata daquilo que os outros veem, mas de quem somos de verdade quando ninguém nos vê. É ali, na intimidade do coração, que se joga a nossa autenticidade.
Uma visão sem zonas de sombra
“Insensatos! Aquele que fez o exterior não fez também o interior?”. Há aqui uma profunda intuição humana e espiritual: o ser humano é uno. Não estamos divididos em compartimentos estanques – a dimensão pública e a privada, o corpo e o espírito, a exterioridade e a interioridade. Não podemos ter zonas de sombra, áreas da vida subtraídas à luz, pensando que não contaminamos o resto.
O convite de Jesus é uma visão sem zonas de sombra: uma vida em que não haja ângulos escondidos onde cultivamos vícios, egoísmos, duplicidade. Uma transparência interior onde tudo é posto à luz da consciência e da graça. Isto não significa perfeição imediata, mas honestidade radical: reconhecer as nossas fragilidades, chamá-las pelo nome, não justificá-las, nem escondê-las. É o primeiro passo para a cura.
A esmola como dom de si
“Antes, dai esmola do que possuís, e para vós tudo ficará limpo.” Aqui está o cume da mensagem de Jesus. A verdadeira purificação não vem de rituais exteriores, mas daquilo que há dentro. A coerência tem a capacidade de ser portadora de bondade. A palavra “esmola” em grego tem as suas raízes na palavra “misericórdia”, compaixão. Não é só questão de dar dinheiro, mas de nos darmos a nós mesmos: o nosso tempo, a nossa atenção, a nossa presença, a nossa vulnerabilidade.
Quando vivemos esta unidade interior, quando não há cisão entre quem somos e quem parecemos, então desta unidade emana a verdadeira esmola, a autêntica misericórdia: um dom autêntico, não calculado, não instrumental. Não damos para parecer generosos, mas porque a generosidade tornou-se quem somos.
Os jovens têm sede de adultos autênticos e coerentes
Esta mensagem tem uma ressonância particular hoje, especialmente para as novas gerações.
Os jovens vivem imersos numa cultura onde tudo tem um preço, tudo é calculado em termos de rendimento e utilidade; as identidades estão fragmentadas entre mil perfis, máscaras, papéis sociais; as relações são mediatas, filtradas, muitas vezes anónimas ou superficiais.
Neste contexto, os jovens têm uma sede desesperada de adultos autênticos: pessoas que vivem aquilo que dizem, que não têm um rosto em público e outro em privado, que não mentem por conveniência.
É preciso nunca esquecer que os jovens não procuram adultos perfeitos – esses rejeitam-nos como falsos. Procuram adultos verdadeiros: capazes de reconhecer as suas próprias fragilidades, de ser coerentes nas pequenas coisas cotidianas, de manter a palavra dada, de ter uma vida interior que se vê. O melhor serviço que podemos prestar às novas gerações não é dar-lhes conselhos morais ou regras de comportamento, mas testemunhar uma vida autêntica.
O convite permanente
O fariseu convidou Jesus uma vez. Mas o texto revela-nos que Jesus está sempre disponível a ser convidado, hoje tal como há dois mil anos.
A pergunta para cada um de nós é: estamos dispostos a acolhê-l’O sabendo que a sua presença nos colocará perante a verdade de nós mesmos? Estamos prontos a deixar que ilumine as zonas de sombra? E ainda: depois de haver acolhido esta luz, estamos dispostos a viver na autenticidade renunciando às máscaras, dando aos outros não aquilo que nos engrandece, mas aquilo que temos dentro”?
Num mundo sedento de verdade, ser pessoas autênticas não é um luxo espiritual: é o primeiro ato de caridade que podemos realizar. Especialmente para com quem, como os jovens, tem o direito de ver que é possível viver sem duplicidades, que a integridade que não é uma utopia, que a coerência entre interior e exterior é o caminho da verdadeira liberdade.
Imagem: James Tissot, “Ai de vós, escribas e fariseus”, entre 1886 e 1894, Museu de Brooklyn
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