Mensagem do Reitor-Mor, Pe. Fabio Attard, aos leitores do Boletim Salesiano.
A parábola do rico e do pobre Lázaro que encontramos no evangelho de Lucas, capítulo 16, 19-31, não é simplesmente uma história sobre a justa distribuição das riquezas materiais. É uma narrativa que penetra no coração da condição humana, colocando-nos perante uma pergunta inquietante: quem possui verdadeiramente quem! O rico possuía a sua riqueza, ou era a riqueza que o possuía, transformando-o em seu escravo?
Esta inversão de perspetiva abre um espaço de reflexão profunda. O homem da parábola não era condenado por ter roubado ou explorado, mas por se ter tornado cego e surdo. A sua tragédia não estava no ter, mas em não ver e em não escutar. Vivia num mundo reduzido única e simplesmente às dimensões da sua casa, dos seus bens, do seu bem-estar imediato. À porta da sua casa jazia Lázaro, coberto de chagas que os cães vinham lamber, mas aquele pobre tinha-se tornado invisível, o seu grito silencioso inaudível.
A riqueza existencial
Quando falamos de riqueza, tendemos imediatamente a pensar no dinheiro, nos bens materiais, no sucesso económico. Mas existe uma riqueza, mais subtil e pervasiva: a existencial. É a riqueza de quem está bem, de quem encontrou o seu espaço de conforto, de quem vive rodeado de relações positivas, de experiências gratificantes, de certezas tranquilizantes. É a riqueza de uma comunidade que funciona, de um grupo onde uma pessoa se sente acolhida, de um ambiente onde tudo decorre de forma agradável.
Esta riqueza existencial é um dom, não há dúvida. É justo gozar dela, celebrá-la, dar-se conta da beleza daquilo que se vive. Mas precisamente aqui se esconde o perigo mais insidioso: o de se fechar nesta abundância, de transformar o espaço do bem-estar num gueto dourado, separado da realidade circundante.
O rico da parábola vivia assim. Não lhe faltava nada e, no entanto, faltava-lhe tudo: faltava-lhe a capacidade de ver fora de si mesmo, de se deixar tocar pela realidade que pressionava à sua porta. A sua riqueza tornara-se uma prisão invisível, com grades de rotina, indiferença e autorreferencialidade.
A cegueira e a surdez do conforto
A zona de conforto é um dos conceitos mais perigosos da modernidade. Está incluído nele que o bem-estar é um direito a proteger, mais do que um dom a compartilhar. Convence-nos que preservar o nosso equilíbrio é mais importante do que abrir-nos ao grito dos outros. Sussurra-nos que já fizemos bastante, que podemos finalmente descansar, que os outros problemas não nos dizem respeito diretamente.
A cegueira do rico não era física, mas espiritual. Via o seu palácio, os seus hábitos, a sua mesa preparada. Mas não via Lázaro. Não porque Lázaro estivesse escondido, mas porque o rico havia desenvolvido aquela especial forma de cegueira que filtra a realidade, deixando passar só aquilo que confirma a própria visão do mundo.
E havia também a surdez. O texto revela-nos este segundo defeito quando o homem, do além, suplica a Abraão que envie alguém dos mortos para que os seus irmãos escutem. Mas era ele que não havia escutado! Era surdo ao grito silencioso da pobreza, àquele sofrimento que não grita, mas subsiste, que não perturba, mas existe, que não reclama, mas espera.
A escuta interior como condição indispensável da escuta exterior
Como se ultrapassa esta dupla paralisia da cegueira e da surdez? A resposta não consiste num simples esforço de vontade ou num programa de atividades sociais. A resposta consiste numa conversão mais profunda: não podemos ver Cristo no pobre, se não contemplarmos Cristo dentro de nós. Não podemos escutar o grito dos vulneráveis, se não estivermos sintonizados com a voz de Deus no nosso coração.
As grandes testemunhas da caridade – de Dom Bosco a Madre Teresa de Calcutá – não partiram de uma análise lógica da pobreza, mas de uma experiência mística do amor de Deus. A sua capacidade de ver, escutar e responder ao exterior nascia de uma vida interior intensa, de uma contemplação que não era fuga do mundo, mas preparação para o encontro com o mundo.
Este é o paradoxo: quanto mais se desce na profundidade do próprio coração para aí reconhecer o amor de Deus, mais se adquire a capacidade de sair de si para ir ao encontro do outro. A vida espiritual não é um fechar-se em si narcisístico, mas o afastamento necessário para desenvolver aquela sensibilidade que nos permite perceber Cristo onde quer que se manifeste.
A missão como condivisão da riqueza
Cada pessoa é uma missão. Esta afirmação não significa que todos devemos tornar-nos ativistas frenéticos ou empenhar-nos em projetos grandiosos. Significa antes que a riqueza que recebemos – material, cultural, espiritual, existencial – não é propriedade exclusiva nossa, mas um dom destinado a circular.
Quem ama põe-se sem movimento, sai de si, deixa-se atrair e atrai à sua volta. O amor é dinâmico por natureza: não pode ser acumulado, conservado, blindado numa zona de conforto. Ou o compartilhamos, ou o perdemos. Ou o fazemos circular, ou se corrompe.
O desafio, portanto, não é renunciar à riqueza existencial, mas possuí-la de modo diferente: não como proprietários ciosos, não como ponto de chegada, mas como ponto de partida para novos percursos de partilha.
Minoria criativa e sinais de esperança
Num mundo marcado por crescentes desigualdades e indiferenças estruturais, quem escolhe não se tornar cego e surdo torna-se necessariamente uma minoria. Mas esta é uma minoria criativa, capaz de acender luzes de esperança ainda que pequenas, mas certamente contagiantes.
A esperança não é otimismo ingénuo nem resignação passiva. A esperança é uma pessoa: Cristo, que continua a interpelar-nos através de todos os Lázaros que jazem à porta da nossa existência. Reconhecê-l’O ali, no rosto desfigurado do pobre, no grito silencioso do excluído, no sofrimento ignorado do vulnerável, é o único modo de não nos tornarmos escravos da nossa riqueza, de não acabarmos consumidos pelo nosso próprio bem-estar.
A parábola inculca-nos com urgência: hoje, já, antes que seja demasiado tarde, abrir os olhos e os ouvidos à realidade que nos rodeia. Porque amanhã, do outro lado, de nada servirá chorar por não ter visto nem escutado.
Fotografia: Esaias Van de Velde e Bartholomeus van Bassen, “Lazaro à porta do Homem Rico”, Século XVII, Museu de Belas Artes de São Francisco
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