Esperança: Deus continua a ser jovem

A nossa esperança precisa da esperança da juventude. Até porque é nela que reside a fonte maior das esperanças. É ela que nos dá o ânimo para a esperança que está dentro de nós. Na mente, no coração, nas mãos. E no rosto. Porque como pensou Emmanuel Levinas, “o acesso à verticalidade do rosto é, num primeiro momento, ético”. A expressão íntegra do rosto, sem defesa, nua, conduz-nos não tanto ao disfarce, à aparência, ao solipsismo, mas à nossa “pobreza essencial”. E é nos mais novos que o rosto se apresenta mais puro, mais despido, mais autêntico, sem maquilhagem.

Uma expressão una e pluralista que o Papa Francisco exprimiu através da imagem das faces do poliedro: “a união de todas as parcialidades que, na unidade, mantém a originalidade das parcialidades individuais”. Nele (poliedro), nada se dissolve, nada se destrói, nada se domina, tudo se integra. No caso do jovem, é imperativo que nesse poliedro da vida se enobreça o valor do direito-dever.

Tudo isto sempre em nome de valores inalienáveis. Educação, verdade, carácter, trabalho, sensibilidade, sensatez, consciência, compaixão, autenticidade. Em suma, humanismo integral (amor) com a prudência tomista de ter em tudo medida e de nada ser medido por demasiado.

Na sua eloquência da simplicidade, o Santo Padre exorta os jovens para serem os protagonistas da mudança e construtores do mundo, em nome de um futuro de esperança. Para isso é necessário – diz – “vencer a apatia, dando uma resposta cristã às inquietações sociais e políticas no mundo”. Com fé e caridade cristã, continua Francisco: “Não olhem a vida da varanda, entrem nela. Não tenham uma fé espremida, não sejam cristãos estacionados. A fé é integral, não se espreme”.

Para isso precisam de “pensar bem, ouvir bem, fazer bem”. E pede a todos – jovens e não jovens – que usem com sentido profundamente humano três palavras da ética personalista: “Com licença, obrigado, desculpa”.

Os tempos não favorecem a serena paciência do tempo certo de se ser criança e depois jovem. Basta observar a “socialização uniformista dos sentimentos”. Basta olhar para o ambiente predatório e doentiamente competitivo a que a sociedade e tantos pais sujeitam os mais novos, na escola e diante dos amigos, não raro para satisfazer egoisticamente vaidades e devaneios. Basta determo-nos nas televisões com concursos e testes traumatizantes e expressões indignas de exploração infantil e juvenil de “colarinho branco”. Basta atender ao frenesim consumista e à febre das tecnologias com que se estimulam os jovens à ideia do tudo, sem lhes ter sido ensinada a necessidade austera das escolhas e consequentes renúncias, e onde se estimula a confusão amoral entre o importante, o meramente útil, o ilusoriamente fútil e o desprezivelmente inútil.

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O Titanic foi feito por profissionais, a arca de Noé foi feita por amadores. Eis aqui o confronto entre a tecnologia dos meios (técnicos) e a qualidade dos fins (humanos). Aquela não basta, se o que fazemos e empreendemos não tiver um desígnio, uma razão de ser, não tiver alma, não for feito com verdadeiro amor. No caso dos jovens, com sentido de utopia, com fé e espiritualidade e não algemados pela tecnologia impessoal ou impositiva, olhada como um fim e não como um meio ao serviço da pessoa.

Malala Yousafzai, a jovem paquistanesa Nobel da Paz, no seu vibrante e cativante discurso na ONU em 2013, com a delicadeza e a lucidez de uma menina esventrada na sua infância, falou “das canetas e dos livros como as mais poderosas armas” que os mais novos devem ter.

Não esqueçamos: “Deus é jovem”, assim se chama um dos mais recentes livros do Papa. Vale a pena lê-lo e exprimi-lo na vida de cada um.

(Por vontade do autor este texto não segue o Novo Acordo Ortográfico)
Originalmente publicado no Boletim Salesiano n.º 569 de Julho/Agosto de 2018

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