Do quarto de Alexandrina ao Santuário que agora acolhe multidões

Durante grande parte da sua vida, o mundo da Beata Alexandrina Maria da Costa coube num pequeno quarto, em Balasar. Foi ali que recebeu visitas, escutou pessoas, escreveu e viveu uma profunda experiência espiritual. Décadas depois, a sua história continua a atrair peregrinos de todo o mundo. A trasladação dos seus restos mortais e a dedicação do novo Santuário Eucarístico de Balasar, nos dias 10 e 11 de outubro, assinalam uma nova etapa para este lugar de peregrinação. Mais do que um novo edifício, nasce o desafio de continuar a acolher, escutar e acompanhar quem ali chega.

Há lugares cuja importância não se mede pela sua dimensão. Em Balasar, no concelho da Póvoa de Varzim, um pequeno quarto tornou-se, ao longo dos anos, um lugar de encontro para muitas pessoas. Ali, viveu a Beata Alexandrina Maria da Costa, que passou grande parte da sua vida imobilizada pela doença, mas que manteve uma relação próxima com todos os que a procuravam.

Apesar das limitações físicas, Alexandrina recebia todos quantos a visitavam,  escutava as suas preocupações e a partilhava uma experiência de fé profundamente marcada pela Eucaristia. “Amar, sofrer, reparar” era o seu lema de vida.

O seu quarto, que poderia ter sido apenas um espaço de isolamento, tornou-se um lugar de acolhimento e de encontro, isto porque a influência de Alexandrina não terminou com a sua morte, a 13 de outubro de 1955. Ao longo das décadas, Balasar continuou a receber milhares de pessoas que ali se deslocam para conhecer a história de Alexandrina, rezar, agradecer ou encontrar algum sentido para as dificuldades que atravessam.

Hoje, essa pequena localidade portuguesa é destino de peregrinação para pessoas de diferentes países e culturas. Segundo os dados disponibilizados pela organização, habitualmente,  cerca de 250 mil pessoas participam, anualmente, nas celebrações em Balasar, enquanto aproximadamente 150 mil peregrinos visitam o túmulo da Beata Alexandrina.

São números que ajudam a compreender a dimensão de uma devoção que ultrapassou as fronteiras da localidade onde Alexandrina viveu.

Dois dias que marcaram a história de Balasar

Os dias 10 e 11 de outubro de 2026 ficam ligados a dois momentos particularmente significativos: a trasladação dos restos mortais da Beata Alexandrina, da igreja paroquial para o novo Santuário Eucarístico, e a solene dedicação da igreja e do altar do novo Santuário Eucarístico.

A trasladação representa mais do que a mudança do lugar onde repousam os restos mortais da Beata. Simboliza a continuidade de uma história que começou na simplicidade de uma casa e que encontra, agora, um novo espaço para acolher aqueles que procuram conhecer melhor a sua vida e espiritualidade.

Na nova capela tumular, a Beata Alexandrina ficou rodeada de rosas, e repousa numa sepultura situada lateralmente e concebida de forma simples, procurando refletir a humildade que marcou a sua vida e, de acordo com a vontade da própria, que está orientada para o Sacrário. Este é um pormenor que ajuda a compreender o sentido de todo o projeto: mesmo num edifício inteiramente novo, o centro permanece aquele que foi o centro da vida espiritual de Alexandrina –  Jesus presente na Eucaristia.

Um Santuário que conta uma história

Com capacidade para cerca de 1800 pessoas sentadas, o novo Santuário Eucarístico de Balasar foi pensado para responder ao crescimento das peregrinações e criar melhores condições de acolhimento, oração e celebração.

Mas a dimensão do edifício é apenas uma parte da história.

Na sua arquitetura e nos seus elementos artísticos encontram-se referências à experiência espiritual da Beata Alexandrina, especialmente à Eucaristia, à Cruz e a Nossa Senhora.

A forma exterior evoca uma tenda, imagem bíblica da presença de Deus no meio do seu povo. A cobertura remete para o manto de Nossa Senhora, a quem Alexandrina chamava de “Mãezinha”.

No centro do conjunto encontra-se a Capela da Adoração Eucarística. A grande nave acolhe as celebrações comunitárias, enquanto os outros espaços são destinados à oração, à reconciliação, à formação e ao encontro.

A pedra, o bronze, os vitrais e a luz ajudam a contar uma história que liga o sofrimento à esperança, a fragilidade humana à confiança em Deus.

O novo Santuário procura, assim, ir além da resposta a uma necessidade de espaço. A sua arquitetura foi concebida para ajudar os peregrinos a compreender a espiritualidade de Alexandrina e a encontrar um ambiente favorável à oração e à reflexão.

O maior desafio não está nas paredes

A inauguração do novo Santuário não representa o fim de um projeto. Pelo contrário, marca o início de uma nova responsabilidade.

Num lugar que recebe milhares de peregrinos, o desafio não passa apenas por organizar acessos, garantir segurança ou disponibilizar espaços adequados. Passa, sobretudo, por acolher as pessoas.

Quem chega a Balasar traz histórias muito diferentes. Há quem venha agradecer, quem procure respostas, quem atravesse uma situação de doença ou de sofrimento e quem simplesmente deseje encontrar um momento de silêncio.

O Arcebispo de Braga, D. José Cordeiro, tinha já sublinhado precisamente esta dimensão, expressando o desejo de que os peregrinos encontrem “não apenas um espaço belo”, mas, “uma comunidade com capacidade de escutar, acompanhar e cuidar”.

Esta preocupação está também presente na missão pastoral do novo espaço, que prevê condições para a adoração eucarística, para a celebração do Sacramento da Reconciliação, para retiros e para o acompanhamento espiritual.

Como sintetizou o Reitor do Santuário, Mons. Manuel Casado Neiva, o objetivo é “construir a Igreja viva”.

A verdadeira medida do sucesso deste novo espaço poderá, por isso, não estar apenas no número de visitantes que conseguir acolher, mas também na qualidade do encontro que proporcionar a cada pessoa.

Uma herança que interpela a Família Salesiana

A abertura do novo Santuário tem, também, um significado especial para a Família Salesiana, à qual a Beata Alexandrina esteve ligada como Salesiana Cooperadora.

A sua vida apresenta uma forma particular de compreender a missão. Embora fisicamente limitada, Alexandrina manteve uma grande atenção aos outros, através da oração, da escuta, da correspondência e das relações que cultivou.

O seu testemunho recorda que a missão não acontece apenas através de grandes iniciativas ou de atividades visíveis. Também se concretiza na presença discreta, na disponibilidade para escutar e na capacidade de acompanhar alguém que atravessa um momento difícil.

Para Rosa Mateus, coordenadora nacional dos Salesianos Cooperadores de Portugal e Cabo Verde, com Alexandrina a  Família Salesiana pode aprender que a verdadeira missão “não depende de onde estamos, mas do amor com que vivemos e nos entregamos aos outros”.

“Alexandrina foi uma mulher que viveu grande parte da sua missão dentro de um quarto, isso mostra-nos que é possível evangelizar através da oração, do sofrimento, da esperança. O seu testemunho ensina-nos que a santidade se constrói nas pequenas coisas, mesmo nas situações de fragilidade e de limitação”, sublinhou a coordenadora nacional.

Não precisamos de fazer grandes coisas para transformar o mundo. Mesmo num quarto, com um coração cheio de amor e fé, podemos tocar muitas vidas e realizar uma grande missão. Esta dimensão encontra uma profunda ligação com o espírito de Dom Bosco, que colocou a proximidade, a confiança e a atenção a cada pessoa no centro da sua ação educativa e pastoral.

Para os Salesianos Cooperadores e para toda a Família Salesiana, a história de Alexandrina continua a lançar um desafio: reconhecer que fazer o bem não depende apenas daquilo que conseguimos realizar, mas também da forma como estamos presentes na vida dos outros.

“Para a Família Salesiana, é um convite a viver com mais fé, alegria, generosidade e confiança em Deus, seguindo o exemplo de Dom Bosco e colocando sempre o amor ao serviço dos outros”, concluiu Rosa Mateus.

Do quarto de Alexandrina às portas abertas do Santuário

Há um contraste que permanece no centro desta história. De um lado, o pequeno quarto onde Alexandrina passou tantos anos. Do outro, um Santuário preparado para receber milhares de peregrinos.

Entre estes dois espaços, separados pelo tempo e pela dimensão, existe uma continuidade: o desejo de fazer da fé uma experiência de encontro.

A vida de Alexandrina mostra que a capacidade de acolher não depende necessariamente do espaço de que dispomos. E o novo Santuário enfrenta agora o desafio de transformar a dimensão do edifício numa experiência de proximidade humana.

Em Balasar, a abertura de uma nova igreja não encerra a história de Alexandrina, permite que ela continue a ser conhecida e que a sua mensagem encontre lugar na vida de outras pessoas.

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