A poucos dias da trasladação dos restos mortais da Beata Alexandrina para o novo Santuário Eucarístico de Balasar, recordamos uma dimensão nem sempre tão conhecida da sua vida: a sua ligação à Família Salesiana.
Alexandrina foi Salesiana Cooperadora e encontrou na espiritualidade de Dom Bosco um caminho para alargar ainda mais a sua entrega aos outros, particularmente aos jovens.
Há encontros que acabam por deixar marcas muito maiores do que seria possível imaginar. Na vida de Alexandrina Maria da Costa, um desses encontros foi com a Família Salesiana.
Esta ligação começou, sobretudo, através do Padre Humberto Pasquale, salesiano italiano e mestre de noviços em Mogofores, que conheceu Alexandrina, em 1944, e se tornou seu diretor espiritual. O sacerdote encontrou naquela jovem de Balasar, há muitos anos limitada pela doença ao espaço do seu quarto, uma vida interior de grande profundidade. Alexandrina encontrou naquele sacerdote alguém capaz de a acompanhar, de a compreender e também de lhe dar a conhecer mais de perto Dom Bosco e a missão salesiana.
A relação cresceu. O Padre Humberto pediu-lhe que continuasse a ditar aquilo que ia vivendo interiormente. Alexandrina, impossibilitada de escrever normalmente, ditava à sua irmã Deolinda. Muitas dessas páginas eram depois enviadas para Mogofores, onde os noviços salesianos ajudavam a datilografá-las. Uma ligação aparentemente simples entre um quarto em Balasar e uma casa salesiana viria, assim, a contribuir para conservar uma parte importante dos escritos através dos quais hoje conhecemos a sua experiência espiritual.
Salesiana Cooperadora: uma missão maior do que Alexandrina
Mas a relação de Alexandrina com os Salesianos não se limitou à sua ligação com aquele sacerdote.
A 15 de agosto de 1944, Alexandrina tornou-se Salesiana Cooperadora, passando a pertencer formalmente à Família Salesiana. O gesto teve para ela um significado profundo, de tal forma que quis que o diploma de Cooperadora permanecesse num lugar onde pudesse vê-lo e assumiu também como sua a missão de rezar e oferecer a vida pela salvação das pessoas, de modo particular pelos jovens.
Para alguém que praticamente não podia sair do quarto, poderia parecer uma escolha estranha. Dom Bosco tinha construído a sua missão entre jovens, escolas, oficinas e oratórios; Alexandrina passava os seus dias numa cama. Mas é precisamente aqui que a sua ligação à espiritualidade salesiana ganha uma força especial.
Alexandrina percebeu que também dali podia participar numa missão maior do que ela. Não podia percorrer as ruas ao encontro dos jovens, mas podia interessar-se por eles. Não podia estar fisicamente num oratório, mas podia acolher. Não podia acompanhar grandes grupos, mas podia escutar cada pessoa que atravessava a porta da sua casa.
E foram muitas as pessoas que a procuraram.
O quarto: o seu pequeno oratório
Ao longo de vários anos, crianças, jovens e adultos começaram a procurar Alexandrina. Alguns iam pedir um conselho. Outros queriam simplesmente ser escutados. Havia quem chegasse com preocupações pessoais ou familiares e quem procurasse ajuda para reencontrar um caminho.
O pequeno quarto de Alexandrina da Costa foi-se tornando, a pouco e pouco, um lugar de encontro.
Descrito por fontes salesianas como uma espécie de “mini-oratório”: ali, Alexandrina conversava com crianças e jovens, ensinava-lhes a fé e procurava aproximá-los de Jesus com a simplicidade de quem fala de alguém que conhece profundamente.
Talvez seja também aqui que Alexandrina se aproxima de uma das intuições mais bonitas de Dom Bosco: para fazer o bem, nem sempre são necessários grandes meios. É preciso, antes de tudo, estar verdadeiramente disponível para a pessoa que temos diante de nós.
Alexandrina não fundou escolas nem construiu oratórios. O seu espaço era pequeno. Mas soube transformá-lo num lugar onde muita gente encontrou atenção, escuta e esperança.

Uma ligação que continuou depois da sua morte
Alexandrina morreu a 13 de outubro de 1955, mas a relação com a Família Salesiana não terminou aí.
Quando começou a ser preparado o processo relativo à sua santidade, a presença salesiana voltou a ser determinante. Em 1965, o Arcebispo de Braga convidou o Pe. Humberto Pasquale a trabalhar na preparação do processo. Com outro salesiano, o Pe. Heitor Calovi, recolheu documentação e testemunhos fundamentais para o estudo da vida e das virtudes de Alexandrina. Depois da morte do Pe. Humberto, a causa continuou ligada à Postulação Geral dos Salesianos.
Décadas mais tarde, a Igreja reconheceu publicamente aquilo que tantas pessoas já tinham descoberto na pequena casa de Balasar. Alexandrina foi beatificada por São João Paulo II, a 25 de abril de 2004.
Hoje, a Beata Alexandrina integra a santidade reconhecida pela Família Salesiana. A sua vida recorda uma forma muito particular de missão: a de quem transforma a fragilidade, a oração, a escuta e a atenção aos outros numa maneira concreta de cooperar no bem.
Balasar continua a reunir a Família Salesiana
Em Balasar existe, hoje, um Centro Internacional Salesiano de Espiritualidade dedicado ao aprofundamento e à divulgação da mensagem de Alexandrina. E, em 2019, precisamente no 75.º aniversário da sua promessa como Salesiana Cooperadora, 17 novos Salesianos Cooperadores fizeram, ali, a sua promessa, dando origem ao primeiro grupo de Salesianos Cooperadores de Balasar.
Este centro de espiritualidade é um sinal de continuidade: uma jovem que um dia conheceu a Família Salesiana a partir do seu quarto continua, décadas depois, a aproximar muitas pessoas do carisma de Dom Bosco.
Nos próximos dias, Balasar viverá mais um momento marcante desta história.
No dia 10 de outubro, os restos mortais da Beata Alexandrina serão trasladados da igreja paroquial para o novo Santuário Eucarístico Alexandrina de Balasar, numa celebração presidida por D. José Cordeiro, Arcebispo Metropolita de Braga. No dia seguinte, 11 de outubro, será celebrada a dedicação da igreja e do altar e a inauguração do novo Santuário, presidida por D. Andrés Carrascosa Coso, Núncio Apostólico em Portugal.
A trasladação não é apenas a passagem dos seus restos mortais de um lugar para outro. É também uma oportunidade para voltar a olhar para uma vida que continua a interpelar. Para a Família Salesiana, esta é uma ocasião para recordar uma das suas filhas portuguesas.
Uma mulher que nunca entrou num pátio salesiano para aí trabalhar todos os dias, mas que fez do próprio quarto um pequeno oratório. Que não pôde correr ao encontro dos jovens, mas os guardou no coração. E que encontrou na Família de Dom Bosco uma forma concreta de dizer, através da sua própria vida, que ninguém é demasiado pequeno, demasiado frágil ou demasiado limitado para fazer o bem.



