No discernimento entre uma vida “normal” e a entrega total a Deus, o Pe. Samora Marcel, jovem timorense crescido no ambiente salesiano, descobriu, passo a passo, que a sua felicidade não passava por uma carreira estável, pelo namoro ou por uma família própria, mas por um “sim” definitivo ao sacerdócio. Numa caminhada feita de questões, a espiritualidade de Dom Bosco, a proximidade aos jovens e o acompanhamento da família e dos formadores foram confirmando, no seu coração, que Deus o chamava a servir os mais novos, como salesiano, com alegria e dedicação.
Hoje, ao partilhar a sua história, o seu testemunho torna‑se, também, uma forma de evangelizar, mostrando que a vocação não é fuga, mas um caminho exigente e real de felicidade seguindo Jesus.
Como descobriu a sua vocação? Teve logo a certeza de que o seu caminho passava pelo sacerdócio salesiano, ou foi um processo gradual?
Descobri a minha vocação quando entrei no seminário. Foi um momento decisivo para o meu futuro, porque comecei a olhar para a minha vida com mais profundidade e a perguntar-me, seriamente, o que Deus queria de mim. Até essa altura tinha sonhos e projetos, como qualquer jovem, mas sentia, dentro de mim, um apelo diferente, algo que me inquietava e, ao mesmo tempo, me atraía.
No entanto, não posso dizer que tive logo a certeza de que o meu caminho passava pelo sacerdócio salesiano. Foi, sem dúvida, um processo gradual.
Ao longo dos anos de formação fui conhecendo melhor a espiritualidade de Dom Bosco, o trabalho com os jovens e a missão da Congregação Salesiana. Esse contacto foi confirmando, pouco a pouco, aquilo que eu sentia no coração. O caminho para o sacerdócio não é fácil. Exige renúncias, maturidade e uma luta interior constante. Há momentos de dúvida, de medo e de fragilidade, mas também há momentos de grande alegria e paz.
Num país jovem e vibrante como Timor-Leste, tomar uma decisão vocacional foi fácil? Como viveu o discernimento entre as decisões habituais da juventude – namoro, casamento, profissão?
Tomar uma decisão vocacional, em Timor-Leste, não é algo simples. Timor é um país muito jovem e cheio de vida, com muitas oportunidades e, também, com muitas expectativas sociais. Como qualquer outro jovem timorense, também eu pensava no futuro, na possibilidade de ter uma profissão estável, formar uma família, seguir um caminho considerado “normal” pela sociedade.
Percebi que a vocação não é uma fuga ao mundo, mas uma forma diferente de viver para os outros.
Por que escolheu a Congregação Salesiana entre tantas outras possibilidades? O que o atraiu no carisma de Dom Bosco, especialmente no contexto timorense de juventude e missão?
A escolha da Congregação Salesiana foi, antes de mais, fruto da minha própria experiência de vida. Não foi apenas uma escolha teórica, mas uma escolha que nasceu da convivência concreta com esta realidade.
O que o atraiu no carisma de Dom Bosco, especialmente no contexto timorense de juventude e missão?
O que mais me atraiu no carisma salesiano, especialmente no contexto timorense de juventude e missão, foi precisamente a proximidade com os jovens. Em Timor-Leste, a maioria da população é jovem e enfrenta muitos desafios: educação, trabalho, formação humana e espiritual. Ver como os Salesianos se dedicam a acompanhar, educar e orientar a juventude tocou-me profundamente.
A sua família foi o seu primeiro “oratório”? Como reagiram quando lhes comunicou esta decisão tão importante da sua vida?
Posso dizer que a minha família foi, realmente, o meu primeiro “oratório”. Foi em casa que aprendi os primeiros valores cristãos, a importância da fé, da oração e do respeito pelos outros.
Quando lhes comuniquei a decisão de seguir o caminho vocacional e entrar no seminário, disseram-me: “O futuro é teu e a escolha é tua. Escolhe o melhor para a tua vida, e nós, como pais, continuaremos sempre a apoiar-te.”. Até hoje sinto que a minha vocação também é fruto do testemunho deles. Sem o apoio da minha família, teria sido muito mais difícil dar este passo.

E os seus amigos? Houve surpresa, apoio, curiosidade, ou até incompreensão face à sua decisão de seguir Jesus de forma tão radical?
Em relação aos meus amigos, as reações foram muito diversas. Os que souberam na altura ficaram, em grande parte, surpreendidos. Alguns perguntavam-me se tinha mesmo a certeza do que queria, outros demonstravam curiosidade sobre como era a vida no seminário e o caminho da formação. Houve, também, quem não entendesse muito bem a minha escolha e pensasse que eu estava a desistir de outros projetos pessoais. No entanto, a maioria dos meus amigos reagiu de forma muito positiva.
Hoje, sinto que, de alguma forma, o meu testemunho também é uma forma de evangelizar e de mostrar aos meus amigos que é possível ser feliz seguindo Jesus.
Quais foram os maiores desafios desta caminhada, especialmente vindo de Timor-Leste para a formação salesiana — adaptação cultural, saudades de casa, exigências académicas e espirituais?
Os desafios foram muitos, e em vários níveis. Em primeiro lugar, a distância. Sair de Timor-Leste e ir para um país distante, para continuar a formação, foi uma experiência muito exigente. Estar longe da família, dos amigos e da minha terra foi talvez a dificuldade mais sentida, sobretudo, nos primeiros tempos.
Outro grande desafio foi a adaptação cultural. A maneira de pensar, de viver, de comunicar e até de trabalhar é diferente. Foi necessário aprender uma nova língua, adaptar-me a novos costumes e a um estilo de vida diferente daquele a que estava habituado.
As exigências académicas também foram um desafio importante. O ritmo de estudo, as responsabilidades da formação e a necessidade de conciliar tudo isso com a vida comunitária e espiritual exigiram muito esforço e disciplina. Houve momentos de cansaço e de desânimo, em que me perguntei se seria capaz de continuar. Além disso, houve também desafios espirituais.
Aprendi que a vocação se constrói todos os dias, com fidelidade nas pequenas coisas.
Quem foram as figuras mais importantes nesta jornada? Quem o ajudou a escutar e confirmar a vontade de Deus?
É difícil identificar, apenas, uma pessoa como a mais importante nesta caminhada. A vocação não nasce nem cresce sozinha; é sempre fruto de uma comunidade e de várias mãos que nos apoiam. Em primeiro lugar, a minha família teve um papel fundamental. Depois, os Salesianos tiveram também uma influência muito grande. A sua alegria, dedicação aos jovens e amor à missão ajudaram-me a compreender melhor o que significa ser salesiano.
Hoje, reconheço que Deus colocou muitas pessoas no meu caminho como instrumentos da Sua graça. A cada uma delas devo muito daquilo que sou e da vocação que abracei.
Quais foram os momentos mais significativos desta caminhada? Quer destacar algum episódio que simbolize a certeza do seu “sim” definitivo?
Recordo, de modo especial, o dia da minha primeira profissão, como salesiano. Foi um momento de grande alegria, mas, também, de profunda responsabilidade. Outro momento marcante foi a minha profissão perpétua. Esse “sim definitivo” ficou gravado no meu coração como um compromisso para toda a vida.
Não me considero digno de uma vocação tão grande, mas acredito que este “sim”, que professei publicamente, é como uma resposta humilde ao amor que Deus tem por mim.
Como é o Pe. Samora Marcel? De que forma a sua experiência timorense — multicultural, missionária, jovem – enriquece o seu ministério sacerdotal nas casas salesianas portuguesas?
Sou uma pessoa simples e simpática e, mesmo com as minhas limitações, gosto muito de colaborar com as pessoas que precisam de mim. Procuro viver o meu ministério com proximidade, humildade e disponibilidade, colocando sempre os jovens no centro da minha missão, como aprendi com Dom Bosco.

Como está a ser a sua experiência na presença salesiana do Estoril?
Em primeiro lugar, esta é a minha primeira experiência como salesiano sacerdote e, para mim, está a ser um bom início do exercício deste ministério. Sinto que estou a dar os primeiros passos de uma nova etapa da minha vida com entusiasmo e com vontade de aprender. A presença salesiana do Estoril tem uma comunidade muito dinâmica, com muitas atividades ligadas à escola e à pastoral juvenil. É um ambiente vivo, onde o contacto com os jovens é constante e onde se sente verdadeiramente o espírito de Dom Bosco.
O seu futuro passa por ficar em Portugal ou a sua obediência dita que tem de seguir para outros locais?
Ao falar do meu futuro, reconheço que só Deus o conhece verdadeiramente, e que Ele me guia, através dos meus superiores. Como salesiano, fiz um voto de obediência e, por isso, estou sempre disponível para ir para onde a Congregação me enviar.
Na sua opinião, quais são hoje os maiores desafios da Igreja?
Na minha opinião, um dos maiores desafios da Igreja, nos dias de hoje, é, sem dúvida, a questão das vocações para a vida consagrada e para o sacerdócio. Sentimos que há cada vez menos jovens disponíveis para assumir este caminho, e isso está muito ligado às mudanças que acontecem na sociedade e nas próprias famílias. Atualmente, muitas famílias têm menos filhos e vivem num ritmo de vida mais acelerado, com menos espaço para a transmissão da fé e para o acompanhamento espiritual. Além disso, a cultura atual valoriza muito o sucesso pessoal, o conforto e a liberdade individual, o que torna mais difícil compreender o sentido de uma entrega total a Deus e aos outros.
Outro grande desafio é a necessidade de a Igreja continuar a dialogar com o mundo moderno, especialmente com as novas gerações. É fundamental encontrar novas formas de evangelizar, de estar presente nas realidades juvenis e de transmitir a mensagem do Evangelho de maneira próxima, simples e significativa
Ser jovem católico comprometido está “fora de moda”?
A meu ver, ser jovem católico comprometido não está “fora de moda”. Pelo contrário, é um caminho sempre atual e necessário. O que acontece é que, muitas vezes, os valores cristãos não acompanham as tendências do mundo, e isso pode dar a impressão de que a fé pertence apenas ao passado.
Mais do que uma questão de moda, ser jovem católico é uma escolha de vida, que exige coragem, coerência e esperança.
Na sua opinião vivemos uma crise de vocações?
Não diria que é propriamente uma crise, mas certamente vivemos um período de grandes desafios para as vocações. Há menos jovens disponíveis para optar pela vida consagrada ou pelo sacerdócio. As vocações continuam a surgir, mas é necessário acompanhá-las, apoiar as famílias, evangelizar de forma próxima e apresentar aos jovens uma fé viva, cheia de sentido e alegria.
A fé continua a chamar, e o Espírito Santo continua a agir, mesmo em tempos difíceis. O desafio está em responder a esse chamamento com coragem, criatividade e confiança.
Que palavras gostaria de dirigir aos jovens timorenses e portugueses que estão a descobrir que Deus continua a chamar, pacientemente, cada um?
Gostaria de dizer a todos os jovens que Deus continua a chamar-nos com paciência e amor infinito. Deus não pressiona, mas espera pelo nosso coração aberto, e o seu convite é sempre um convite à felicidade verdadeira, à entrega e ao serviço aos outros.
Não tenham medo de ouvir essa voz, mesmo que às vezes seja silenciosa ou difícil de compreender. É normal ter dúvidas, questionar e sentir inseguranças, mas a fé é construída passo a passo. Não tenham medo de dizer “sim” ao Senhor. Ele continua a chamar, pacientemente, e a sua voz é sempre sinal de amor, esperança e vida plena.








