“Esta é uma Província muito acolhedora, sentimo-nos imediatamente em casa”

Na Visita Extraordinária à Província Portuguesa, o Conselheiro Regional para a Região Mediterrânea, Pe. Juan Carlos Godoy, sublinha a excelência das escolas salesianas, a criatividade de iniciativas como a Festa da Santidade Juvenil, bem como a forte corresponsabilidade dos leigos e o horizonte missionário aberto aos jovens mais pobres.

No seu longo percurso vocacional, marcado pela frase “do teu sim ou do teu não depende a felicidade de muitos”, o Pe. Juan Carlos deixa uma mensagem de esperança aos salesianos, educadores e jovens: perante desafios como novas pobrezas emocionais e culturais é importante recordar que “o Senhor está connosco”. Reviver esta certeza, a cada dia, é garantir a construção de um futuro de vitalidade salesiana, onde David vence Golias pela confiança na presença divina.

O que é uma Visita Extraordinária? Quem as realiza?

A visita extraordinária é um momento importante para todas as províncias salesianas. É uma visita que as nossas constituições pedem ao Reitor-Mor que faça, uma vez no sexénio, a todas as províncias da Congregação. O mesmo artigo prevê que esta possa ser feita por um visitador, por um delegado, uma vez que é impossível que o Reitor-Mor faça todas as visitas extraordinárias.

É uma visita para animar, para promover a comunhão, para conhecer a realidade e poder orientá-la em fidelidade ao carisma salesiano, em fidelidade a Dom Bosco.

Que importância têm estas Visitas Extraordinárias? O que representam para a província que as recebe?

As Visitas Extraordinárias permitem um conhecimento mais próximo da realidade de cada província, de cada casa e dos irmãos, por parte do Reitor-Mor, e por parte do Conselho Geral. Por isso, após cada visita, o visitador deve preparar um relatório que é apresentado ao Conselho Geral e ao Reitor-Mor.

Após o estudo desse relatório, o Reitor-Mor escreve uma carta ao respetivo Provincial.

Quais as principais motivações para esta visita à Província Portuguesa?

É, principalmente, a necessidade de estabelecer relações muito próximas entre cada uma das províncias e o Reitor-Mor, para que este as possa animar e orientar, de modo que todas as províncias possam avançar nos seus objetivos, nas suas apostas, nas suas iniciativas. Seguindo, sempre, as orientações que vão saindo dos diferentes Capítulos Gerais (CG).

Como olha a realidade atual da Província Portuguesa?

É uma realidade muito bonita. Não é uma realidade muito grande, são 10 casas, com a de Cabo Verde, mas é uma realidade consistente. É uma realidade que tem uma grande vitalidade salesiana.

Quando se chega às casas, respira-se, imediatamente, um ambiente salesiano:  a proximidade dos jovens, o espírito de família.

Destaque, também, para a grande quantidade de pessoas com as quais os salesianos estão a partilhar a sua missão de trabalhar pelos jovens.
Esta é a impressão mais global. Tenho uma visão muito positiva da realidade da Província Portuguesa.

Que aspetos da missão salesiana em Portugal o tocam mais profundamente?

Em particular, houve algo que me chamou profundamente a atenção e que tocou o meu coração:  a festa da Santidade Juvenil – pude celebrá-la em várias casas. Esta realidade, além de ser original – porque é a primeira vez que a encontro numa província – é uma festa muito significativa e com muitas possibilidades pastorais. Ver como os jovens celebravam esta realidade também me tocou muito.

Outro aspeto que me tocou profundamente foi ver a serenidade da vida nas comunidades: a serenidade dos irmãos, a fraternidade simples e singela. Finalmente, esta é uma província muito acolhedora, sentimo-nos imediatamente em casa, sentimo-nos muito bem acolhidos, muito bem acompanhados.

Destaco, ainda, as demonstrações de proximidade e de carinho dos jovens que, vinham pelo pátio e me abraçavam. São coisas muito bonitas.

Como avalia o papel das presenças salesianas no contexto educativo português?

Esta é uma província muito marcada pela realidade escolar, muito bem conduzida e com muita identidade salesiana.

As escolas salesianas em Portugal estão num nível de excelência, não só pelos resultados educativos, mas, também, porque são um espaço oportuno para cumprir a missão salesiana: educar e evangelizar.

Se há um espaço onde o binómio evangelizar-educar, educar-evangelizar, pode ser feito com mais plenitude, é, precisamente, nas escolas. E é por isso que valorizo, tanto, todas as atividades que esta província pensou em torno da realidade escolar. Destaco, por exemplo, o ArtiSport, por ser um espaço onde se pode encontrar tantos jovens. Outro elemento que destaco nas escolas é a preocupação com todos aqueles que têm necessidades especiais, através da ação dos vários departamentos Psicopedagógicos.

A Congregação Salesiana

A Congregação Salesiana está em constante processo de renovação. Quais são, no seu entender, os maiores desafios que hoje enfrentamos a nível global?

Olhando para o mundo, ao qual, hoje, como salesianos, temos de responder e que o Senhor nos confia, eu diria que o primeiro desafio da Congregação é o de chegar aos jovens.

Num mundo marcado por uma grande diversidade cultural, étnica, religiosa e sociocultural dos jovens, chegar a todos eles continua a ser um grande desafio.

Por outro lado, chegar aos jovens mais pobres, através da educação, é também um grande desafio, seja nos oratórios, nas paróquias ou nas obras de ação social

O cuidado para com os mais pobres e excluídos é uma prioridade no carisma salesiano. Quais são, hoje, as novas formas de pobreza que desafiam a Congregação?

Hoje, existem muitas formas de pobreza entre os jovens. Acho que dizer jovem, hoje, olhando para o mundo global, é dizer pobreza. É verdade que temos muitos jovens em sociedades de bem-estar, mas a Congregação está, globalmente, em locais pobres, onde outros não chegam. E é aí que estamos.

A primeira forma de pobreza atual, mas que é muito antiga, é a pobreza material e aí a Congregação Salesiana continua a atuar. Depois, existe a pobreza cultural: as necessidades básicas são atendidas, mas não há acesso à cultura. Também nesses locais a Congregação está a dar resposta, apostando em formação profissional, que permite a entrada dos jovens no mundo do trabalho. Existe, ainda, a pobreza no campo emocional – que é a mais difícil de lidar. Hoje, encontramos muitos jovens que são pobres afetivamente, muitos jovens que são pobres porque estão sozinhos, porque ninguém os acompanha. Têm tudo, mas falta-lhes carinho e proximidade.

Destaco, também, um outro campo que está a ser trabalhados pela Congregação que é a questão das migrações, especialmente na região mediterrânica. E o acompanhamento que está a ser feito às famílias e jovens que se encontram nesta situação.

Fala-se muito da diminuição de vocações na Europa. Como é que a Congregação está a procurar responder a este desafio?

O desafio vocacional tem uma primeira preocupação, que é a vocação de cada salesiano. A Congregação está empenhada em ajudar cada salesiano a ser um bom salesiano, a viver com alegria e felicidade, a vocação salesiana, porque só assim podemos “contagiar” a nossa realidade e os que nos rodeiam.

A verdade é que, como salesianos, a nossa principal preocupação não deve ser vocacional, mas, sim, responder aos jovens. Os jovens têm o direito a ser orientados para poderem descobrir o seu lugar no mundo, o seu lugar na Igreja. Essa é a nossa vocação: ajudá-los a descobrir o caminho para o qual Deus os chama.

A questão das vocações é complexa, depende de vários fatores. Não temos jovens, a natalidade é cada vez mais baixa.

Quando olho para a nossa realidade, não sou daqueles que estão continuamente a demonizar a nossa cultura. Temos muitas coisas bonitas, mas não deixo de reconhecer que a nossa cultura não é uma cultura vocacional.

Que papel desempenham os leigos na missão salesiana de hoje?

É um papel muito importante, é verdade que ainda temos de continuar a dar passos, mas a Congregação, desde que abordou este tema – em 1996, no Capítulo Geral 24 -, não deixou de insistir nesta realidade.

Temos de reconhecer que os passos que demos, provavelmente, não foram ao ritmo que esperávamos, mas a verdade é que temos, em muitos lugares, uma realidade muito bonita. Por exemplo, só na nossa região, há mais de 40 mil leigos comprometidos com a missão salesiana, juntamente com os salesianos.

O desafio, agora, é também acompanhar todos esses leigos, não para que partilhem, apenas, um trabalho, mas, acima de tudo, para que partilhem o espírito de Dom Bosco e a missão salesiana.

Espírito e missão são as duas realidades que também dão identidade à nossa missão na Igreja.

No ano em que se celebram os 150 anos da Primeira Expedição Missionária, que horizontes missionários se abrem, hoje, para os Salesianos?

A Congregação não abandona o horizonte missionário. Na verdade, nós, salesianos, consideramos que a nossa Congregação também é missionária. Por exemplo, acabámos de fundar uma missão na Grécia. Há dois anos que estamos à espera de entrar na Argélia. Temos frentes missionárias, evidentemente, em África, mas há, ainda, muitas frentes missionárias.

Dentro da nossa própria região, temos o horizonte missionário do Norte de África, do Médio Oriente e nesta Província há o horizonte missionário de Cabo Verde.

Em Cabo Verde existem muitos jovens que estão à espera que Dom Bosco também lhes dê uma resposta.

E continuamos a ter salesianos com o coração missionário de Dom Bosco?

Sim. O Reitor-Mor escreve, todos os anos, uma carta de apelo aos irmãos que queiram partir em missão. E a esse desafio respondem, por ano, entre 20 e 30 irmãos.

A Congregação iniciou, este ano, uma nova etapa com a eleição do novo Reitor-Mor. Que características destaca da sua personalidade e liderança?

A primeira característica que eu destaco é a preocupação com a pessoa – e eu já a experimentei na primeira pessoa. Interessa-se pela nossa vida, pela nossa saúde, pelas nossas famílias, e pela nossa vida espiritual também.

Outras das características do Reitor-Mor é que ele não tem tempo: quando um irmão pede algum tempo para falar, está sempre disponível.

Além disso, tem, evidentemente, uma grande capacidade intelectual, uma grande capacidade de pensar, de orientar – o que é visível nas suas intervenções. E tem uma grande capacidade para as línguas, o que lhe permite, também, a proximidade com as pessoas.

Tem um grande amor por Dom Bosco. E insiste muito que temos de conhecer Dom Bosco, não apenas de o amar, é importante que o conheçamos.

Estas são características muito importantes para mim, porque para além de ser um homem muito espiritual, é um homem de profunda vida de oração.

Em que aspetos a Congregação poderá notar continuidade e em que aspetos poderá notar novidade?

Quando chega o novo Reitor-Mor, ele é o sucessor de Dom Bosco, portanto, quem garante a continuidade é Dom Bosco. E quem garante a continuidade são os Capítulos Gerais. O Reitor-Mor e o seu conselho estão ao serviço dessa continuidade.
As quatro linhas programáticas que o Reitor-Mor apresentou à Congregação trazem já uma novidade na forma de serem propostas. Anteriormente, a programação do sexénio era mais extensa e complexa – agora, resume-se a quatro pontos essenciais.

Os dois primeiros pontos mantêm uma total continuidade com o Capítulo Geral anterior, e com o trabalho do anterior Reitor-Mor e do seu Conselho, do qual eu também fazia parte. Já os dois últimos introduzem elementos de novidade. Um deles é a atenção dada ao tema da inteligência artificial, que, aliás, também tem sido uma preocupação expressa pelo Papa Leão XIV. O nosso Reitor-Mor está muito preocupado com essa realidade, não com a inteligência artificial como se fosse um perigo, mas com os desafios educativos e pastorais que esta realidade nos apresenta; de que forma é possível colocá-la ao serviço da nossa realidade, ao serviço dos jovens.

A quarta linha programática é também muito interessante: a Universidade Pontifícia Salesiana. A universidade que a Congregação tem em Roma. O objetivo é reforçar, revitalizar, reorientar e dar mais vitalidade a esta instituição, que é muito importante, quer para a Congregação, quer para o mundo e para a Igreja.

Em conclusão, a primeira e a segunda linha estão em continuidade com o Capítulo Geral anterior, as duas última representam uma novidade.

O chamamento de Deus

Como foi o seu percurso até aqui?

Conheci os Salesianos em Utrera, quando tinha 10 anos e, para mim, abriu-se um horizonte verdadeiramente grande, precioso.

Na minha aldeia só havia o ensino primário e tive de ir estudar para fora. Fiz um exame, obtive uma bolsa de estudos e pude ir para Utrera. Era um colégio interno, éramos quase 400 alunos.

Fiz todos os meus estudos no colégio, sempre com grande sacrifício por parte dos meus pais, e, no último ano, quando deveria escolher o curso universitário para o qual queria ir, eu estava um pouco indeciso, no meu coração havia muitas dúvidas…
Fui falar com o diretor – que já tinha percebido que eu estava confuso – e disse-lhe que me tinha inscrito nos Exercícios Espirituais. Num dos dias desse encontro, e durante uma oração, houve uma frase que me ficou para sempre gravada na memória: “do teu sim ou do teu não depende a felicidade de muitos”. Ao ver aquela frase pensei: “O Senhor está a chamar-me a dizer sim”.

Esta frase marcou a minha vida!

Depois disso fui a casa, para falar com os meus pais, mas como não tive coragem escrevi-lhes uma carta. Contudo, os meus pais não se opuseram e apoiaram-me, desde o primeiro minuto.

Assim, entrei muito jovem para a Congregação Salesiana, tinha 16 anos quando entrei para o pré-noviciado. Depois fui para o noviciado, em Sanlúcar la Mayor. Fiz o Magistério em Sevilha – que me permitiu ser professor do ensino geral.

Dei aulas, fiz Teologia, também, em Sevilha e, com a chegada de um novo Provincial, veio também um convite para Delegado Provincial da Pastoral Juvenil. Assim, com 28 anos, e com um ano de sacerdócio, comecei o meu serviço à Província. Estive 10 anos nesse cargo (os últimos quatro também como Vigário Provincial). Seguidamente, fui acompanhar a Família Salesiana, também, como Delegado Provincial.

Em 2000, com 40 anos, fui nomeado pelo, então, Reitor-Mor, Pe. João Edmundo Vecchi, Provincial de Sevilha, quando existiam, ainda, sete províncias em Espanha.

Já em 2006, e depois de terminado o mandato com Provincial, o meu sonho era ir para Roma, para estudar espiritualidade salesiana, mas, o Conselheiro Regional indicou-me para Coordenador Nacional das Escolas, no Centro Nacional de Pastoral Juvenil.

Fui, ainda, diretor em Cádis – a experiência salesiana mais bonita da minha vida -, e, passados quatro anos, já em 2011, voltei às funções de Vigário e de Delegado Provincial da Pastoral Juvenil.

Estava em curso o processo de reestruturação das províncias de Espanha, que ficou concluído em 2014. Fui, então, nomeado Provincial da Província de Madrid. Nunca tinha trabalhado no norte de Espanha e conhecia muito poucos irmãos. Eram 618 irmãos e 55 comunidades. Aí permaneci, durante seis anos, participando no Capítulo Geral 28, durante o qual fui eleito Conselheiro Regional da Região Mediterrânea. No CG 29 fui reeleito por mais seis anos.

Foi um longo caminhar…

Que momentos marcaram mais a sua caminhada vocacional?

Aquele primeiro momento foi, para mim, decisivo. Depois não tive muitas crises, nunca pensei que a vida salesiana não era para mim.

Sempre me apoiei em duas coisas: primeiro, no conselho do Reitor-Mor, que me dava os meus formadores – que me acompanham e me animam; depois senti-me sempre feliz e realizado.

Os momentos iniciais da minha vida salesiana, em que pude acompanhar todo o desenvolvimento da Pastoral Juvenil na minha Província, com as “Páscoas Juvenis”, com o movimento “Cristo Vive” marcaram-me muito como salesiano e, também, a minha vocação. 

O que o inspira, ainda hoje, a viver este caminho e a servir a Congregação?

Sem dúvida a frase: “do teu sim ou do teu não depende a felicidade de muitos”, não a esqueci. Foi essa a frase que me levou sempre a dizer “sim” a todos estes pedidos, para prestar serviço à Congregação.

Como é ser Conselheiro Regional? O que mais o motiva?

É algo muito bonito. Para mim é uma das figuras mais bonitas do Conselho, porque é um serviço que permite, em primeiro lugar, estar em contacto com o Reitor‑Mor, com o Vigário e com os outros conselheiros. E essa é, também, uma realidade muito bonita, que possibilita um conhecimento muito grande da Congregação – de forma indireta, claro, porque os conselheiros regionais, normalmente, não visitam o resto da Congregação. Mas há exceções, eu, por exemplo, durante este sexénio vou fazer uma visita à Argentina.

O nosso trabalho, o que estudamos sobre cada província dá-nos um conhecimento muito profundo de cada realidade.

Por outro lado, este cargo permite, também, um contacto pessoal com muitos irmãos, com os leigos e com os jovens. Por exemplo, no sexénio anterior falei, pessoalmente, com quase 1700 irmãos. Isto é de uma riqueza impagável.

Mensagem final

No final desta Visita Extraordinária, que mensagem gostaria de deixar aos jovens, aos Salesianos e à Família Salesiana em Portugal?

É uma mensagem de esperança. Temos muitos desafios, é verdade, mas temos muitas possibilidades. E, sobretudo, temos uma coisa: a certeza de que o Senhor está connosco e de que Maria Auxiliadora, nossa Mãe, também nos acompanha.
Vou partilhar o que disse, aos irmãos, na Eucaristia final desta visita:  penso que podemos comparar os desafios que hoje enfrentamos na Congregação, no mundo, nas famílias, nos jovens, com Golias, que é grande. Perante todos eles sentimo-nos muito frágeis, mas David venceu Golias porque o Senhor estava com ele (tal como nos diz o texto da Bíblia). Então, para mim, esta é a mensagem: “o Senhor está connosco, o Senhor acompanha‑nos, o Senhor não nos abandona. A única coisa que temos de fazer é abrir-Lhe o nosso coração.

Sim, temos dificuldades, há problemas, mas podemos construir um futuro de esperança, sobretudo, para os jovens, que não são apenas os nossos destinatários. O Senhor confia‑nos jovens para fazermos o caminho juntos.

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