Peregrinos de Santiago de Compostela – Bom Caminho

Peregrinos de Santiago de Compostela – Bom Caminho

Poucas expressões traduzem de forma tão perfeita o espírito da peregrinação a Santiago de Compostela. Escutada ao longo dos trilhos, nas aldeias, nos albergues ou entre desconhecidos que se cruzam apenas por instantes, esta saudação encerra um significado que ultrapassa a mera cortesia. Desejar “Bom Caminho” é desejar que cada peregrino encontre não apenas segurança e resistência física, mas também sentido, encontro e transformação. É uma fórmula que sintetiza a essência da experiência jacobeia: mais importante do que chegar é caminhar.

Atualmente, os Caminhos de Santiago constituem uma das maiores rotas de peregrinação do mundo. Segundo as estatísticas da Oficina do Peregrino da Catedral de Santiago de Compostela, mais de 490 mil peregrinos receberam a Compostela em 2024, número que confirma o crescimento contínuo desta tradição de séculos. Entre os itinerários mais percorridos destacam-se o Caminho Francês, historicamente o mais conhecido, seguido pelo Caminho Português, cuja popularidade tem aumentado de forma notável nas últimas décadas. Com início na cidade do Porto, tornou-se uma das opções preferidas dos peregrinos internacionais, quer pela riqueza patrimonial das localidades atravessadas, quer pela combinação harmoniosa entre paisagem, cultura e espiritualidade. A partir da Sé Catedral da Cidade, muitos escolhem o Caminho Central, que atravessa cidades como Barcelos, Ponte de Lima, Valença, Tui e Pontevedra, enquanto outros optam pelo Caminho da Costa, acompanhando o Atlântico até à Galiza.

A nossa opção foi o caminho central, o mais percorrido em território nacional, seguindo a rota das cidades milenares em Portugal, que partilham a sua história com a do caminho.

A importância de Santiago de Compostela explica-se pela sua condição singular no mundo cristão. Desde a Idade Média, a cidade é considerada, a par de Jerusalém e Roma, um dos três grandes centros de peregrinação da Cristandade. Jerusalém é venerada por ter sido o cenário da vida, morte e ressurreição de Cristo; Roma pela memória dos apóstolos Pedro e Paulo e pela sede da Igreja Católica; Santiago porque conserva, segundo a tradição, os restos mortais do apóstolo São Tiago Maior, um dos discípulos mais próximos de Jesus.

Desde a primeira e lendária peregrinação de Afonso II das Astúrias, ocorrida, segundo algumas fontes e estimativas, entre 812 e 842, milhões de peregrinos percorreram os caminhos europeus rumo à Galiza, transformando Compostela num dos maiores centros espirituais do continente.

A origem desta devoção encontra-se numa tradição antiga que associa São Tiago à evangelização da Península Ibérica. Segundo os relatos medievais, o apóstolo teria pregado em várias regiões da Hispânia, alcançando os territórios da atual Galiza e mesmo o promontório de Finisterra, o “fim da terra” conhecido pelos romanos. Após essa missão, regressou à Palestina, onde foi martirizado por ordem do rei Herodes Agripa, por volta do ano 44. A tradição narra que os seus discípulos transportaram o corpo por via marítima até à costa galega, depositando-o num local então chamado Libredón.

Séculos mais tarde, já no início do século IX, um eremita chamado Pelágio teria observado luzes misteriosas sobre um bosque. Alertado para o fenómeno, o bispo Teodomiro investigou o local e identificou-o como o túmulo do apóstolo. A descoberta foi interpretada como um sinal divino, e o lugar passou a ser conhecido como Campus Stellae – “campo da estrela” – expressão que muitos autores consideram estar na origem do nome Compostela. Sobre esse túmulo foi erguido um santuário que, progressivamente ampliado, daria origem à atual Catedral de Santiago, um dos mais importantes monumentos da arte românica europeia.

Ao longo dos séculos, o Caminho tornou-se muito mais do que uma rota religiosa. Foi uma via de circulação de pessoas, ideias, conhecimentos e expressões artísticas que contribuiu decisivamente para a formação da identidade cultural europeia. Em reconhecimento desse valor histórico, os Caminhos de Santiago foram declarados Primeiro Itinerário Cultural Europeu pelo Conselho da Europa, em 1987, e inscritos pela UNESCO na lista do Património Mundial.

A relevância contemporânea da peregrinação ultrapassa, contudo, a dimensão estritamente religiosa. Muitos peregrinos partem motivados pela fé cristã e pela vontade de aprofundar a sua relação com Deus; outros procuram um espaço de silêncio, reflexão ou superação pessoal. Há quem caminhe para celebrar uma etapa da vida, para enfrentar uma perda, para agradecer ou simplesmente para se reencontrar consigo próprio. O Caminho acolhe crentes e não crentes, jovens e idosos, pessoas de todas as nacionalidades e culturas. A experiência partilhada da caminhada, da simplicidade e da hospitalidade, cria uma comunidade efémera, mas profundamente humana.

Talvez por isso tantos peregrinos afirmem que a verdadeira descoberta não acontece na chegada à Praça do Obradoiro, diante da catedral, mas ao longo dos quilómetros percorridos. A espiritualidade do Caminho ensina que a meta é importante, mas que o essencial se revela no processo. É durante a marcha, no ritmo dos passos, na contemplação da paisagem, no cansaço e na perseverança, que muitos relatam encontrar uma presença mais profunda de Deus, dos outros e de si mesmos.

“… não procurava nada e encontrei-o.”

Como observou o escritor e peregrino francês Jean-Christophe Rufin, no seu livro Immortelle Randonnée: Compostelle malgré moi (Caminhada Imortal: Compostela contra a minha vontade), o Caminho possui esta capacidade singular de nos devolver ao essencial, numa aprendizagem inquietante no vazio que o caminhante experimenta – um vazio que conduz à plenitude.

De passo em passo, numa busca iniciática e simbólica, abnegada, na renúncia espontânea do interesse, da vontade, da conveniência própria…. como São Tiago:

“Podemos.” (Mateus 20:22)

É esta a proposta jacobeia. O itinerário do apóstolo “Iacobus”, sob as estrelas.

Em contexto histórico e cultural, “jacobeu” é geralmente a expressão preferida por académicos, historiadores e especialistas do património. Assim, quando se fala do universo jacobeu, está-se a referir não apenas aos caminhos, mas a todo o fenómeno religioso, cultural, artístico e espiritual que se desenvolveu em torno do culto de São Tiago desde a Idade Média.

Um rumo para um crescimento espiritual e coragem interior, um encontro com aquilo que nem sabíamos procurar, com desapego, simplicidade e até humor perante a vida!

“Caminhante, são teus passos
o caminho e nada mais”

Antonio Machado, Poema XXIX de Provérbios y Cantares

– Podeis, caminhante?  

– “¡Ultreia!” (Vamos mais longe).

– “¡Et Suseia!” (E vamos mais alto).

Bom Caminho!

Fotografia e vídeo: João Ramalho

Para ver no Youtube dos Salesianos

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Publicado no Boletim Salesiano n.º 616 de julho/agosto de 2026

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