Monróvia, Libéria: Os meninos do cemitério

Monróvia, Libéria: Os meninos do cemitério

Num dos países menos desenvolvidos do mundo, a Libéria, a rua é para muitos a casa. Algumas crianças encontram refúgio nos lugares mais inesperados: os cemitérios da cidade, um lugar que se torna um símbolo de abandono total.

“Um dia, chovia torrencialmente quando cheguei ao cemitério central de Monróvia. Lá, vi crianças a viver em túmulos porque não tinham um teto. De repente, vi uma das crianças dentro de um túmulo a olhar para mim. Depois de um tempo, o menino sorriu-me. Sem palavras. Um pequeno gesto, como um sinal claro, um convite para o seu mundo. Foi simplesmente arrebatador. Ele deixou-me aproximar, entrar no seu mundo. Isso realmente fortaleceu a minha determinação de estar presente para as crianças esquecidas. Que mensagem recebi através daquela criança, quando vi o próprio Cristo nela! Eu conheci-O através da criança, no túmulo. Uma sensação incrível de felicidade. Um presente da graça no meio de um sofrimento impensável”, conta o Irmão Lothar Wagner, um coadjutor salesiano alemão, que dedicou mais de vinte anos aos jovens na África Ocidental. Primeiro no Gana, depois na Serra Leoa, agora na Libéria.

O salesiano tornou-se o porta-voz de uma realidade frequentemente ignorada, onde cicatrizes sociais e económicas comprometem as oportunidades de crescimento dos jovens. Em particular, na capital Monróvia, alguns meninos encontram refúgio nos lugares mais inesperados: os cemitérios da cidade. Conhecidos como “meninos do cemitério”, esses jovens, sem um lar seguro, refugiam-se entre os túmulos, um lugar que se torna um símbolo de abandono total. Dormir ao relento, em parques, em aterros sanitários, até mesmo em esgotos ou dentro de túmulos, tornou-se o trágico refúgio diário para aqueles que não têm outra escolha.

Dos cemitérios às prisões

A atenção de Lothar Wagner não se limita às crianças nos cemitérios. O salesiano também se dedica a outra realidade dramática: a dos menores presos nas prisões liberianas. A prisão de Monróvia, construída para 325 reclusos, abriga hoje mais de 1.500 presos, incluindo muitos jovens encarcerados sem acusação formal. As celas, extremamente sobrelotadas, são um exemplo claro de como a dignidade humana é frequentemente sacrificada. Ali faltam alimentos, água, higiene, assistência médica e psicológica. A fome constante e a dramática sobrelotação prejudicam enormemente a saúde dos meninos. Numa pequena cela, projetada para dois presos, são trancados oito a dez jovens. Eles dormem por turnos.

O salesiano organiza visitas diárias à prisão. Leva água potável, refeições quentes e apoio psicossocial que se torna uma tábua de salvação. A sua presença constante é essencial para tentar restabelecer o diálogo com as autoridades e as famílias, para sensibilizar para os direitos dos menores, muitas vezes esquecidos e abandonados a um destino infeliz. “Não os deixamos sozinhos na sua solidão, mas tentamos dar-lhes esperança”, sublinha Lothar com a firmeza de quem conhece a dor quotidiana dessas jovens vidas.

O trabalho do Ir. Lothar e dos seus colaboradores também se concentra em intervenções de longo prazo, para criar um caminho que permita aos jovens desenvolver o seu potencial e contribuir ativamente para o renascimento do país. Os salesianos estão envolvidos em programas de acolhimento, reabilitação, apoio educacional e formação profissional para jovens presos, assistência jurídica e espiritual. Há histórias de sucesso: crianças que, depois de apoiadas, se tornaram professores, médicos, advogados e empreendedores. Cada pequena vitória confirma a importância deste trabalho humanitário e que é possível fazer a diferença na vida destas crianças.

* adaptado BS Itália

Publicado no Boletim Salesiano n.º 610 de julho/agosto de 2025

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