Homilia do Reitor-Mor, em Portugal, na Festa de Pentecostes

«E ficaram cheios do Espírito Santo»

At 2,1-11; Rom 8,8-17; Jo 14,15-16.23-26

Queridos irmãos e irmãs, no Senhor,
membros da Família Salesiana de Portugal,
amigos:

Com a Virgem Maria, aqui em sua casa, celebramos hoje a solenidade de Pentecostes, um acontecimento capital para toda a Igreja, que é apresentada ao mundo depois do seu nascimento com o batismo no Espírito.

A efusão do Espírito sobre Maria e os Apóstolos e os discípulos de Jesus é a realização da Páscoa, que manifesta a riqueza da vida nova do Ressuscitado no coração e na atividade dos discípulos. O Pentecostes é o início da expansão da Igreja e também o princípio da sua fecundidade. Graças ao Espírito Santo que desceu sobre os discípulos, podem estes tornar realidade o programa deixado pelo Senhor Jesus de ser suas testemunhas até aos últimos confins do mundo e fazer da Igreja o germe da nova humanidade.

A atividade do Espírito de Deus foi constante desde o início da criação, pois é Ele que realiza o magnífico desígnio de salvação do Pai que quer que todos os homens e mulheres se salvem e alcancem a plenitude de vida em Jesus.
O Espírito pairava sobre a superfície das águas nas origens do mundo, diz o livro do Génesis, e foi comunicado ao homem quando lhe foi insuflado um sopro de vida e o homem começou a viver.

O Espírito impeliu Abraão a responder com fé e com obediência, quando Deus o chamou para que deixasse a sua terra e a sua família e partisse para a terra prometida. O Espírito foi dado a Moisés no Sinai como palavras de vida no dom da lei, e esse mesmo Espírito apoderava-se de homens e mulheres para os converter em libertadores do seu povo e em profetas de Deus.

O Espírito cobriu Maria com a sua sombra e tornou-a mãe do filho de Deus. Esse mesmo Espírito ungiu Jesus no dia do seu batismo e impeliu-o a pregar e a instaurar o Reino. O Espírito alcança a sua plenitude no Pentecostes, quando é derramado sobre os apóstolos em forma de línguas de fogo e os transformou em testemunhas gozosas, credíveis e eloquentes do Ressuscitado.

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Esse mesmo Espírito continua a inspirar hoje a defesa da vida e da dignidade da pessoa humana e a pôr em marcha aqueles dinamismos históricos, como a luta pela paz, pela salvaguarda da criação, pela liberdade do homem, que podem transformar o mundo. O Espírito continua a abrir as mentes e os corações de homens e mulheres a Jesus e ao seu Evangelho, e está na base de toda a busca profunda de Deus, do sentido da vida, e das suas expressões religiosas.

As leituras que escutámos mostram-nos que o evento de Pentecostes tem, no âmbito universal, uma relação com a torre de Babel, símbolo do pecado de “hybris” do homem, da sua autossuficiência e orgulho pelas conquistas científicas e tecnológicas, pelo seu desenvolvimento económico e autonomia na tomada de decisões políticas. Isto fá-lo sentir-se um novo Prometeu que arrebata o fogo aos deuses e suplanta Deus. Mas enquanto Babel significou a dispersão da humanidade e a confusão das línguas, o Pentecostes representa a reintegração da família humana unida pelo vínculo da fé e do amor derramado nos corações de cada um dos homens e mulheres.
Num âmbito mais restrito, mas tanto ou mais significativo que o anterior, o evento de Pentecostes tem uma relação muito íntima com aquilo que aconteceu no Sinai ao grupo de escravos semitas saídos do Egito pois, enquanto nessa montanha sagrada do deserto o Senhor os constituiu como povo e estabeleceu com eles uma aliança selada pelo dom da Lei, escrita sobre as tábuas de pedra, no cenáculo o Senhor assina com eles uma aliança universal com todos os homens para fazer deles o novo povo de Deus por meio do dom Espírito Santo, que não é senão o amor de Deus derramado nos corações (cf. Jer 31,31-34; Ez 36,24-28).
Por isso o Pentecostes não é um evento que tenha só a ver com Igreja, mas tem a ver com toda a humanidade que finalmente pode deixar-se transformar a partir de dentro e, através de todos os seus esforços positivos em favor do homem, alcançar a plenitude de vida em Cristo, segundo o desígnio maravilhoso de Deus.

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E, num âmbito ainda mais restrito, mas de profundo valor e significado, o evento de Pentecostes fala-nos da transformação profunda da pessoa que, através do batismo no Espírito, nasce para a vida dos filhos de Deus. A sua mente fica iluminada pela “verdade do Evangelho” e o seu coração fica cheio de fogo. É, com efeito, o Espírito que converte aqueles discípulos cobardes e sem palavras em audazes e eloquentes testemunhas de Jesus e da sua Ressurreição.

Iluminado pela luz do Espírito e impulsionado pelo seu dinamismo, o homem toma consciência da sua filiação divina e, como Jesus, aprende a chamar a Deus Abbá, aprende a fazer da Sua vontade o seu projeto de vida, a sua vocação e missão, e aprende a entregar-se por inteiro à construção do Reino.

Hoje, o Pentecostes torna-se visível na nova primavera que a Igreja está a viver sob o pontificado do Papa Francisco que nos convida a pôr Cristo Crucificado no Centro da nossa vida, com o Espírito Santo como principal protagonista da história, transformando a Igreja numa Igreja missionária que caminha, edifica e confessa, indo às fronteiras geográficas, culturais e existenciais, não pretendendo forçar o mundo a entrar nela como ela é, mas aceitando o mundo como ele é, com uma imensa simpatia, misericórdia e ternura, pois a Igreja, como a lua, não brilha com luz própria, mas reflete a luz que lhe vem de Cristo.
Aquilo que eu mais desejaria era ver toda a Congregação e a Família Salesiana a entrar nesta novidade do Espírito voltando ao essencial, saindo de nós mesmos ao encontro dos que mais necessitam, no nosso caso, os jovens e entre eles os mais pobres, abandonados e em situação de risco.

Na verdade, quanta necessidade temos de reviver o Pentecostes! Quanta urgência do Espírito de Jesus! Por isso Lhe dizemos com toda a Igreja e em nome de toda a humanidade: “Vinde!”.

Que, ao continuar a novena de preparação para a festa de Maria Auxiliadora, Ela nos conceda a graça de saber pedir e acolher o Espírito, Ela a especialista do Espírito.

Pascual Chávez V.
Fátima, 18/19 de maio 2013

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