Entregámos duas páginas à colaboração livre de um grupo de jovens. Orientados por um docente, este será um espaço aberto à sua criatividade.
Entre a queda e o recomeço, há um espaço onde aprendemos a cuidar — e, por vezes, é o corpo que melhor expressa esse caminho. Há sentimentos que não cabem em palavras e experiências que só ganham sentido quando são vividas por inteiro.
No mês de fevereiro, Portugal parou para olhar o céu — não com admiração, mas com inquietação. A chuva persistente fez transbordar rios, invadir casas e comprometer a segurança de muitas famílias. De um momento para o outro, o que parecia estável tornou-se incerto, obrigando muitos a recomeçar quase do zero.
As cheias não foram apenas um fenómeno meteorológico extremo: revelaram a nossa fragilidade. Em cada imagem de ruas submersas e em cada testemunho de perda, reconhecemos como a vida pode mudar rapidamente e como dependemos, mais do que imaginamos, uns dos outros.
No entanto, foi também nesse momento que se tornou mais visível o melhor das pessoas. Perante a adversidade, surgiram gestos concretos de solidariedade: ajuda imediata, disponibilidade, cuidado atento com o outro. Ficou claro que há algo que nem a força da natureza consegue anular — a capacidade de reconhecer o outro como próximo e agir.
Foi neste contexto que a nossa comunidade escolar viveu um “Bom Dia” diferente, já inserido no tempo da Quaresma. Mais do que um momento de rotina, foi um convite à reflexão e à ação concreta. A Quaresma propõe-nos um caminho exigente, mas essencial: parar, escutar e recentrar. Tal como a terra precisa de tempo para recuperar depois da tempestade, também cada um de nós é chamado a rever atitudes, a libertar-se do que pesa — o egoísmo, a indiferença, a pressa — e a reconstruir a partir do essencial.
Neste percurso, a reflexão ganhou uma forma inesperada. Ao som de Lovely, de Billie Eilish, um grupo de alunas apresentou uma coreografia que traduziu, em movimento, este caminho interior. Na dança, tornou-se visível o peso — nas pausas, nos gestos contidos, nos momentos de desequilíbrio. Mas tornou-se igualmente visível a procura de sentido — no esforço de se erguer, no encontro com o outro, na construção de equilíbrio e confiança.


Através do corpo, expressou-se aquilo que tantas vezes permanece implícito: a luta entre a fragilidade e a esperança, entre a queda e o recomeço. Cada movimento parecia recordar que o crescimento não é imediato nem linear, mas feito de tentativas, de apoio mútuo e de persistência.
Mais do que uma apresentação, trata-se de uma experiência que prolonga a reflexão e a transforma em linguagem sensível, acessível a todos.
Depois da tempestade, o silêncio não é ausência. É possibilidade. Um espaço onde a vida se reorganiza — e onde cada gesto de cuidado se torna sinal de esperança.
Depois da Quaresma, a Páscoa recorda-nos que a vida é sempre mais forte do que a morte, que a luz não é vencida pela escuridão e que cada recomeço é possível. Tal como na dança, também na vida há quedas e momentos de incerteza — mas há, sobretudo, a possibilidade de nos erguermos e de começarmos de novo, com a certeza de que não caminhamos sozinhos.
Texto: Alunos do 12.º D dos Salesianos de Manique, Fotografia: João Ramalho
Publicado no Boletim Salesiano n.º 615 de maio/junho de 2026
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