Entregámos duas páginas à colaboração livre de um grupo de jovens. Orientados por um docente, este será um espaço aberto à sua criatividade.
Olhar não é ver. O olhar pode ficar pela superfície, atravessar o mundo com pressa e distração. O exercício de ver, pelo contrário, exige atenção, demora e escolha. É um gesto ativo, uma decisão de presença. Se o olhar pode ser automático, o ver reflete uma atitude pessoal e seletiva, uma demonstração de interesse e vontade.
O outro e o entorno passam a transportar o tempo, o lugar e a circunstância de quem vê. Como afirma David Hockney, “We see with memory”. Ver é interpretar, e interpretar é já transformar.
Esta prática atenta atravessa toda a tradição artística. Do retrato à paisagem, do quotidiano à cena histórica, o desenho e a pintura foram, antes de mais, formas de aprender a ver. Formas de descoberta das camadas invisíveis da realidade. Em Rembrandt ou Velázquez, o retrato revela relações de poder, intimidade e tempo. Em Constable, Monet ou Van Gogh, a paisagem não é descrição neutra, mas experiência sensível. Em Vermeer, Degas ou Hopper, o quotidiano torna-se campo de investigação do olhar.
O trabalho de Lucian Freud é paradigmático desta exigência: os seus retratos, realizados ao longo de meses e frequentemente somando centenas de horas, não correspondem a um tempo de execução virtuosa, mas à necessidade de ver cada vez melhor. Cada sessão acrescenta camadas de conhecimento sobre o corpo e a presença do outro, transformando o retrato num processo contínuo de observação e numa experiência imersiva. O desenho revela-se assim profundamente parcial, seleciona, insiste, corrige e interpreta, dizendo tanto sobre quem vê como sobre aquilo que é visto.
Hoje, esta atitude encontra eco em movimentos como os Urban Sketchers, comunidade internacional que reivindica o desenho in loco como forma de conhecer e habitar os lugares. Desenhar o que se vê torna-se num ato de prazer, numa forma de estar e ver o mundo.
É nesta linha que se inscreve uma das fases mais singulares da obra de David Hockney, um dos artistas mais importantes da sua geração. Com 88 anos e num período marcado por alguma limitação de mobilidade, o artista recorre ao iPhone e ao iPad para registar o quotidiano que o rodeia. Muitas das vezes a mesma janela. O medium muda, mas a exigência, a vontade e a curiosidade permanece. A tecnologia não vê por si, é o artista que vê através dela. A ferramenta é apenas um meio. A obra nasce da ação, da curiosidade pelo outro, da atenção ao que o rodeia, da escolha e da persistente necessidade de ver.
Os alunos finalistas do curso de Artes Visuais dos Salesianos de Lisboa abraçaram o desafio de ver como David Hockney. Ver o quotidiano dos seus dias com outras lentes, mas com a mesma curiosidade de quem inicia uma nova jornada.
* António Martins e alunos finalistas do curso de Artes Visuais dos Salesianos de Lisboa
Publicado no Boletim Salesiano n.º 613 de janeiro/fevereiro de 2026
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“Ver como David Hockney”. Trabalhos de Joana Santos, Inês Silveira e Julieta Fernandes, alunas do curso de Artes Visuais








