Porquê comemorar Camões? Porque é importante comemorar o símbolo da nossa identidade e da nossa língua. É importante comemorar uma voz de pensamento e inquietação num mundo virtual e efémero, voz que, num tempo em que tudo corre a tão alta velocidade e por vezes com uma superficialidade assustadora, nos ajuda a parar e a contemplar. Sentimos necessidade de comemorar alguém quando, pelo seu testemunho, dá sentido à nossa vida e, por isso, dá sentido ao futuro do mundo onde queremos viver. Por tudo isto, em tempos de crise, Camões ajuda-nos a compreender o presente e a projetar melhor o futuro.
Porquê comemorar Camões na escola? Porque ela deve educar o espírito e ensinar a pensar. A escola é, por excelência, um espaço de construção. Se é na escola que lidamos com a sua obra, se é nela que, mesmo contra muitas vontades, a sua voz é dada a ouvir a sucessivas gerações, os seus versos são lidos e a sua visão do mundo mostrada a tantos alunos, aí mesmo ele tem de ser comemorado!
Na nossa escola do Estoril, faltava essa comemoração.
Em setembro de 2025, apresentei a proposta aos alunos do 11.º ano, na disciplina de Geometria Descritiva: como estabelecer pontes entre traçados de geometria descritiva e troços da obra camoniana?
De 15 em 15 dias, de setembro a março, uma parte da aula serviu para partilhar reflexões à volta deste desafio. A adesão ao desafio foi acontecendo, os exemplos aparecendo e sendo encarados de diversas formas. E houve não só ilustrações a partir do tema, mas, mais do que isso, propostas em que era ilustrado o processo mental – «subida» garantia de pontes entre a reflexão do poeta, a estrutura do poema e o método de resolução do exercício nas suas sucessivas fases.
Depois de um processo de leitura, reflexão e discussão, as soluções apresentaram-nos resultados surpreendentes, fruto da disponibilidade e consciência amadurecida da especificidade da disciplina em estudo.
Entrar no universo camoniano – o que implicou leituras do poeta pelos alunos, que acompanhei e orientei – e relacioná-lo com a linguagem da Geometria Descritiva permitiu-me perceber que, na generalidade, os alunos dominavam o que estavam a fazer na disciplina, não se limitavam a aplicar métodos de resolução. Camões acompanhou-os nas reflexões geométricas que fomos fazendo. Este encontro, com um desafio improvável, gerou a oportunidade de criar leitores mais atentos, críticos e sensíveis, mas também alunos com uma visão mais madura e consciente no mundo da geometria. Os poetas, com frequência, veem o mundo com outra lucidez.
Para estes alunos, nem Camões, nem a Geometria estiveram simplesmente ao serviço de um exame ou de um teste. A literatura e a geometria entraram em diálogo no seu presente, servindo o seu futuro com ferramentas reflexivas, fruto do valor que deram ao pensamento, ao diálogo e à criatividade.
Em tempos em que se fala tanto de empreendedorismo e de literacias, …que belos empreendimentos! E, com efeito, entendia George Steiner que literacia é a capacidade de participarmos naquilo e respondermos àquilo que nas nossas sociedades é mais criativo e mais nos solicita como desafio.
No dia 21 de março, Dia Mundial da Poesia, instituído pela UNESCO, inaugurámos uma exposição com os poemas e os traçados escolhidos, bem como com as argumentações para as opções feitas. A Geometria Descritiva e os alunos promoveram a poesia, comemorando Camões, reconhecendo-o como elemento fundamental da nossa cultura e da nossa língua. E, desta forma, também a geometria foi promovida!


Fotografia: João Ramalho
Publicado no Boletim Salesiano n.º 617 de setembro/outubro de 2026
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