Quem faz a pastoral da Igreja?

Nestes textos tentamos refletir sobre a Igreja em acção, sobre o esforço que a Igreja faz em repetir renovando a prática de Jesus. E podemos perguntar: “Mas quem é que faz pastoral na Igreja?” Uma visão habitual identifica algumas pessoas ou grupos concretos (os padres, os catequistas, as religiosas…) que têm essa tarefa de agir… enquanto a maioria dos batizados seria destinatário, mais ou menos passivo, da acção pastoral de outros. Pode ser a visão de muita gente, mas nada tem a ver com o que o Evangelho e a Tradição viva da Igreja nos propõem.

Jesus convoca os discípulos não como um amontoado de indivíduos, mas como um povo convocado por Deus. A fé cristã nasce de um encontro pessoal com Cristo, mas esse encontro conduz necessariamente à comunhão com os irmãos, os outros que Jesus também chamou. Por isso, a comunidade não é apenas o lugar onde a pastoral acontece; ela é o verdadeiro sujeito da ação pastoral. Não se trata de um conjunto de destinatários passivos de atividades religiosas, mas de um corpo vivo, chamado a participar ativamente na missão que o próprio Cristo confiou à sua Igreja.

O Concílio Vaticano II exprimiu de forma clara esta visão ao apresentar a Igreja como Povo de Deus. Todos os baptizados, pela sua dignidade comum, participam da missão profética, sacerdotal e real de Cristo. Isto significa que a acção pastoral não pertence apenas ao clero ou a alguns agentes especializados, mas a toda a comunidade cristã. Quando a comunidade se reconhece como sujeito, ela deixa de ser apenas “consumidora” de serviços religiosos e passa a ser protagonista da evangelização, da caridade e da transformação do mundo segundo o Evangelho.

Isto pede uma mudança profunda de mentalidade. Muitas vezes, ainda persiste uma visão em que o padre “faz tudo” e os fiéis apenas assistem. Essa lógica empobrece a Igreja, porque reduz a riqueza dos dons que o Espírito Santo distribui a todos. A pastoral torna-se mais fecunda quando cada membro é reconhecido como portador de uma vocação e de uma responsabilidade. Crianças, jovens, adultos e idosos; leigos, consagrados e ministros ordenados: todos têm algo a oferecer e todos são necessários. No final da Eucaristia, dirigindo-se a todos, o presidente recorda o mandato missionário de Jesus: “Ide por todo o mundo…” “Ide em paz…”

Para sermos fiéis a este mandato somos uma comunidade que escuta. Escutamos a Palavra de Deus, os sinais dos tempos e a vida concreta das pessoas. A acção da Igreja não se define a partir de programas pré-fabricados; ela nasce do discernimento comunitário. Quando uma comunidade reza, reflecte e dialoga sobre a sua realidade, ela aprende a reconhecer onde Deus já está a agir e onde é chamada a intervir. Assim, a pastoral deixa de ser apenas organização de actividades e torna-se um verdadeiro caminho espiritual e missionário.

Somos, como comunidade, corresponsáveis na missão. Sentimo-nos todos implicados na vida e na missão da Igreja. Não se trata de “ajudar o padre”, mas de assumir juntos a responsabilidade pelo anúncio do Evangelho, pela formação da fé, pelo cuidado dos mais frágeis e pela presença cristã no mundo. A corresponsabilidade gera pertença: deixamos de nos sentir “clientes” da paróquia e passamos a ser parte viva de um corpo.

Ser comunidade não se esgota num agradável sentido de pertença. Uma comunidade viva não se fecha em si mesma, mas sente-se enviada. Compreendemos que a missão não é algo reservado a alguns grupos, mas o modo normal de viver a fé. Cada um de nós, na sua vida quotidiana (família, trabalho, tempo livre,  escola, sociedade…) torna-se sinal do amor de Deus. A paróquia, por sua vez, deixa de ser apenas um lugar de culto e passa a ser uma verdadeira “casa em saída”, aberta às alegrias e às feridas do mundo.

É importante recordar que esta visão não é apenas uma estratégia organizativa, mas uma exigência de fé. A Igreja é, porque Deus assim a chamou a ser, comunhão e missão. Quando a comunidade assume o seu papel de sujeito da acção pastoral, ela torna visível o rosto da Igreja sonhada por Cristo: uma Igreja fraterna, participativa e missionária. Uma Igreja onde cada pessoa conta, cada dom é valorizado e cada vida é lugar da presença de Deus. É nesta Igreja viva e corresponsável que o Evangelho pode realmente tocar o coração do mundo.

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