São João Bosco e os jovens

Mensagem do Reitor-Mor aos jovens do Movimento Juvenil Salesiano

“Fazei tudo o que ele vos disser”
O vinho da verdade e da amizade

Queridos jovens,
é com grande alegria que me dirijo a vocês por ocasião da festa de nosso Pai e Mestre Dom Bosco. É meu vivo desejo continuar esta bela tradição em que o Reitor-Mor dirige uma mensagem aos jovens do Movimento Juvenil Salesiano precisamente por esta ocasião. Faço-o à luz da Estreia 2026, que toma como ponto de partida o episódio das bodas de Caná. Maria observa: “não têm mais vinho”, e depois de dizer isso a Jesus, simplesmente diz aos servos: “Fazei o que ele vos disser”. Compartilho esta mensagem também à luz do que o mundo está vivendo e ao ouvir o convite do Papa Leão XVI para viver os desafios como oportunidades para sermos testemunhas hoje da boa nova.

I. O convite de Maria: um gesto de escuta profética

“Não têm mais vinho”. Assim Maria se dirige a Jesus em Caná, não porque já conheça a solução, mas porque percebe que é necessária uma intervenção diferente. E quando ela pede aos servos: “Fazei o que ele vos disser”, ela não pronuncia uma palavra de e u simples obediência burocrática. É um convite a reconhecer a presença daquele que pode transformar a crise em algo novo e a se dispor a fazer exatamente o que Ele ordena, mesmo quando parece absurdo.
Neste momento histórico em que vivemos um clima pesado e dramático, onde a guerra parece ser a única gramática possível e a lei do mais forte domina as relações internacionais e pessoais, onde os laços humanos se reduzem a transações comerciais e à lógica do lucro, o tema da Estreia 2026 não é ingênuo. Pelo contrário. É um grito profético que convida o Movimento Juvenil Salesiano a reconhecer que o momento que vivemos – em que percebemos que falta o vinho da concórdia e do respeito pelo mais fraco – é também um momento de graça e que nos chama a responder com um testemunho enraizado na pessoa de Cristo. Queremos nos comprometer como os servos que escutam porque acreditam.

II. Uma palavra autêntica diante da linguagem ambígua e da verdade perdida

No discurso ao Corpo Diplomático de 9 de janeiro de 2026, o Papa Leão XIV aponta um problema radical de nossa época: a linguagem, que normalmente é o meio privilegiado para nos conhecermos e nos encontrarmos, é utilizada de forma ambígua: ela “torna-se cada vez mais uma arma com a qual enganar ou ferir”.
Nesse contexto – afirma o Papa como exemplo –, as palavras estão perdendo seu verdadeiro valor: “paz” também pode significar domínio através do poder militar, “liberdade” também pode se traduzir em uniformidade ideológica imposta, “direitos” tornam-se autorreferenciais e se excluem mutuamente. Assim, destaca-se um deslize para uma humanidade marcada por um “curto-circuito dos direitos humanos”, onde a busca por bens e poder “matam” a convivência pacífica.
Eis o “campo” onde o Movimento Juvenil Salesiano é chamado a viver e habitar: recuperar a palavra verdadeira, não deliberadamente ambígua, para compreender e dizer as coisas, e marcada pela amizade autêntica, encarnada no quotidiano dos caminhos pastorais e das experiências fraternas, dentro das quais e como garantia delas floresce e ressoa uma palavra não ambígua, que não trai a verdade.

III. A escuta sincera como transformação

O convite de Maria não é um conformismo banal. “Fazei o que ele vos disser” pressupõe, antes de tudo, uma escuta profunda. Essa escuta, madura, atenta e penetrante, exige que se ouça a voz de Jesus em meio ao barulho e às meias verdades do mundo . A sua é uma voz que reconhece a autoridade da verdade, não da força bruta e arrogante.
No contexto contemporâneo, “façam o que ele lhes disser” significa, então, aprender a reconhecer e dar espaço à voz que fala da verdade, do amor sem cálculo, da dignidade incondicional. É o oposto da lógica que domina o discurso público contemporâneo, onde cada palavra é filtrada pelos interesses do poder.
O Movimento Juvenil Salesiano é chamado a ser uma comunidade de escuta capaz de transformar: escutar o Senhor no Evangelho, escutar os jovens em suas perguntas mais profundas, escutar os pobres que clamam, escutar os sinais dos tempos. Se nossos caminhos educativo-pastorais não se alimentam da Palavra de Deus, o risco é que cada palavra alternativa não resista à ambiguidade difundida que está se tornando estilo e método. Somente a Palavra tem a força daquela verdade que desmascara a ambiguidade e repara aquele “curto-circuito” que fez cair no vazio a verdadeira fraternidade. De uma comunidade de escuta madura nascem amizades verdadeiras e autênticas.

IV. A profecia da fraternidade e da verdadeira amizade como testemunho contra a corrente

Falando à Cúria Romana (22 de dezembro de 2025), o Papa Leão cita um mestre da verdade e da clareza, Santo Agostinho: “Em todas as coisas humanas, nada é caro ao homem sem um amigo”. No entanto, quanta amizade autêntica existe entre as pessoas além da tentação dos “curtir”, do poder, da ânsia de se destacar, do cuidado com os próprios interesses?
É aqui que a amizade se torna uma escolha política no sentido mais nobre da palavra: uma escolha de princípio para o bem da cidade, da polis. Quando, em um mundo fluido, escolhemos dizer “eu te amo não pelo que você me dá, mas pelo que você é”, realizamos um ato de resistência à cultura que consome também as relações humanas. Quando acolhemos quem não é útil, quem é descartado pela lógica produtivista, estamos testemunhando outra gramática.
O Papa observa que isso se torna “um sinal também para o exterior, num mundo ferido por discórdias, violências, conflitos”. E acrescenta um pensamento que para nós, salesianos, é muito eloquente: “Não somos pequenos jardineiros empenhados em cuidar do nosso jardim, mas somos discípulos e testemunhas do Reino de Deus, chamados a ser em Cristo fermento de fraternidade universal”.
A fraternidade e a amizade encarnadas na vida do Movimento Juvenil Salesiano não são uma fuga do mundo, são um fermento no mundo. Não são uma experiência intimista num jardim fechado, reservado a alguns, mas um verdadeiro “laboratório” onde se experimentam já aqui, no tempo presente, os laços que fazem brotar o futuro.

V. Dom Bosco como mestre desta “nova cultura”

Dom Bosco não escreveu tratados sobre o tema da paz. Não teorizou sobre a fraternidade. Colocou-se como peregrino ao lado dos jovens rejeitados pela sociedade. De maneira simples, mas pertinente, disse-lhes que eram importantes, que eram amados. E disse-lhes isso oferecendo espaços educativos, experiências espirituais e amizades autênticas que os ajudaram a crescer de maneira integral.
Valdocco era o “laboratório” de acolhimento, de gratuidade, de amizade autêntica. Aqui estão as raízes do Movimento Juvenil Salesiano, que hoje continua empenhado em recriar a experiência de Valdocco: um espaço onde a “lei do mais forte” era desarmada pela lógica do amor preventivo.
Dom Bosco continua a ser revolucionário, vivendo e comunicando o amor do evangelho de Jesus. O espírito de família que nos foi transmitido como herança foi a ruptura da lógica do domínio através do reconhecimento da dignidade. Ele viveu plenamente “o que Jesus lhe disse”: acolher, acompanhar, acreditar na mudança possível, mesmo quando o mundo toma outro rumo.

VI. Três pistas concretas para o Movimento Juvenil Salesiano

Partindo do evento de Caná e trazendo-o para nossa experiência pessoal e comunitária através da escuta de Jesus e de seu Vigário, identificamos algumas pistas de reflexão que podem ajudá-los a compreender o mundo em que vivemos, em suas belezas e em seus riscos. Gostaria agora de prosseguir com algumas indicações práticas que os convido a considerar, discutir e praticar.

1. A revolução da amizade

Comprometemo-nos com a “revolução da amizade”, como um ato para o bem e o crescimento da cidade humana, da polis, convencidos de que só assim se interrompe o “curto-circuito dos direitos” de que fala o Papa Leão. Quando um jovem escolhe amar gratuitamente – sem esperar nada em troca, sem calcular utilidades – está dizendo não à mercantilização dos laços.
Isso se concretiza no cotidiano:

  • Na recusa em construir amizades condicionadas, onde o outro só vale se for útil, simpático, “interessante”;
  • Na escolha de acolher quem é descartado, marginalizado, quem não “produz” valor no mundo do espetáculo e das redes sociais;
  • Na coragem de dizer a verdade ao amigo, humildemente, não para dominá-lo, mas para ajudá-lo a crescer;
  • No compromisso conjunto, não para “vencer” contra os outros, mas para construir cidades mais justas e fraternas.
2. Habitar e promover “laboratórios de acolhimento”

O carisma salesiano vive da “graça da unidade” entre o humano e o divino, a dimensão espiritual e a cultural, educacional e profissional. As Constituições Salesianas (n. 21) traçam essa unidade chamando-a de “esplêndida harmonia entre natureza e graça”. Vemos em Dom Bosco uma profundidade humana, “rica das virtudes de seu povo… aberta às realidades terrenas”. Mas vemos também uma pessoa profundamente apaixonada por Deus, “repleta dos dons do Espírito Santo”. Esta é a nossa herança: o carisma salesiano que une o desejo da felicidade no tempo e na eternidade, fazendo com que a vida terrena seja cheia do amor de Deus, por ele inspirada e guiada.

Movimento Juvenil Salesiano, em seus espaços – oratórios, paróquias, centros de acolhimento, escolas, comunidades formativas, grupos – seja promotor da “graça da unidade” que faça brotar no presente experiências saudáveis, concretas, “berços” do futuro, “laboratórios de acolhimento”, onde:

  • se respira um ar diferente do mundo competitivo – onde não se vence “contra” alguém, mas se constrói “juntos”;
  • os laços não são transações – não “o que você pode fazer por mim”, mas “quem você é para mim”;
  • se experimenta o cuidado dos frágeis como reconhecimento de sua dignidade infinita;
  • a alegria que emerge não é o triunfo sobre o inimigo, mas a comunhão, o tecido relacional regenerado.

Isso é fazer “o que ele vos dirá”: encarnar concretamente o Evangelho da fraternidade.

3. Das pequenas escolhas cotidianas à profecia pública

Não se trata de separar o testemunho pessoal da voz pública. Não subestimemos o valor poderoso, ainda que oculto, dos gestos de fraternidade cotidianaOs membros do Movimento Juvenil Salesiano estejam convencidos de que cada gesto de amor autêntico, proximidade e acolhida deixa uma marca invisível, assim como invisível é a força que contém o fermento na massa.

Concretamente, o MGS é chamado a:

  • construir redes de solidariedade concreta que mostrem que outra gramática relacional é possível – não apenas virtual, mas encarnada no território.
  • testemunhar que a paz é possível, não através da dissuasão nuclear, não através de armas cada vez mais sofisticadas, mas através do diálogo, do perdão, da busca do bem comum;
  • fazer ouvir a voz dos jovens pela defesa da dignidade humana: pela defesa da vida, dos refugiados, dos migrantes, dos detidos, dos idosos sozinhos e esquecidos;
  • educar para o discernimento crítico sobre a mídia, sobre a linguagem ambígua que usa as palavras como armas, propondo uma palavra que esteja ancorada na verdade;

Conclusão: o vinho novo como esperança encarnada

Em Caná, falta vinho. Não é um detalhe narrativo secundário. É o sinal de que um modo de convivência se esgotou – o dos noivos, o dos convidados, o do banquete tradicional. Jesus, através do milagre, não restaura o passado; transforma a água em vinho novo, melhor, inaugura uma nova aliança.
E Maria não propõe nostalgia do vinho velho. Ela simplesmente diz: “Fazei o que ele vos disser”. Ele transformará. Não sabemos como. Não sabemos quando. Mas sabemos que Ele é capaz de transformar o comum – a água – em algo extraordinário: palavras que voltam a ser transparentes, laços não mercantilizados, medos transformados em esperança, morte transfigurada em ressurreição.
A Estreia 2026 convida o Movimento Juvenil Salesiano a essa confiança radical.
Não para construir “sozinhos” um futuro melhor, como se tudo dependesse da nossa capacidade organizacional: seria uma utopia perigosa! Mas para ouvir a voz daquele que, nascido na humildade da gruta de Belém, assumiu a nossa humanidade, frágil e fraca, para dar a todos a dignidade de filhos de Deus, mesmo em suas fragilidades e fraquezas, e também no pecado.
A tarefa do Movimento Juvenil Salesiano não é salvífica – a salvação vem somente Dele. Nossa tarefa é profética: encarnar já em nossos espaços, em nossas escolhas, em nossas amizades, em nossos grupos, a alternativa que o Reino de Deus propõe. Ser “fermento de fraternidade universal” em um mundo onde a fraternidade parece impossível.
“Fazei o que Ele vos disser”: é uma palavra poderosa. Não de resignação, mas de esperança fundamentada. Dom Bosco sabia disso. Por isso conseguiu olhar para milhares de jovens descartados pelo mundo e dizer-lhes: vocês são importantes, vocês podem mudar o mundo, vocês podem ser santos.
Esta é a nossa vocação: “fazer o que Ele nos dirá”, conscientes de que a água que lhe levamos será por Ele transformada em vinho novo. Seremos servos desse vinho que o mundo ainda não conhece, mas que espera desesperadamente.

Sempre vosso, em Cristo

Dom Fabio Attard SDB
Reitor-Mor

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