“Ser de Jesus e ser para aqueles a quem Ele enviar, como Salesiano sacerdote, é a maior das maravilhas”

Num testemunho profundo que recorda 35 anos de consagração salesiana e 25 anos de sacerdócio, o Pe. Álvaro Lago, diretor dos Salesianos de Setúbal e Delegado Provincial para a Comunicação Social, partilha como Dom Bosco se tornou o “gancho” da sua vocação e como a alegria de servir os jovens define a sua missão.

Da catequese à primeira Missa, em 2001, recorda as referências que moldaram o seu “sim” a Deus – e deixa um apelo corajoso aos jovens: ” viver para os outros, sempre e totalmente em nome de Jesus, é encontrar a maior das alegrias “.

Como sentiu o apelo vocacional?

Poderei dizer que não revejo ao longo da minha vida um momento “carismático” único que tenha marcado um despertar momentâneo, uma inspiração extraordinária ou um início espetacular. O que consigo vislumbrar, após 35 anos de consagração religiosa como Salesiano de D. Bosco e 25 anos de sacerdote, é a consciência de uma caminhada muito abençoada pelo Senhor e com muitas referências ao longo do percurso. E são tantas, umas bem minhas conhecidas e muitas outras que nem imagino que possam ter tido presença e impacto no meu discernimento.

Sinto, sobretudo, a grande alegria de ter sido abençoado com a presença de grandes referências espirituais na descoberta do sentido, de muitas pessoas e de muitas vivências. E na conjugação e comunhão destas referências iluminadoras, fui percebendo o chamamento, a grandeza da consagração e a maturação das opções a tomar.

Porquê a escolha da Congregação Salesiana? O que o atraiu no carisma de Dom Bosco?

Dom Bosco foi, sem dúvida, o gancho… A minha fase formativa da infância teve uma presença muito grande e intensa por parte dos Salesianos, quer na catequese, quer na escola, tendo-me levado ao aspirantado. E a descoberta natural da pessoa impressionante que é Dom Bosco, e figura maior da Igreja, foi marcando os meus dias. De tal forma que deixei que a minha identidade pessoal fosse trabalhada por este grande “pai”. Posso dizer, agora, que não me vejo a existir de outra maneira.

O que realmente me tem atraído em Dom Bosco, procurando ser sintético, são três referências: o amor e a devoção a Jesus e a Maria, o amor incondicional aos jovens e a entrega total de si mesmo, até ao limite das suas forças, na missão que o Senhor lhe pedia.

Que memória guarda da sua ordenação, há 25 anos, e dos primeiros passos como sacerdote?

O dia 28 de janeiro de 2001 foi belíssimo, porque envolveu imensas pessoas que foram caminhando na construção da opção desta entrega da vida ao Senhor. A celebração da vigília e da Eucaristia consecratória foram maravilhosas, tanto pela participação de todas essas pessoas, como pela beleza litúrgica, e sobretudo pela graça vivida e recebida. Foi, autenticamente, um tempo de grande manifestação do coração amoroso de Jesus e de alegria transbordante nas manifestações intensas de “afeto espiritual”.

E os “inícios” como sacerdote foram vividos numa descoberta primeira do próprio sacerdócio, na vivência diária do ministério. Foram tempos de grande estímulo, quer por viver da graça da consagração, quer por descobrir diretamente o sentido verdadeiro e real de servir Jesus nos irmãos, especialmente nos mais jovens.

Quais foram os momentos mais significativos da sua caminhada sacerdotal até aqui?

Posso afirmar que corro o risco de não alcançar toda a realidade transformadora e criadora do sacerdócio de Jesus em mim, em vista da consagração sacerdotal. Mas arrisco destacar algumas dessas referências, que não significa somente “momentos”, mas pessoas, acontecimentos e vivências. Antes de mais nada, a minha família, que foi o viveiro mais belo da minha vocação. E tanto poderia aqui pontualizar desta vida e fé recebidas. Também considero que houve pessoas específicas que tiveram um papel preponderante; é o caso do Salesiano, Pe. Armando Monteiro, que foi o Salesiano que desencadeou uma série de conversas e possibilidades, nomeadamente na direção do aspirantado. Na minha juventude outros Salesianos foram marcando a minha personalidade e orientação, tendo um lugar especial na minha memória e no meu coração. O tempo do Noviciado Salesiano foi uma fase de grandes descobertas em vista de futuras opções que nem sonhava ainda virem a ser realidade. Já nas fases da formação inicial as primeiras oportunidades de acompanhar os mais jovens foram a “grande descoberta”, pois a realidade direta de servir os jovens definiu, fortemente, as opções da minha vida no seguimento de Jesus Cristo, como D. Bosco. E o sacerdócio começou a fazer sentido como Salesiano de Dom Bosco.

Deixo somente um episódio mais pontual neste recorrido, como momento central e que está bem gravado em mim: a primeira ida a Turim, já como Salesiano, no tempo formativo do Teologado. Aqueles dias foram inspiradores e indeléveis na história da minha vida de Salesiano sacerdote.

Quais têm sido os maiores desafios destes 25 anos?

Acredito que os desafios são momentos para fortalecer a caminhada vocacional. E vivê-los com um coração humilde e confiado na ação do Espírito, é o caminho para avançar.

O desafio da fidelidade à consagração religiosa, como Salesiano de Dom Bosco, e ao sacerdócio, tem sido sempre um trabalho continuado e de atenção cuidada.

O desafio de colocar totalmente a minha vida ao serviço dos jovens, obedecendo à vontade de Deus, nas orientações e pedidos dos irmãos Salesianos que lideram a Província Salesiana, é outra das vertentes que tive de trabalhar pessoalmente. Pois aceitar que a própria vida é para ser doada de acordo com a missão salesiana, no seu conjunto, e não por mera iniciativa pessoal, é fundamental na maturidade da consagração religiosa e sacerdotal.

Embora existam outros “bons” desafios, deixo somente mais este: o desafio, como sacerdote, de acolher aqueles que precisam de ser acolhidos e ouvidos. Porque este desafio tem implicado fazer escolhas em favor daqueles que procuram Jesus. E eu não posso deixar de dar lugar especial (e tempo) na minha vida a este encontro pessoal com os irmãos que buscam o Amor de Deus e sentido para as suas vidas.

Como vive, hoje, a sua missão?

A missão que vivo, procuro que seja a de Jesus, por intermédio da missão salesiana, inserido numa comunidade salesiana que é desafiada a ser sinal da alegria do Evangelho. Com o fortalecimento da opção pelos jovens mais necessitados e dos mais fragilizados, sejam idosos ou migrantes, ou outras realidades debilitadas que encontramos.

E vivendo o sacerdócio no acompanhamento, como irmão que cuida e está presente, servindo sempre.

Que mensagem quer deixar aos jovens que procuram o seu caminho vocacional?

A mensagem que deixo é simples, mas corajosa, como radical é habitualmente o chamamento de Jesus. Procurar viver para si próprio pode trazer algumas satisfações pessoais, mas viver para os outros, sempre e totalmente em nome de Jesus, é encontrar a maior das alegrias. E viver alegre todos os dias dá ao discípulo de Jesus a certeza que a vocação é a certeira. Ser de Jesus e ser para aqueles a quem Ele enviar, como Salesiano sacerdote, é a maior das maravilhas. Dom Bosco não engana na escolha que fez: Jesus, Bom Pastor, não falha como Mestre.

A Mãe Auxiliadora pode dar uma mão…

Artigos Relacionados

Reportar Erro

Reportar Erro

Encontrou algum problema? Diga-nos o que aconteceu.