Porto 26 / Artes Visuais – Salesianos de Lisboa. O exercício do Porto 26, realizado pelos alunos dos três anos do curso de Artes Visuais dos Salesianos de Lisboa foi uma experiência profundamente marcante, tanto pelo contacto direto com a arte e o património como pelas vivências humanas que a tornaram inesquecível.
Porto 26 / Artes Visuais – Salesianos de Lisboa. O exercício do Porto 26, realizado pelos alunos dos três anos do curso de Artes Visuais dos Salesianos de Lisboa foi uma experiência profundamente marcante, tanto pelo contacto direto com a arte e o património como pelas vivências humanas que a tornaram inesquecível.
A viagem ao Porto teve início no dia 6, às 8h da manhã. A primeira paragem foi em Aveiro, onde almoçámos, seguindo depois para Ílhavo, para a visita ao Museu da Vista Alegre. Neste espaço emblemático, tivemos a oportunidade de conhecer a história da manufatura e os processos de produção da porcelana, culminando num workshop de pintura cerâmica que permitiu aos alunos experimentar técnicas, materiais e gestos associados a esta arte.
Após esta primeira imersão, continuámos viagem até ao local que seria a nossa casa durante estes dias e que guardaremos no coração, a Casa Juvenil São João Bosco dos Salesianos do Porto. Fomos recebidos com um carinho ímpar pela extraordinária Dona Emília, detentora dos melhores abraços que alguma vez recebemos e exemplo maior de cuidado, atenção e generosidade. Depois de nos instalarmos, houve ainda espaço para uma refeição quente e reconfortante, acompanhada por muitos sorrisos, numa noite dinamizada pelos nossos finalistas, que trouxeram alegria e espírito de pertença ao grupo.
Fundação Júlio Resende – O Lugar do Desenho
O dia seguinte revelou-se especialmente significativo, mostrando-nos uma arte que abandona o território do inacessível para se afirmar como manifestação de empatia — pelas pessoas e pelo território. Iniciámos o percurso na Fundação Júlio Resende – O Lugar do Desenho, onde fomos calorosamente recebidos pelo Presidente do Conselho de Administração, o arquiteto Joaquim Vieira de Magalhães, e pelo escultor Zulmiro de Carvalho, amigo pessoal do mestre Júlio Resende.
Foi um momento profundamente bonito e um enorme privilégio ouvir, na primeira pessoa, Zulmiro de Carvalho contextualizar a nossa visita à casa-museu de Júlio Resende. Um espaço carregado de memórias, preservado de forma quase intocável, que transmite com clareza o ambiente vivido pelo artista. Trata-se de uma casa orgânica, evocativa do pensamento de Frank Lloyd Wright, projetada pelo arquiteto José Carlos Loureiro, amigo próximo do mestre.
Na Fundação encontrava-se ainda patente a exposição LOUREIRO 100, dedicada a José Carlos Loureiro, reunindo cem projetos de habitação da sua autoria. Este arquiteto marcou profundamente o panorama nacional com obras icónicas como a Capelinha das Aparições e o Centro Paulo VI, em Fátima, ou o Pavilhão Rosa Mota, no Porto. Foi também possível visitar obras de Júlio Resende pertencentes ao acervo do CAM da Fundação Calouste Gulbenkian, aprofundando o contacto com o modernismo português.
Depois deste mergulho artístico e cultural, realizámos um percurso pela cidade do Porto, passando pelos Aliados, Ribeira, Gaia e Bolhão, numa experiência imersiva junto das gentes e dos lugares. Destacou-se a observação do mural Ribeira Negra, da autoria de Júlio Resende, junto ao túnel da Ribeira — considerado por muitos “a Guernica do Porto”, um poderoso testemunho da miséria e das dificuldades vividas pela população da época.
Ainda neste dia, visitámos o atelier do mestre António Bessa, antigo aluno de Júlio Resende e autor do retrato oficial do atual Presidente da República, que ficará em Belém após o término do seu mandato. António Bessa revelou-se uma figura extraordinária pela disponibilidade, empatia e humildade com que partilhou o seu percurso e o seu saber.
Fundação de Serralves e Casa da Música
Concluímos o dia com o regresso esperado à Casa Juvenil dos Salesianos do Porto, onde a Dona Emília já nos aguardava para mais uma noite memorável, marcada pelo convívio e pelo sentimento crescente de pertença.
No dia seguinte, mudámos a tónica do pensamento modernista para uma perspetiva mais abrangente e universal, mergulhando na arte contemporânea com a visita ao Parque de Serralves e às exposições patentes no Museu. Destacou-se, em particular, a exposição Sussurro, de Maurizio Cattelan, um artista que nos desafia a pensar a sua obra e os conceitos que a atravessam através da ironia, do humor e de um olhar crítico sobre o mundo contemporâneo.
Após a visita a Serralves, realizámos uma visita guiada à Casa da Música, da autoria do arquiteto holandês Rem Koolhaas. Foi uma experiência singular no interior de uma das melhores salas de espetáculos do mundo, um verdadeiro “meteoro” arquitetónico que marcou e influenciou profundamente a cidade do Porto, tanto a nível cultural como arquitetónico.
Com os corpos cansados de tantos quilómetros percorridos, mas com o espírito pleno, regressámos à Casa Juvenil para a última noite. Uma noite intensa, feita de sorrisos e lágrimas, de muitos abraços e boa disposição. Uma noite atravessada pela “saudade” antecipada — dos que prometem voltar no próximo ano e dos que encerram agora o seu percurso no ensino secundário, levando consigo a promessa de não esquecer as memórias vividas.
O último dia marcou o regresso a Lisboa. A manhã foi dedicada às despedidas e aos últimos momentos partilhados num espaço que nos acolheu como família. O adeus à Dona Emília foi carregado de emoção, com a certeza de que levávamos connosco muito mais do que referências artísticas: levávamos afetos, histórias e aprendizagens humanas.
Esta visita de estudo revelou-se, assim, uma experiência formativa essencial, onde a aprendizagem ultrapassou as paredes da sala de aula e se inscreveu nos corpos, nos afetos e no olhar. No final, fica a convicção profunda de que, mais do que um curso, somos uma enorme família.
* Coordenador do Departamento de Artes Visuais
Seara n.º 12








