Recurso complementar

O Primeiro Autocarro

Tipo
Conto
Modalidade
Grupo / Individual

Ainda era noite quando Miguel ligava o motor do primeiro autocarro. Conhecia de cor as ruas vazias, os semáforos intermitentes, as janelas ainda adormecidas. Sabia onde entrava a enfermeira, onde esperava o homem da limpeza, onde subia a rapariga da padaria e onde o velho levantava a mão com o passe já preparado. Todos os dias fazia o mesmo percurso. Quase sempre em silêncio. Numa madrugada de dezembro, entrou uma mulher com uma menina pela mão. Sentaram-se na primeira fila. A criança ficou de olhos presos ao vidro. Lá fora, a cidade permanecia mergulhada na noite. Ao fim de alguns minutos, perguntou baixinho:

– Mãe… o sol ainda não acordou?

A mãe sorriu.

– Ainda não.

A menina voltou a olhar para a rua e disse, quase para si:

– Então somos nós os primeiros a encontrar o dia…

Miguel não se voltou. Mas aquelas palavras viajaram com ele até ao fim da viagem. Na madrugada seguinte, quando abriu as portas, desejou bom dia ao primeiro passageiro. No outro dia esperou mais alguns segundos por uma senhora que corria com dificuldade. Dias depois ajudou um homem a subir com um carrinho de bebé. Pouco a pouco, começou a conhecer os nomes de quem via todas as manhãs. O percurso continuava igual. As ruas eram as mesmas. A noite chegava sempre antes dele. Há notícias que se anunciam com palavras. As maiores reconhecem-se porque, depois de as receber, já ninguém atravessa a noite da mesma maneira. E quem entrava neste primeiro autocarro tinha a estranha sensação de que o dia começava ali, muito antes de o sol nascer. Miguel não se torna luz porque conduz de madrugada; torna-se anúncio porque começa a olhar cada passageiro como alguém a quem pode chegar uma boa notícia.

Ligação ao Tema

Na noite de Belém, Deus confiou a primeira notícia do nascimento de Jesus a homens simples, habituados à escuridão. Os pastores não permaneceram junto da manjedoura; regressaram aos seus rebanhos, mas já não eram os mesmos. Também Miguel continua a percorrer as mesmas ruas, mas o seu olhar mudou. Um encontro inesperado desperta nele uma forma nova de viver o quotidiano. Sem discursos nem gestos extraordinários, começa a levar esperança às pessoas que encontra. Assim acontece com quem acolhe verdadeiramente o Evangelho: a Boa Nova torna-se visível na maneira como vive, serve e cuida dos outros.

Questões para Reflexão

  1. A frase da menina "então somos nós os primeiros a encontrar o dia" transforma algo banal (uma viagem de autocarro de madrugada) num acontecimento com sentido. Os pastores também vivem uma noite comum, de trabalho e vigília, quando essa mesma noite se torna o lugar onde recebem a maior notícia. Há alguma rotina "escura" ou pouco importante na minha vida onde, se eu estivesse mais atento, poderia também encontrar algo que muda o meu olhar sobre o dia?
  2. Miguel não muda de emprego, nem começa a fazer grandes gestos: continua a conduzir o mesmo autocarro, pelas mesmas ruas. Muda apenas a forma como o faz. Os pastores também regressam aos mesmos rebanhos depois de Belém: "voltaram, glorificando e louvando a Deus." Que pequenos gestos poderiam transformar a rotina que já vivo todos os dias? Como posso anunciar a Boa Nova através da atenção e do cuidado no quotidiano?
  3. A menina fala baixinho, quase sem querer ser ouvida, e mesmo assim aquelas palavras "viajam" com Miguel até ao fim da viagem, mudando-o silenciosamente. Os pastores, pelo contrário, não guardam a notícia para si: "divulgaram o que lhes tinha sido dito." Há alguma "boa notícia" ou momento de graça que recebi recentemente e que tenho guardado só para mim? O que me impede de a partilhar, como fizeram os pastores?