Ainda a madrugada guardava o silêncio quando um homem saía de casa com uma velha vassoura de giesta. Todas as manhãs percorria o estreito caminho que conduzia à fonte. Afastava as pedras que a chuva deixara cair, varria as folhas que o vento espalhara durante a noite, endireitava um ramo que roubava passagem. Depois regressava a casa. Quando a aldeia despertava, ninguém imaginava que aquele caminho tinha sido preparado por mãos discretas. Por ele passavam crianças a caminho da escola, mulheres com os cântaros de barro, pastores, viajantes e idosos de passo lento. Quase ninguém reparava no caminho. Todos reparavam apenas na água da fonte. Numa manhã de outono, um rapaz encontrou o homem a varrer as folhas douradas. Olhou para as árvores, depois para o chão já coberto de novas folhas, e perguntou:
– Para quê este trabalho? Amanhã o vento fará exatamente o mesmo.
O homem ficou um instante em silêncio. Inclinou-se, apanhou uma pequena pedra do meio do trilho e pousou-a na berma.
Depois sorriu.
– Talvez. Mas hoje, pelo menos, esta pedra não fará ninguém parar.
Pegou novamente na vassoura. E continuou a abrir caminho. O vento nunca deixou de soprar. As folhas nunca deixaram de cair. Mas, enquanto houve quem preparasse aquele caminho antes do amanhecer, houve sempre alguém que chegou à fonte com mais serenidade. Porque o bem nem sempre muda o mundo de uma só vez. Mas, muitas vezes, é ele que impede alguém de desistir do caminho.
Ligação ao Tema
São Paulo exorta os cristãos a não se cansarem de fazer o bem, porque os seus frutos amadurecem no tempo de Deus. O homem do conto sabe que nunca conseguirá impedir o vento de trazer novas folhas ou novas pedras ao caminho. Ainda assim, permanece fiel ao seu pequeno serviço. A sua perseverança não elimina todas as dificuldades, mas torna o caminho mais seguro para os outros. Assim acontece também na vida cristã: o bem realizado com constância prepara caminhos que muitas vezes nunca chegaremos a ver plenamente.
Questões para Reflexão
- O homem sabe que "o vento nunca deixou de soprar" e que amanhã as folhas voltarão a cair, mesmo assim continua. São Paulo pede que "não nos cansemos de fazer o bem", porque "no tempo oportuno colheremos, se não desanimarmos". Há algum bem que tenho feito (ou que gostaria de fazer) e que abandonei, ou estou tentado a abandonar, só porque o problema volta a repetir-se e parece que "não serve de nada"?
- Quando o rapaz pergunta "para quê este trabalho?", o homem não discute o resultado final: apanha apenas uma pedra e diz "hoje, pelo menos, esta pedra não fará ninguém parar." Consigo encontrar sentido no bem feito só para 'esta pessoa, hoje', mesmo sabendo que amanhã o problema pode voltar?
- Quase ninguém repara no caminho, todos reparam apenas na água da fonte. Quem foram, na minha vida, essas pessoas que "varreram o caminho" antes de eu chegar que tornaram mais fácil algo que hoje dou como garantido, sem eu alguma vez lhes ter agradecido por isso?
