No final de uma rua tranquila existia uma casa muito antiga, com uma porta azul. Não era bonita nem grande, mas havia uma lenda: uma vez na vida, sem aviso, a porta abrir-se-ia para cada pessoa da cidade, trazendo um convite capaz de mudar o rumo da sua história. Muitos passavam por ela. Poucos reparavam. Clara conhecia a lenda desde criança e achava-a ridícula. Até à manhã em que a encontrou entreaberta. Ficou parada, perturbada, sem saber bem porquê. Lembrou-se de uma frase da avó: "A coragem não é a ausência do medo; é dizer sim apesar dele." Respirou fundo e entrou.
Lá dentro havia apenas uma mesa, e sobre ela um envelope. Dentro, uma única frase: "Repara em quem, habitualmente, ninguém reparou." Clara sentiu-se enganada. Esperava algo à altura da lenda, não aquilo. Fechou a porta e foi-se embora. Mas a frase não a abandonava. Durante dias, voltava-lhe à cabeça sem aviso. Todas as manhãs, apanhava o mesmo autocarro, conduzido pelo mesmo motorista há anos, um homem que dizia sempre "bom dia" com voz cansada, sem nunca receber mais do que um aceno distraído. Clara nunca lhe tinha visto verdadeiramente o rosto. Numa dessas manhãs, quase saiu sem dizer nada, como sempre. Chegou a dar um passo, mas parou, achando ridículo voltar atrás só para isso. Respirou fundo, voltou-se, e perguntou-lhe como tinha sido o seu dia. O homem hesitou, surpreendido, e depois sorriu: ninguém lhe perguntava isso há muito tempo. A partir daí, trocavam sempre poucas palavras, o suficiente para que ele passasse a assobiar ao volante. Meses depois, um colega comentou como aquele motorista parecia sempre mais bem-disposto. Clara sorriu sozinha, sem explicar porquê. Compreendeu então que as portas que mudam o mundo raramente se abrem sinais grandiosos. Abrem-se, primeiro, por dentro. No instante em que se decide dizer sim, mesmo sem saber o rosto do fruto que do sim vai nascer. Também Maria, em Nazaré, não teve certezas nem garantias; teve apenas uma pergunta sem resposta fácil, e a coragem de responder: "faça-se."
Ligação ao Tema Bíblico
Também Maria foi surpreendida numa manhã comum por uma visita inesperada, e perturbou-se, como Clara diante da porta entreaberta. Perguntou "como se fará isto?", não por dúvida, mas por sincera busca de sentido diante do incompreensível. O pedido era desproporcionado para uma jovem sem estatuto algum, tal como a frase encontrada por Clara pareceu pequena demais para mudar alguma coisa. Mas foi nesse "faça-se em mim" (Lc 1,38), dito sem garantias, que a maior história da humanidade começou. As portas que Deus abre raramente vêm com anúncios grandiosos; pedem apenas a disponibilidade de “faça-se” corajoso.
Questões para Reflexão
- Clara esperava um sinal extraordinário e recebeu um pedido pequeno. Alguma vez desvalorizei um convite de Deus por me parecer "pequeno demais"?
- Antes de falar com o motorista, Clara quase desistiu por medo do ridículo. Que hesitações me impedem de dizer sim a algo que não compreendo totalmente?
- Nem Maria nem Clara sabiam, no momento do seu sim, tudo o que esse sim viria a mudar. Que "porta entreaberta" tenho hoje na minha vida, à espera de que eu decida entrar?
