Que significa o pedido: «O pão nosso de cada dia nos dai hoje»? Qual é o específico sentido cristão deste pedido?

Comentário ao Compêndio do Catecismo /49
Enzo Bianchi

Ao pedir a Deus, com o confiante abandono dos filhos, o alimento quotidiano necessário a todos para a subsistência, reconhecemos o quanto Deus nosso Pai é bom e está acima de toda a bondade. Pedimos também a graça de saber agir de modo que a justiça e a partilha façam com que a abundância de uns possa prover às necessidades dos outros.
(Compêndio do Catecismo nº 592)
Porque «o homem não vive só de pão, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus» (Mt 4,4), este pedido refere-se igualmente à fome da Palavra de Deus e à do Corpo de Cristo recebido na Eucaristia, bem como à fome do Espírito Santo. Pedimo-Lo, com uma confiança absoluta, para hoje, o hoje de Deus, o qual nos é dado sobretudo na Eucaristia que antecipa o banquete do reino que há-de vir.
(Compêndio do Catecismo nº 593)

No centro da oração do Senhor está o pedido do pão expresso com confiança no Pai: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje” (Mt 6,11; cf. Lc 11,3). Depois dos grandes pedidos a Deus, eis um pedido muito simples. Poder-se-ia estranhar a humildade deste pedido, mas, a meu ver, ele é eminentemente contemplativo: é o modo de o crente afirmar o senhorio de Deus sobre as realidades criadas; é a atitude de quem sabe que não pode dispor da sua vida, mas reconhece que a recebe de Deus. A verdadeira dificuldade reside na compreensão do adjetivo epioúsios, normalmente traduzido por “quotidiano”. Duas são, em suma, as interpretações possíveis: o pão essencial, necessário à subsistência, e o pão celeste, supra-essencial, o pão do Reino.
Em primeiro lugar, pede-se a Deus o pão de que o homem precisa para viver. Isto corresponde a uma tomada de consciência da nossa realidade: somos seres que precisam de se alimentar para viver. O pão, além disso, é aquilo que semeámos, cultivámos, colhemos, transformámos em farinha, amassámos e cozemos; é o fruto da terra trabalhada pelo homem, da cultura, portanto, e, ao mesmo tempo, é um dom do Pai: ele deu-nos a vida, no-la dá todos os dias através do pão!
Com este pedido, começa-se a rezar na primeira pessoa do plural: diz-se “o nosso pão”, pede-se para si e para os outros, indicando que, acima de tudo, o pão deve testemunhar a nossa filiação para com Deus e a fraternidade que nos une. É assim que, na primeira comunidade cristã, “os crentes tinham tudo em comum” (Act 2,44) e “a cada um era dado segundo a sua necessidade” (Act 4,35). Era precisamente esta partilha que, unida à fé, permitia aos cristãos serem “um só coração e uma só alma” (Act 4,32): e tudo encontrava a sua síntese no gesto da “fração do pão” (Act 2,42), que trazia em si o significado eucarístico, mas também o do pão partilhado diariamente.
O pão epioúsios, porém, pode ser entendido também como o “pão do Reino” (cf. Lc 14,15), aquele do qual o homem vive para além do pão material: “nem só de pão vive o homem, mas de toda a palavra que sai da boca de Deus” (Mt 4,4; cf. Dt 8,3). Este é o pão da Palavra de Deus e da Eucaristia, aquele “pão vivo descido do céu” (Jo 6,51) que é o próprio Jesus Cristo. Infelizmente, a fome de pão e a fome da Palavra (cf. Am 8,11), no contexto sociocultural atual, são postas em concorrência, no sentido em que a satisfação da primeira parece impedir a segunda… Mas o verdadeiro crente sabe assumir a fome de pão de cada dia e, agradecendo a Deus que a sacia, sabe partilhá-la com os outros; ao mesmo tempo, ao pedir o pão de cada dia, aprende a ler a sua própria necessidade da sua Palavra viva, Jesus Cristo, para caminhar com Ele na fé rumo ao banquete do Reino.
(Família cristã, 28 de julho de 2013)

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