O dia do nascimento de uma pessoa é uma data muito especial, motivo pelo qual, a cada ano, celebramos o dia do aniversário. Nesse dia festivo, recordamos o momento pontual em que nos encontramos com nossos pais e familiares, que aguardavam nossa chegada com expectativa, amor e carinho. Por isso, essa memória se reveste de uma atmosfera toda especial, que nos revigora de alegria e gratidão pelo dom da vida, visto que toda festa de aniversário gira em torno do mistério da vida que se revela e se manifesta no corpo humano. Vivenciamos nossa existência humana de tal forma que o ser e a vida se integram em uma pessoa. Assim sendo, no dia do aniversário celebramos sempre a vida de uma pessoa concreta, histórica e única.
Todas essas considerações sobre a celebração da vida humana certamente podem ser aplicadas à celebração do nascimento de Jesus, dado que a festa do Natal do Senhor nos traz alegria, renova nossas esperanças e nos impulsiona à gratidão pela sua vinda ao nosso encontro. Por outro lado, podemos imaginar a expectativa da família de Nazaré para a chegada do Menino Jesus. É verdade que gostaríamos de saber todos os detalhes com precisão, mas, como sabemos, os assim chamados “evangelhos da infância” (Mateus e Lucas) são relatos sem pretensões históricas, mas com intenções teológicas precisas: ajudar comunidades de culturas diferentes na compreensão a respeito da identidade de Jesus, que se manifestava já desde o início da sua vida.
Nos primeiros capítulos dos Evangelhos de Mateus e Lucas, encontramos informações sobre a origem de Jesus e o seu nascimento. Mateus nos informa sobre as “genealogias” (Mt 1,1-17), enfatizando que Jesus, o Messias, realiza as promessas de Deus; fala-nos da situação dos pais de Jesus, José e Maria, antes do seu nascimento (Mt 1,18); do anúncio do nascimento de Jesus a José (Mt 1,20-25); informa-nos o lugar do nascimento de Jesus, Belém (Mt 2,1); relata sobre os três magos do Oriente que procuram o recém-nascido; da perseguição de Herodes; da fuga da família para o Egito e do retorno para a Galileia, após a morte de Herodes (Mt 2,1-23). Lucas, no primeiro capítulo, apresenta-nos o anúncio do nascimento de Jesus a Maria (Lc 1,26-38); o anúncio do nascimento de João Batista a Zacarias (Lc 1,5-25); a visita de Maria a Isabel (Lc 1,39-45); o cântico de Maria (Lc 1,46-56); o nascimento de João Batista e o cântico de Zacarias (Lc 1,57-80). No segundo capítulo, ele nos informa sobre o recenseamento decretado pelo imperador Augusto e o local do parto de Jesus (Lc 2,1-7); o anúncio do nascimento de Jesus aos pastores (Lc 2,8-20); a apresentação do menino Jesus no Templo, a profecia de Simeão e Ana (Lc 2,21-40); e conclui o relato da infância com o episódio da perda e do encontro do menino Jesus no Templo (Lc 2,41-52).
Depois da celebração do Mistério Pascal de Cristo, a Igreja considera como sagrada a celebração do nascimento de Jesus Cristo e de suas primeiras manifestações, o que liturgicamente celebramos no Tempo do Natal. Trata-se do Mistério da Encarnação: o Homem-Deus Jesus Cristo. Embora os evangelistas Marcos e João, assim como o apóstolo Paulo, não tratem do nascimento e da infância de Cristo, não há contradição quanto à identidade humano-divina de Jesus, pois esses autores se concentram na fase adulta da sua vida. Assim sendo, o Mistério da Encarnação do Senhor é celebrado e vislumbrado especialmente à luz do Novo Testamento e, consequentemente, de toda a Sagrada Escritura. De fato, todas as informações corroboram para a compreensão e a experiência de fé do evento extraordinário no qual Deus se associou à nossa condição, veio até nós e agora está conosco (Mt 1,20-21). Nessa perspectiva, é importante recordar o primeiro capítulo do Evangelho de João, conhecido como Prólogo, onde encontramos a afirmação: “E a Palavra se fez homem e habitou entre nós. E nós contemplamos a sua glória: glória do Filho único do Pai, cheio de amor e fidelidade” (Jo 1,14). O nascimento de Jesus, para nós, significa fundamentalmente isso: que Deus, em Cristo, armou a sua “tenda” entre nós. A tenda do Verbo, porém, é o seu corpo. Portanto, a vida humana de Jesus, em sua totalidade e unidade vivente (Homem-Deus), é o lugar privilegiado da revelação de Deus; e, assim sendo, tudo o que Deus quer comunicar à humanidade passa pela “carne” de Cristo, isto é, pelo Mistério da sua Encarnação.
Sugestão de leitura: o Prólogo de São João (Jo 1,1-18)








