Encarnou entre nós

Muitas culturas e experiências religiosas distinguem muito bem o sagrado e o profano. São âmbitos de vida muito distintos. O contacto entre os dois “mundos” é possível, mas é raro e perigoso.

A experiência do Antigo Testamento traz uma novidade grande: Deus quer comunicar-Se aos seres humanos. Através da Criação, dos acontecimentos da história, de homens e mulheres escolhidos, Deus quer aproximar-Se da humanidade. Deus chama pessoas concretas para estabelecer com Ele uma relação próxima e estes homens e mulheres são enviados ao povo de Deus como mensageiros. Mas ainda assim, persiste uma grande distância entre Deus e o seu povo.

A figura de Jesus de Nazaré vai provocar um salto de qualidade na história da salvação. Em Jesus, Deus quis fazer-Se humano, partilhar a nossa vida. Em Jesus, Deus deixa de nos falar de longe, mas habita entre nós.

Encarnação: o grande acontecimento da história

O mundo ocidental organiza o seu calendário a partir da data (suposta) do nascimento de Jesus, porque reconhece neste evento o acontecimento central da história humana.

Em Jesus, Deus decidiu ser humano com todas as consequências. Deus não está à margem da história humana. Deus quer pôr-Se no nosso lugar, conhecer pessoalmente a nossa realidade.

A Encarnação de Jesus não foi um fingimento. Deus, em Jesus, experimentou o que é isso de nascer, de ir aprendendo, de escutar os outros. Quis saber o que é trabalhar, sofrer, alegrar-se, lutar, esperar e desanimar, confiar no Pai e experimentar o abandono.

Os novos lugares de Deus

Ao longo dos séculos, os cristãos levaram muito a sério a força da encarnação de Jesus. Porque ela mudava radicalmente a nossa imagem de Deus. Se Jesus é Deus mesmo presente entre nós, já não nos contentamos com espreitar umas vagas sombras de Deus; basta-nos olhar para Jesus e perceber qual é o rosto verdadeiro e definitivo de Deus. E também porque ela mudava radicalmente a nossa imagem da humanidade. Ser humano é ser à maneira de Jesus. A presença de Jesus na nossa história abre para todos nós uma série de novas possibilidades acerca do que é ser humano.

E abre novos horizontes para a pastoral, para a acção da Igreja no tempo.

Se Deus está distante, só podemos entrar em contacto com Ele em momentos especiais, em lugares sagrados, usando linguagens reservadas para o mistério.

Mas se recordarmos a vida de Jesus, a mais santa das existências, pode-nos surpreender descobrir que a sua vida não está muito associada ao sagrado. Ele nasce num curral e morre numa cruz, lugares que no seu tempo nada tinham de sacro. Anda por aldeias e campos, fala uma linguagem acessível, manifesta o seu amor lavando os pés aos discípulos e dando-Se no pão e no vinho.

Porque Ele é o Filho de Deus presente realmente no nosso mundo, aquilo que são os lugares profanos e banais do nosso existir, tornaram-se lugares adequados para a presença de Deus. Em toda a realidade humana pode acontecer história da salvação. Em todo o quotidiano podemos continuar a acção de Jesus.

Aliás, é o próprio Jesus que o afirma quando Se identifica com o homem sofredor (Mateus 25, 31-46): sempre que o fizestes a um destes meus irmãos mais pequeninos, a Mim o fizestes.

A Igreja fala em todas as línguas humanas. O latim não é mais adequado para rezar do que o português, o chinês ou o tétum. O órgão de tubos não é mais adequado para a liturgia do que a guitarra ou um tambor africano. Podes crescer na amizade com Deus tanto ao Domingo como à segunda-feira.

É evidente que a Bíblia não é a mesma coisa que o livro de exercícios de matemática. A Eucaristia não é o mesmo que a festa de anos dos teus amigos.

Há lugares, rituais, experiências que ajudam a construir a nossa identidade como discípulos de Jesus. São especiais e tratamo-los com apreço. Mas, no final da Missa (um desses lugares) somos enviados (“Ide em paz…”) como discípulos missionários a fazer acontecer a paz de Deus em todos os outros lugares.

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