A Palavra de Deus na Liturgia

«Quem tem ouvidos para ouvir, ouça» (Mc 4,9)

Na liturgia acontece algo extraordinário: Deus fala. Não fala apenas sobre o passado, nem apenas para alguém. Fala hoje, aqui, a este povo concreto. Quando a Palavra é proclamada na assembleia, não lemos apenas um texto sagrado, entramos num diálogo vivo entre Deus e a sua Igreja.

O Concílio Vaticano II afirma com clareza: «Na liturgia, Deus fala ao seu povo, e Cristo anuncia ainda o Evangelho» (Sacrosanctum Concilium, 33). A liturgia da Palavra não é uma preparação para a Eucaristia, nem um momento secundário. É Revelação em ato: Deus que se dá a conhecer e que interpela, chama, consola e envia. Celebrar é aceitar que Deus tem a palavra primeiro.

Uma Palavra viva e eficaz

A Palavra proclamada na liturgia não é apenas informativa, é performativa: realiza aquilo que anuncia. «A Palavra de Deus é viva, eficaz» (Heb 4,12). É por isso que Bento XVI escreveu em Verbum Domini: «A Palavra de Deus não permanece confinada no passado, mas torna-se sempre atual» (VD 3). Cada leitura, cada salmo, cada Evangelho é pronunciado para este hoje da nossa vida. A liturgia ensina-nos a escutar não como curiosos, mas como discípulos. Não perguntamos apenas “o que diz o texto?”, mas “o que me diz Deus agora?”. Papa Francisco retoma esta dimensão em Desiderio Desideravi: «Na liturgia, a Palavra não é recordação, mas acontecimento» (DD 37).

Mistagogia do Evangelho

O modo como a Igreja proclama o Evangelho é profundamente mistagógico: Levantamo-nos, cantamos o Aleluia, fazemos o sinal da cruz na testa, nos lábios e no coração. Cada gesto é uma catequese silenciosa: na mente, para compreender; nos lábios, para anunciar; no coração, para guardar e viver. Quando o diácono ou o sacerdote proclama: «Leitura do Santo Evangelho segundo…» e a assembleia responde: «Glória a Vós, Senhor», reconhecemos que é o próprio Cristo quem fala.

Escutar, responder, viver

A liturgia da Palavra é um verdadeiro diálogo. Deus fala. O povo responde: com o salmo, com a profissão de fé, com a oração dos fiéis. Não é monólogo, é aliança renovada. A Conferência Episcopal Portuguesa sublinha em Liturgia Viva: «A escuta da Palavra na liturgia exige silêncio interior, atenção e disponibilidade para responder» (LV, 22). Escutar bem é já rezar. Responder é comprometer-se. A Palavra pede carne, história, decisões. Por isso, a homilia não explica apenas: ajuda a ligar a Palavra à vida.

Uma Palavra que forma discípulos

A liturgia educa-nos numa escuta diferente da habitual. Num mundo cheio de ruído, ela ensina-nos o valor do silêncio que prepara o coração. A Palavra ouvida domingo após domingo forma-nos lentamente, como a água que molda a pedra. «Ignorar as Escrituras é ignorar Cristo» (São Jerónimo, citado em Verbum Domini, 30). Quem aprende a escutar na liturgia aprende a escutar Deus na vida.

Do ambão à estrada

A Palavra não termina com o “Palavra do Senhor”. Ela pede continuidade. Aquilo que foi proclamado deve ser vivido, encarnado, anunciado. O ambão abre caminho para a estrada da vida. «A Palavra celebrada deve tornar-se Palavra vivida» (Verbum Domini, 52). Celebrar a Palavra é deixar que Deus escreva a sua história em nós.

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