O anúncio de Jesus sobre o Reino de Deus não terminou com a sua morte e ressurreição. Pelo contrário, tornou-se realidade viva na comunidade dos seus discípulos. Foi ali, no coração de Jerusalém, que nasceu uma nova forma de vida social inspirada na fé em Cristo e guiada pelo Espírito Santo. A primeira comunidade cristã é, portanto, a expressão concreta do Reino de Deus que começa a transformar o mundo.
1. Uma nova fraternidade
O livro dos Atos dos Apóstolos descreve com simplicidade e força este modo de viver: “Todos os que acreditavam viviam unidos e tinham tudo em comum; vendiam as suas propriedades e distribuíam o dinheiro conforme as necessidades de cada um” (At 2,44-45).
Não se tratava de uma teoria, mas de uma experiência concreta de fraternidade real. O Evangelho tornou-se estilo de vida. A fé em Cristo unia pessoas de diferentes origens, idades e condições sociais, e fazia delas uma única família.
A partilha dos bens não era uma obrigação imposta, mas o sinal de uma liberdade interior nova, nascida do amor e da confiança em Deus.
2. Comunhão, oração e solidariedade
A comunidade cristã reunia-se para escutar a Palavra, celebrar a Eucaristia e rezar em comum. Destas práticas nascia uma profunda solidariedade: ninguém era deixado sozinho, e cada um sentia-se responsável pelos outros.
A oração fortalecia a unidade e abria os corações à ação do Espírito. A fração do pão — a celebração eucarística — tornava-se o centro de toda a vida comunitária e social. Dela brotava a força para viver segundo o estilo de Jesus, construindo relações de comunhão, perdão e serviço.
Esta comunhão não era apenas espiritual: tinha consequências económicas e sociais. Os cristãos sentiam-se chamados a transformar as estruturas injustas do seu tempo, começando pela sua própria forma de viver. Assim, a primeira comunidade tornou-se um sinal visível de uma sociedade alternativa, baseada na justiça, na partilha e na dignidade de todos.
3. A autoridade como serviço
No seio desta comunidade, a autoridade não era exercida como poder, mas como serviço fraterno. Os Apóstolos, e mais tarde os presbíteros, não se colocavam acima dos outros; eram pastores que guiavam e cuidavam do povo de Deus.
O modelo era o próprio Cristo, que lavou os pés aos discípulos e disse: “Quem quiser ser o primeiro, seja o servo de todos.”
Assim, a comunidade cristã opunha-se ao modelo hierárquico e autoritário da sociedade romana e judaica, propondo um estilo de liderança baseado no amor, na escuta e na responsabilidade partilhada.
4. Um testemunho no meio do mundo
A primeira comunidade não viveu isolada nem fechada em si mesma. Pelo contrário, era missionária por natureza. A sua vida fraterna e solidária era o primeiro anúncio do Evangelho. Muitos, ao verem a alegria e a unidade dos cristãos, perguntavam-se: “O que é que os torna diferentes?”
Este testemunho silencioso, mas eloquente, atraía novos membros e fazia crescer a comunidade. A fé não era imposta — era proposta por meio da vida. Assim, o cristianismo nasceu não como uma ideologia, mas como um modo de viver alternativo e credível, centrado em Jesus e aberto ao mundo.
5. O Reino de Deus em caminho
A comunidade de Jerusalém não foi perfeita. Enfrentou dificuldades, conflitos e tentações. Mas soube resolver as tensões com discernimento e diálogo, guiada pelo Espírito. A escolha dos sete diáconos, para garantir uma distribuição justa dos alimentos (At 6,1-6), é um exemplo concreto de como o Evangelho inspira respostas sociais concretas e equilibradas.
O Reino de Deus, portanto, não é uma utopia distante, mas uma realidade em construção, que exige conversão, participação e criatividade.
A Doutrina Social da Igreja reconhece nesta primeira comunidade um modelo e um ponto de partida. Ela mostra que a fé cristã não se limita à oração ou à vida privada, mas toca todos os aspetos da existência: a economia, a política, a cultura, a ecologia.
O Evangelho não é apenas uma mensagem de salvação pessoal; é uma força de renovação social, que inspira novas formas de convivência e de organização comunitária.
6. Atualidade desta experiência
Hoje, como no tempo dos Apóstolos, o mundo precisa de sinais visíveis de fraternidade, justiça e paz. As comunidades cristãs são chamadas a ser “laboratórios de humanidade nova”, onde a partilha, o diálogo e o cuidado dos mais fracos testemunhem a presença do Reino.
Ser cristão significa acreditar que outro modo de viver é possível — e começar já a realizá-lo, mesmo em pequenas escalas, com gestos concretos e coerentes.
O exemplo da comunidade de Jerusalém continua, assim, a iluminar o caminho dos cristãos e das instituições eclesiais. Ela recorda-nos que o Reino de Deus é mais do que uma promessa: é uma tarefa.
Cabe a cada geração tornar o Evangelho visível na história, construindo comunidades humanas onde o amor se torne lei, a justiça se torne cultura e a esperança se torne vida.
Adaptado por Pe. Aníbal Mendonça, sdb (Superior da Visitadoria da Universidade Pontifícia Salesiana)








