A assembleia, coração vivo da liturgia

«Vós sois geração escolhida, sacerdócio real, nação santa, povo adquirido por Deus» (1 Pe 2,9)

A liturgia é sempre um encontro de Deus com o seu povo. E, nesse encontro, a assembleia não é uma multidão anónima nem público passivo — é o corpo vivo de Cristo, chamado a celebrar com verdade, consciência e alegria.
Desde os primeiros tempos da Igreja, a liturgia não se viveu como um espetáculo, mas como obra comum, onde cada batizado tem lugar, voz e missão.

Muito antes do Concílio Vaticano II, Pio XII já afirmava com força na Mediator Dei: «A liturgia requer a participação consciente, ativa e frutuosa dos fiéis» (MD, 80).


Esta intuição tornou-se uma das grandes chaves da renovação litúrgica.
Celebrar é envolver-se, deixar que o coração participe na obra que Cristo realiza em nós. O Concílio retoma esta visão: «Toda a assembleia participa na ação sagrada» (Sacrosanctum Concilium, 28). E o Papa Francisco desenvolve-a de modo mistagógico em Desiderio Desideravi: «Participar na liturgia não é desempenhar uma função, mas deixar-se envolver no mistério pascal» (DD 23).

Todos sacerdotes, todos oferentes

Pelo Batismo, cada cristão participa no sacerdócio de Cristo.
Não é um detalhe, é uma identidade. Por isso, a missa não é “do padre”: é de Cristo, celebrada com o seu Corpo, que somos nós. Celebrar significa pôr a vida no altar, unindo alegrias, fragilidades, sonhos e lutas ao sacrifício de Jesus.

«Oferecei os vossos corpos como sacrifício vivo» (Rm 12,1). A assembleia é protagonista porque oferece, não porque “faz coisas”. A Conferência Episcopal Portuguesa recorda-o com clareza no seu último documento Liturgia Viva: «A assembleia é sujeito celebrante. Não assiste: celebra» (LV, 16).

“Orai, irmãos…” — o momento que nos revela

Há na missa uma frase luminosa que resume toda a teologia da assembleia: “Orai, irmãos e irmãs, para que o meu e vosso sacrifício…” A resposta confirma a verdade profunda: “Receba o Senhor por tuas mãos este sacrifício…”

É nosso, não apenas “dele”. É Cristo quem oferece, e toda a assembleia entra no seu oferecimento. Aqui se manifesta o que Pio XII chamava de “participação interior”, muito mais decisiva do que qualquer função exterior:

«A participação interior é a mais necessária: unir-se íntima e profundamente ao sumo Sacerdote» (MD, 93).

Uma participação que envolve o corpo, a voz e o coração

Participar plenamente não é fazer muito, mas deixar-se conduzir.
A liturgia educa o corpo (estar de pé, ajoelhar, silenciar), a voz (cantar, responder), e sobretudo o coração (escutar, acolher, oferecer).
É mistagogia no seu sentido mais puro: uma pedagogia espiritual que nos introduz progressivamente no mistério, através dos sinais, do ritmo, dos gestos e da beleza.

Papa Francisco recorda: «A liturgia é o caminho da nossa formação, e nós somos formados pelo que celebramos» (DD 37).

Dom Bosco diria: “Rezar bem é começar a ser santo.” A assembleia viva torna-se escola de fé, de oração e de vida.

A comunhão que nos faz Igreja

Celebrar em assembleia é aprender a viver juntos.
A liturgia une aqueles que não se escolheram e ensina-nos a amar quem está ao nosso lado. Quando dizemos “Pai nosso”, proclamamos que não somos indivíduos isolados, mas corpo vivo, família de Deus.

É por isso que os Bispos Portugueses afirmam: «A liturgia é lugar de comunhão real, onde aprendemos a ser Igreja» (LV, 12).

Cada missa antecipa o céu: uma comunidade reunida, sustentada pelo amor do Pai e enviada ao mundo para servir.

Frase-chave:

«A assembleia não assiste: celebra.» (Liturgia Viva, 16)

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