Vivemos um tempo de assombro. A Inteligência Artificial e o vasto “continente digital”, como lhe chamam os salesianos, trazem consigo prodígios, mas também profundos desafios éticos e humanos. Não se trata de rejeitar o novo, mas de educar o coração que o usa.
Perante esta aceleração, a comunidade educativa salesiana é chamada a reafirmar a sua missão, ser um porto seguro e um farol para os jovens. A pedagogia de São João Bosco, que soube comunicar o Evangelho com os meios mais inovadores do seu tempo, o teatro, a imprensa, o próprio Boletim Salesiano, revela-se surpreendentemente atual. O seu Sistema Preventivo, Razão, Religião e Afeto, é a bússola mais fiável para navegar nas águas turbulentas da era da informação.
A Razão ganha nova urgência na era das deepfakes, onde o real e o simulado se esbatem. Educar para o discernimento é ensinar o jovem a interrogar a fonte e a usar a IA como ferramenta poderosa de conhecimento, nunca como substituto da consciência, garantindo que a decisão final é sempre humana.
A Religião lembra-nos o valor intrínseco de cada pessoa, criada à imagem de Deus. No mundo digital, onde o anonimato fomenta o ódio e o cyberbullying, a dignidade cristã é o nosso maior antídoto, uma “netiqueta” que honra o próximo e combate o medo do cancelamento com a coragem da caridade. O digital é um novo Areópago que urge evangelizar.
O Afeto é talvez o elemento mais ameaçado. Dom Bosco ensinou que a educação é “coisa do coração” e que se está mais seguro no meio dos jovens. Numa sociedade marcada pela solidão, é na relação presencial, na alegria do oratório, que o jovem experimenta o amor capaz de o afastar do isolamento do ecrã.
O Papa Francisco recordou-nos que a sabedoria permite “ver as coisas com os olhos de Deus”. A IA é espantosa, mas carece de alma, de empatia e de capacidade moral. Inspirados pelo espírito de Dilexi Te, do Papa Leão XIV, sobre o amor aos pobres, também a tecnologia deve servir para intensificar o amor, nunca para fragilizar a alma, sobretudo a do mais fraco.
A missão salesiana não mudou, é o cuidado da alma. Quem salva uma alma, salva a sua. Educar o coração é assegurar a primazia do ser humano sobre a técnica.
Da Mihi Animas, Coetera Tolle. O essencial permanece. O resto, pode o algoritmo levar.
Ilustração: Sónia Borges

Publicado no Boletim Salesiano n.º 617 de setembro/outubro de 2026
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