A forma como a Igreja comunica e chega às pessoas foi um dos muitos temas discutidos no debate “Reaprender a arte de conversar” com D. Alexandre Palma, presidente da Comissão Episcopal das Comunicações Sociais e com o jornalista, João Miguel Tavares, nas Jornadas Nacionais de Comunicação Social. E, efetivamente, esta questão dá que pensar: “Como pode a Igreja continuar a comunicar numa sociedade que mudou?” A mensagem continua lá. O problema pode estar na forma como chega às pessoas.
Vivemos num tempo em que a comunicação acontece de forma rápida e direta. No entanto, como foi referido durante o debate, por João Miguel Tavares, “o mundo já mudou e a forma de evangelizar e de passar a mensagem é a mesma.” E talvez seja precisamente este um dos grandes desafios da Igreja.
A melhor forma de transmitir uma mensagem pode não estar apenas nas palavras, mas nos exemplos, nas pessoas e nas histórias reais. Na capacidade de mostrar que dentro da Igreja também existem dúvidas, fragilidades, conflitos e fracassos. A Igreja é feita de “pecadores”, sublinhou João Miguel Tavares e, de facto, uma Igreja feita de pessoas perfeitas dificilmente conseguirá falar com quem sabe que não o é.
Outra ideia particularmente importante foi a de que autenticidade e vida estão intrinsecamente ligadas. Isto é, numa altura em que todos podemos construir uma imagem de nós próprios nas redes sociais, dizer que acreditamos em determinados valores é fácil. Mais difícil é vivê-los quando ninguém está a olhar. “É preciso saber jogar o jogo”, indicou D. Alexandre Palma.
E talvez seja também por isso que a evangelização não tenha necessariamente de acontecer dentro de uma igreja. Pode acontecer numa conversa, numa ação concreta, numa história ou simplesmente na forma como alguém escolhe estar com os outros. Se a mensagem da Igreja passa pelo amor, pela esperança, pelo perdão e pela preocupação com o próximo, então esses valores podem ser comunicados muito para além dos espaços tradicionalmente religiosos. A Igreja tem de “contar histórias reais, de gente ferida”, referiu D. Alexandre Palma.
Mais do que dizer às pessoas em que devem acreditar, talvez seja necessário mostrar-lhes, através de exemplos concretos, aquilo em que a Igreja acredita. Ajudar alguém, estar presente quando é preciso, ouvir sem julgar, acompanhar quem atravessa uma dificuldade ou simplesmente tratar o outro com dignidade, podem ser formas de comunicar uma mensagem cristã sem ser necessário pronunciá-la.
Mas mudar a forma de comunicar não significa abandonar a essência. A mensagem central continua a ser a mesma: a fé em Cristo, a esperança e a ideia de que todos somos filhos de Deus. O desafio está em conseguir dizê-lo a quem já não ouve a Igreja da mesma maneira.
Talvez a Igreja não precise de encontrar uma mensagem nova. Precisa sim, de encontrar uma nova forma de contar a mensagem que já tem. Com mais proximidade, mais genuinidade e mais coragem para sair dos discursos habituais.
“Quem comunica, tem de vibrar”, disse o jornalista. E talvez seja esse o ponto de partida. Se a Igreja quer chegar a quem está fora, tem primeiro de falar essa linguagem. Não para deixar de ser Igreja, mas para voltar a ser ouvida.



