“Colaboradores da vossa alegria”*: O testemunho da minha aventura de acompanhar espiritualmente

Acompanhamento Vocacional é uma reflexão sobre o encontro com a vontade de Deus e a proposta oferecida pelos salesianos a adolescentes e jovens.

Ao pensar numa frase para tentar descrever o ministério e o papel daquele que acompanha espiritualmente alguém, e pensando também em primeira pessoa, creio que as palavras de São Paulo citadas no título deste artigo indicam o horizonte e o método deste caminho. E cito o versículo completo que é ainda mais claro: “Não pretendemos atuar como senhores sobre a vossa fé; queremos, antes ser colaboradores da vossa alegria” (2 Cor 1, 24).

É essencial entender que a evangelização não é apenas anúncio e celebração (que são fundamentais e essenciais), mas que se deve tornar também um processo de educação da própria experiência de fé. Os crentes – e sobretudo os jovens – não precisam que lhes digam somente que Jesus é necessário, mas que os acompanhem na descoberta dessa necessidade.

Tanto no tempo de formação como depois da ordenação, sempre me disseram que o padre é chamado antes de mais nada a “estar” com os fiéis, com os jovens… a estar, apesar dos compromissos, das celebrações, das reuniões. O padre é um sinal de Jesus, o pastor que conhece as suas ovelhas, que as chama pelo nome, que cuida delas até ao ponto de dar a própria vida. Mas este “estar” expressa-se de muitas maneiras e a mais importante parece-me ser uma presença que se torne estímulo e provocação. Uma presença feita de proximidade e partilha de vida e de fé. É esta a única forma de “estar” que pode provocar o desejo de acompanhamento.

Com a experiência dou-me conta que o acompanhamento espiritual não é fácil. É cansativo, não tem resultados imediatos, tem vários riscos, desperta até o medo de cometer erros, sobretudo o de se substituir ao outro. Acompanhar é a aventura mais desafiante e também a mais entusiasmante. Porque gera dinamismo na fé quer de quem é acompanhado quer de quem acompanha. Porque na experiência do acompanhamento cada um dá aquilo que é, partilha a sua interioridade.

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Quem acompanha é hoje mais do que nunca chamado a ser “fecundo”, ou seja, a reconhecer-se a si próprio como “pai espiritual”, chamado a encorajar, estimular, propor e apoiar os caminhos e as aventuras da fé, tanto pessoais como comunitárias. De facto, quem é acompanhado tem o direito de ver o seu “diretor espiritual” assim, de lhe pedir que seja assim: um verdadeiro pai que escuta e acompanha o anseio de cada um de fazer crescer em si a imagem de Jesus. Alguém que anima a partir de dentro com coragem, entusiasmo, criatividade e paixão.

Como padre sinto-me feliz sempre que as pessoas me procuram para as ajudar a crescer na fé, mesmo quando me pedem coisas que não são propriamente específicas do meu ministério. No entanto, é quando os jovens e os fiéis pedem – direta ou indiretamente – o pão da Palavra, o conselho, o apoio, o acompanhamento na fé, a reconciliação com Deus que verdadeiramente me sinto realizado na minha vocação, porque me sinto ‘pastor’! Sem pretensões de encontrar soluções ou caminhos certos, mas sempre disposto a caminhar, ajudando com tudo o que tenho de bom e de frágil a seguir o verdadeiro Pastor.

O acompanhamento espiritual é então uma verdadeira experiência de comunhão, que leva ambos os implicados a crescer na alegria do Evangelho.

E é como “colaborador da vossa alegria” que gosto de me ver como padre!

* Segunda epístola de São Paulo aos Coríntios, capítulo 1, versículo 24

Fotografias: Andrew Neel/Unsplash e Amor Santo/Cathopic

Publicado no Boletim Salesiano n.º 595 de novembro/dezembro de 2022

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