Acreditar no mundo sem bússola

Mensagem do Reitor-Mor, Pe. Fabio Attard, aos leitores do Boletim Salesiano.

Uma reflexão sobre Rm 12,12: «Sede alegres na esperança, constantes na tribulação, perseverantes na oração». Detenhamo-nos um momento sobre estas poucas palavras. Releiamo-las lentamente, deixando que cada uma delas encontre o seu lugar dentro de nós: alegres… constantes… perseverantes. São palavras breves, escritas por Paulo à comunidade de Roma que contêm um caminho completo. São como pontos cardeais oferecidos a quem receia ter-se extraviado na estrada.

E quantos, hoje, se dão conta deste extravio. Vivemos num tempo rico de possibilidades, de conhecimentos, de instrumentos; todavia, com frequência, pobre de referências compartilhadas. Somos bombardeados continuamente por informações, propostas, promessas de felicidade, e temos dificuldade em distinguir o que permanece daquilo que é efémero. Tudo acelera. Cresce a incerteza, a vida fragmenta-se. E algo, dentro de nós, enfraquece: a capacidade de esperar, de perceber, de confiar.

Não nos oferece uma fórmula que consola por um instante. Confia-nos uma regra de vida. Não nos pede que fujamos do mundo, mas que o habitemos com um coração orientado. Esperança, constância, oração: entrelaçadas umas nas outras como a corda de três cabos que não se quebra tão facilmente.

Alegres na esperança

Sede alegres na esperança. A primeira palavra é um convite à alegria. Não a uma alegria superficial, mas a uma alegria calma que nasce de uma certeza: Deus é fiel. A nossa vida tem sentido. Nenhuma situação, por mais obscura que seja, é definitivamente subtraída à Sua mão que salva.

Deixemos que esta certeza se aprofunde. A história não é uma sequência casual de eventos; a nossa existência não é entregue ao vazio. Caminhemos para uma meta que não construímos sozinhos: recebemo-la como promessa, acolhemo-la como dom. E precisamente por isso a esperança não nos desvincula dos compromissos de cada dia. Antes, oferece-no-los para viver com maior liberdade e responsabilidade.

Quem espera pode semear mesmo quando ainda não vê a colheita; amar sem possuir; servir sem procurar recompensa. A esperança liberta-nos da ânsia do «tudo e já», educa-nos a uma espera fecunda, paciente, confiante: como a do agricultor que aguarda com constância o precioso fruto da terra.

Ser alegres na esperança significa então guardar no coração uma alegria capaz de atravessar até as lágrimas. É a alegria de quem sabe que o mal não terá a última palavra. Uma alegria humilde, por vezes silenciosa, mas que se apoia sobre uma rocha: a presença de Deus.

Constantes na tribulação

A esperança cristã não suprime a tribulação. Não promete a ninguém uma vida sem provas. Pede-nos algo de mais humilde e, ao mesmo tempo, maior: permanecer constantes dentro da prova.

A constância é a força silenciosa de quem permanece fiel quando o caminho se torna íngreme. É não abandonar o bem só porque exige tempo, sacrifício, paciência. Quando tudo à nossa volta nos impele a descartar tudo o que não satisfaz logo, o crente testemunha o valor da fidelidade: nas relações, na vocação, no serviço, na educação, no compromisso pela justiça.

A tribulação tem muitos rostos, e cada um de nós conhece alguns deles. A doença. A solidão. O insucesso. As incompreensões. A crise da fé. O cansaço de acompanhar quem sofre. E também as tribulações que pesam sobre povos inteiros: a guerra, a pobreza, as migrações forçadas, a violência, as desigualdades, a falta de confiança no futuro. Perante tudo isto, o discípulo não pode voltar o olhar para outro lado. A indiferença não é uma via evangélica.

A constância segundo o Evangelho torna-se então presença: a capacidade madura de permanecer junto de quem sofre, sem fugir. É a coragem de defender a dignidade da pessoa quando ninguém parece vê-la. É a fidelidade ao Evangelho mesmo quando a sua palavra parece débil, incómoda, contrária às tendências dominantes.

Perseverantes na oração

Mas de onde nascem a esperança e a constância? Não só da força de vontade. Têm necessidade de uma nascente mais profunda, e Paulo indica o nome dela: perseverantes na oração. Sem a oração, a esperança corre o perigo de ficar reduzida a otimismo ingénuo e a constância a obstinação sem sentido. Ao invés, na oração, reconhecemos com gratidão que a nossa vida é sustentada por Deus.

Rezar é voltar, todos os dias, à nascente. No silêncio e na escuta da Palavra aprendemos a distinguir o que é urgente daquilo que é verdadeiramente importante. A oração não é uma varinha mágica que muda as circunstâncias. É o espaço sagrado em que Deus nos transforma: transforma o olhar, ilumina o coração, ensina-nos a ler a história não a partir dos nossos medos, mas à luz da sua fidelidade.

Perseverar na oração significa ser fiel mesmo nos tempos de aridez, de distração, de silêncio, quando não sentimos nenhuma consolação. É mesmo ali que a oração se purifica: escolhemos confiar em Deus por aquilo que Ele é, e não apenas por aquilo que nos oferece.

A oração perseverante torna-se assim relação, abandono, disponibilidade. E não nos fecha num espaço intimista. O verdadeiro encontro com Deus amadurece sempre numa chamada a ir ao encontro dos irmãos: os pobres, os jovens desorientados, as famílias feridas, aqueles que perderam a esperança. A verdadeira oração abre os olhos, educa à compaixão, conduz ao serviço.

Uma bússola para o nosso tempo

Num mundo sem bússola, o cristão não pretende possuir todas as respostas. Testemunha, mais simplesmente, que encontrou uma direção. E esta direção tem um rosto e um nome: Cristo, no qual o sofrimento é atravessado pelo amor e a morte se abre à ressurreição.

O crente não impõe certezas com arrogância. Oferece um testemunho credível: alegre sem ser ingénuo, constante sem se tornar rígido, orante sem se alhear da história. Com a sua vida mostra que é possível outro modo de viver.

Na desorientação do nosso tempo, Paulo confia-nos uma bússola simples e profunda. Conservemo-la nas mãos e deixemos que oriente os nossos passos: esperar com alegria, resistir com amor, rezar sem desanimar.

Imagem: “São Paulo”, Valentin de Boulogne, Museu de Belas-Artes de Houston (1618-1620)

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