Numa pequena loja de cerâmica existiam dezenas de peças perfeitas. Taças brilhantes. Pratos elegantes. Jarras impecáveis. No canto mais escondido encontrava-se uma chávena rachada. Tinha uma fissura visível desde a pega até à base. Por causa disso, ninguém a comprava. Durante anos permaneceu na mesma prateleira. Um dia entrou uma senhora que procurava recipientes para plantar flores. Observou todas as peças. E escolheu precisamente a chávena rachada. Levou-a para casa. Plantou nela pequenas sementes. Sempre que a regava, uma parte da água escorria pela fissura e humedecia a terra ao redor. Meses depois começaram a nascer flores ao longo do percurso por onde a água passava. A chávena observava tudo sem compreender. Aquilo que durante anos considerara um defeito tinha-se transformado numa fonte de vida. Nunca se tinha sentido tão útil. Não apesar da sua fragilidade. Mas através dela.
Ligação ao Tema
A mulher adúltera é apresentada aos outros através da sua falha. Jesus vê algo mais profundo. Tal como a chávena rachada, cada pessoa possui fragilidades, erros e limites. A fragilidade torna-se fonte de vida. A questão principal, porém, não é a rachadura da chávena, mas o olhar que decide se ela será condenada ao esquecimento ou acolhida como lugar possível de vida. Tal como Jesus, a senhora da loja não nega a fissura, recusa apenas que ela seja a última palavra sobre a chávena.
Questões para Reflexão
- A chávena é rejeitada durante anos por causa de uma única fissura, mesmo tendo tantas outras qualidades, tal como a mulher é reduzida, aos olhos dos acusadores, a um único momento da sua vida ("apanhada em flagrante adultério"). Jesus, em vez disso, escreve no chão e devolve a cada acusador a sua própria fragilidade ("quem de vós estiver sem pecado…"). Tenho tendência a reduzir alguém (ou a reduzir-me a mim próprio) a um único erro, esquecendo tudo o resto que essa pessoa é?
- É precisamente através da fissura que a água escorre e faz nascer flores: a fragilidade da chávena não é escondida nem disfarçada, torna-se o caminho da vida nova. Jesus não manda a mulher esconder o seu passado, apenas diz: "vai, e não peques mais." Consigo aceitar que algumas das minhas maiores fragilidades ou erros passados possam vir a ser, precisamente, o lugar por onde algo de bom ainda vai nascer em mim ou nos outros?
- Um a um, os acusadores da mulher vão-se embora, "começando pelos mais velhos", como se o reconhecimento da própria fragilidade fosse mais fácil para quem já viveu mais e errou mais vezes. A senhora só escolhe a chávena rachada porque olha para ela de forma diferente de todos os outros clientes. Há alguém à minha volta que eu tenho visto apenas pela sua "rachadura", e que talvez precise que eu olhe para essa pessoa como a senhora olhou para a chávena, vendo possibilidade em vez de defeito?
