Antes de serem migrantes, são crianças

Na primeira semana de aulas, uma professora pediu às crianças que desenhassem a sua família. Num dos desenhos, à volta de uma mesa estavam quatro cadeiras, mas apenas três tinham alguém sentado. Perguntou ao menino se faltava alguém. Ele respondeu: “Não falta. O meu pai é que ficou lá.”.

“Lá” era o país de onde tinha partido.

Nem sempre pensamos na migração desta forma. Quando alguém chega, vemos facilmente as diferenças: a língua, os costumes ou a maneira de estar. Porém, quem chega traz muito mais do que aquilo que conseguimos ver. Há crianças marcadas pela guerra, pela pobreza, por viagens muito duras ou pela separação daqueles que amam. Cada uma delas traz consigo uma história, afetos, memórias, capacidades e sonhos. Traz também ausências. Há muito que ficou para trás e muito que continua a viajar com elas, mesmo sem se ver. Sobretudo, antes de serem migrantes, são crianças.

É por isso que a expressão escolhida pelo Papa Leão XIV para o Dia Mundial do Migrante e do Refugiado de 2026 ganha tanta força: “Mesmo uma só destas crianças”. Uma só basta para nos comprometer. O Papa pede-nos que saibamos reconhecer a criança na sua dignidade antes mesmo da sua condição de migrante.

Reconhecê-la pede-nos mais do que uma porta aberta. Pede-nos que cuidemos do lugar que preparamos para quem entra. Por isso, a pergunta principal não deve ser apenas se acolhemos crianças e jovens migrantes, mas como se sentem depois de chegar. Encontram alguém que aprende a dizer corretamente o seu nome? Um pátio onde não ficam a assistir ao jogo de fora? Uma atividade onde aquilo que sabem e trazem consigo também tem valor? Alguém que percebe quando o silêncio esconde saudades? Um educador interessado não apenas no lugar de onde vêm, mas na pessoa que chegou?

Preparar esse lugar significa criar encontro. Na sua mensagem o Papa Leão XIV desafia-nos a aproximar jovens locais e migrantes, para que possam crescer juntos no respeito, na solidariedade e na amizade. Não basta, por isso, encontrar um lugar para quem chega. É preciso deixar que o encontro transforme também quem acolhe. Há quem chega e encontra acolhimento e há quem acolhe e descobre que também tinha alguma coisa para receber.

O Papa recorda-nos que não podemos delegar o acolhimento apenas em instituições ou pessoas especializadas. É uma responsabilidade de toda a comunidade. Todos estamos implicados. Quem recebe à porta. Quem educa. Quem acompanha uma família. Quem prepara uma atividade. Quem convida para o jogo. Quem se senta ao lado de alguém que ainda não conhece. A integração constrói-se na simplicidade destes pequenos gestos quotidianos.

Depois de conhecermos um nome, uma história, os afetos que ficaram “lá” e os sonhos que chegaram “aqui”, não deveríamos passar de “temos crianças migrantes entre nós” para “estas crianças fazem parte de nós”? Não deveria, por isso a palavra “estrangeiro” inquietar-nos? Há palavras que, mesmo sem querermos, continuam a colocar alguém do outro lado. Quem está, afinal, desse outro lado? Uma criança. Um jovem. Alguém com uma história para contar, algo para oferecer, direitos a proteger e um futuro por construir.

Acolher é, por isso, quebrar essa barreira invisível que cria dois lados e aproximarmo-nos à mesma mesa. Não podemos preencher todas as cadeiras vazias daquilo que ficou “lá”, mas podemos cuidar da cadeira que está “aqui”. Podemos puxá-la para mais perto. Podemos fazer com que nenhuma criança ou jovem precise de perguntar se há lugar para si.

A cadeira já está puxada. Tu eras esperado.

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